América Latina: Disparidades no ensino pré-escolar

Santiago, 27/10/2006 – A América Latina é a região em desenvolvimento que mais avançou em educação pré-escolar, embora mantenha uma dívida que afeta os grupos mais vulneráveis, conclui o informe de acompanhamento da Educação para todos 2007, apresentado nesta quinta-feira na capital do Chile. “A região não progrediu de forma homogênea. Nossa média de educação pré-escolar é de 1,7 anos, mas temos países com 3,5, com Cuba, e com apenas cinco meses, como Bahamas. O Chile está na média”, disse à IPS Ana Luiza Machado, diretora do Escritório Regional para a América Latina e o Caribe da Organização das Nações Unidas para a Educação, A Ciência e a Cultura (Unesco).

América Latina e Caribe é a região em desenvolvimento com a maior taxa bruta de escolarização pré-escolar, com 62%, à frente da Ásia oriental e do Pacífico (35%), Ásia meridional e ocidental (32%), os Estados árabes (16%), e África subsaariana (12%). Os três principais desafios da região nesta matéria são aumentar a equidade, isto é, chegar aos mais excluídos; melhorar a qualidade, já que não basta o acesso, e ampliar a responsabilidade social, porque os governos não podem agir sozinhos, disse Ana Luiza. O relatório de acompanhamento, realizado anualmente desde 2002, é uma publicação que a Unesco encomenda a uma equipe de especialistas independentes.

A Educação Para Todos tem seis objetivos, aprovados por 164 países no Fórum Mundial sobre a Educação, realizado em Dakar (Senegal) em 2000, que devem ser cumpridas até 2015, como os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. O informe 2007, denominado “Bases sólidas. Atenção e educação da primeira infância”, se centra no primeiro dos cinco objetivos educacionais: “estender e melhorar a proteção e o ensino integrais (nessa fase da vida que vai até os 5 anos), especialmente para as crianças mais vulneráveis e desfavorecidas’, embora também revise os avanços registrados no restante das metas.

Os pesquisadores examinaram especificamente os programas de Atenção e Educação da Primeira Infância (AEPI), que “tem por objetivo dar apoio à sobrevivência, ao crescimento, desenvolvimento e aprendizagem da criança – o que compreende cuidar de sua saúde, nutrição e higiene, bem como de seu desenvolvimento cognitivo, social, físico e afetivo – desde seu nascimento até a entrada na escola primaria, em contextos formais, não-formais e informais”. No mundo, anualmente morrem mais de cem milhões de crianças menores de 5 anos e a metade deles falece devido a doenças transmissíveis que podem ser prevenidas. De cada mil menores nascidos nos últimos anos haverá 86 que não chegarão a viver mais do que cinco anos.

Considerando “suas repercussões positivas na saúde, nutrição e no aproveitamento escolar, os programas da AEPI constituem uma boa fonte de investimento em capital humano”, diz o informa, já que as competências adquiridas neles são “o fundamento de todo aprendizado posterior. Os benefícios a curto e longo prazo desses programas os tornam uma estratégia eficaz, em função de seus custos, para reduzir a pobreza e compensa as desvantagens”, acrescenta o documento. “Um dólar investido em educação pré-escolar rende US$ 17 no futuro”, disse Ana Luiza durante a apresentação do estudo em Santiago, simultaneamente ao lançamento mundial em Nova York.

O informe indica que as experiências de sucesso incluem programas de apoio aos país, formação em língua materna que fomente a igualdade entre os sexos, desenvolvimento precoce da linguagem, integração de meninos e meninas com deficiências em escolas comuns e transição para a educação primária. Ana Luiza destacou o programa cubano “Eduque seus filhos”, que já é copiado em vários países da região, no qual é ensinado às mães, país e avós formar pessoalmente os menores aos seus cuidados. O informe também destaca o programa “Lares Comunitários”, realizado na Colômbia, que promove “mães comunitárias”, isto é, mulheres que em suas casas cuidam dos filhos de suas vizinhas durante as horas de trabalho, com alimentação e recreação.

Da mesma forma, “o informe mostra que o Chile avançou muito, tanto que a presidente Michelle Bachelet foi convidada para a apresentação do informe em Nova York, mas, como não pôde comparecer, enviou um vídeo para incentivar outros países em desenvolvimento a também investirem na educação pré-escolar”, disse a funcionária da Unesco. “O Chile tem um processo de apoio sustentado à educação pré-escolar, mas há muito a ser feito ainda, principalmente com as populações mais pobres, rurais e de povos originários”, alertou a especialista. Tanto em Santiago quanto em Nova York foi exibido o vídeo de Bachelet, a qual garantiu que seu país “assumiu ‘o futuro das crianças é hoje’, do qual fala Gabriela Mistral, nossa grande poeta e também educadora”.

No último dia 13, Bachelet lançou o Sistema de Proteção Integral da Infância, denominado “O Chile cresce com você”, que recolhe as principais recomendações do Conselho Assessor Presidencial para a Reforma das Políticas da Infância, criado pela presidente pouco depois de Assumir o cargo, em 11 de março deste ano. Este programa é uma experiência inédita na América Latina, baseada no modelo aplicado na Grã-Bretanha, disse está semana à IPS Clarisa Hardy, ministra do Planejamento, pasta encarregada de coordenar o programa. O principal objetivo desta iniciativa governamental é dar proteção à infância desde a gestação até sua entrada no sistema escolar, cuidando de seus direitos e a acompanhando nesta etapa importante de seu desenvolvimento.

O sistema de proteção à infância será progressivamente instalado a partir de janeiro em 100 periferias de cidades do país, em 250 no ano seguinte e o restante em 2009. No começo de 2007, serão enviados ao Congresso os projetos de lei que darão vida ao plano. O programa considera a disponibilidade de creches e jardins da infância para os filhos de mães que trabalham, procuram trabalho ou estudam, das famílias mais pobres e também para os menores com necessidades especiais. No total, serão beneficiadas seis em cada 10 crianças.

Também será estabelecida nova legislação sobre adoção e serão criados dois fundos para que as organizações da sociedade civil participem ativamente do desenvolvimento infantil, com prioridade para esporte, cultura, infra-estrutura e equipamento comunitário. Além disso, serão criados um site na Internet e um observatório da infância para fazer o acompanhamento do sistema de proteção. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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