Brooklin, Canadá, 27/10/2006 – O Norte industrializado deve pagar os países tropicais para que protejam suas florestas, já que sua capacidade de armazenar dióxido de carbono e minimizar a mudança climática as faz torna mais valiosas do que a própria terra destinada a outros usos alternativos. Essa afirmação surgida de um informe do Banco Mundial é apoiada por ambientalistas que alertam para a urgência vital de reduzir o desmatamento, mas, que, por sua vez, entendem que o mecanismo adequado não é o sistema chamado mercado de carbono, um dos gases que aquecem a atmosfera. Essa estratégia também é muito complicada de ser implementada.
As selvas diminuem ao ritmo de 5% em cada década desde a metade do século passado. Nos últimos cinco anos perdeu-se mais de 50 milhões de hectares, uma área quase igual ao território da França. Além disso, a perda de biodiversidade, da destruição dos ecossistemas e outros impactos negativos, o desmatamento é um dos principais responsáveis pelas emissões de gases causadores do efeito estufa, aos quais a maioria dos cientistas atribui o aquecimento do planeta. De fato, devido ao desmatamento esses gases equivalem a quase o dobro do que é liberado pelo transporte rodoviário mundial.
“As árvores valem mais vivas e armazenando carbono do que queimadas e transformadas em campos improdutíveis”, alertou Kenneth Chomitz, responsável pelo informe do Banco Mundial, divulgado está semana. “Um fazendeiro brasileiro que limpa um hectare de floresta no Amazonas para desenvolver pastagens cujo valor equivalerá a cerca de US$ 300 libera 500 toneladas de dióxido de carbono na atmosfera enquanto as arvores apodrecem e são queimadas”, disse Chomitz à IPS. Mas, no mercado europeu de carbono, onde esse gás tem valor de US$ 15 a tonelada, esse hectares de selva vale US$ 7,5 mil.
Em outras palavras, a indústria européia paga US$ 15 para compensar cada tonelada de dióxido de carbono emitido e, assim, cumprir suas cotas pautadas pela comunidade internacional. Um parque eólico, que não emite gás que causa o efeito estufa pode vender créditos de carbono. “Ao limpar um hectare, o fazendeiro destrói um valor equivalente a US$ 7,5 mil para criar um de US$ 300”, afirmou. “Temos de ser suficientemente engenhosos para ver como compensara proprietários e governos nacionais para que sua suas selvas preservem o carbono”.
O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), do Protocolo de Kyoto, permite aos países-membros cumprir sua redução prevista financiando reduções nas emissões de carbono em outras partes do mundo e ajudando os países em desenvolvimento a diminuir as suas. O reflorestamento integra o MDL, mas, impedir ou evitar o desmatamento não é permitido. “O Protocolo tem uma grande assimetria. As selvas são cortadas enquanto se planta árvores para conseguir créditos de carbono na porta ao lado”, ressaltou Chomitz. Se as nações em desenvolvimento podem conseguir renda reduzindo o desmatamento, o dinheiro poderia ser usado para preservar as florestas e fomentar a agricultura produtiva em terras não tão boas, acrescentou.
Costa Rica e papua Nova Guiné já consultaram a Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climatica para que estude formas de incentivos para que os países evitem o desmatamento mediante créditos de carbono, diz o informe do Banco Mundial. Essa entidade de crédito estima que o valor do carbono intercambiado em 2005 chegou a US$ 10 bilhões, com a perspectiva de maior aumento mediante novos projetos de financiamento ao desenvolvimento sustentável no Sul. Espera-se que o assunto seja um tema importante da Conferência de Mudança Climatica da Organização das Nações Unidas, a ser realizada em novembro em Nairóbi, disse Chomitz.
A questão despertará acalorados debates. Muitos ambientalistas se opõem à idéia de trocar “carbono marrom” das usinas de carvão por “carbono verde” da selvas, disse Bill Batrclay, ativista da Rainforest Action Network, organização ambientalista com escritórios em São Francisco e Tóquio. “Não se deveria trocar um pelo outro, não são a mesma coisa”, disse à IPS. As emissões de carbono pelo uso de combustível fóssil são, na essência, permanentes, pois ficam na atmosfera por centenas de anos. O carbono das selvas é dinâmico, um incêndio, uma inundação ou o foco de alguma doença pode liquidar as árvores, liberando todo esse carbono na atmosfera.
É tentador financiar a preservação das selvas por meio do mercado de carbono, mas, seria muito complexo estabelecer um sistema para medir e supervisionar a quantidade desses gases armazenada por elas durante décadas. Reduzir as emissões industriais é mais fácil e mais efetivo, afirmou. Chomitz reconhece essa dificuldade, mas, considera que com as observações via satélite graças a sistemas com o GPS (Sistema de Posicionamento Global), o controle e a fiscalização são possíveis. A compra de créditos de “carbono verde” baratos para compensar as emissões industriais é uma forma fácil de o Norte industrializado não fazer nada diferente, insistiu Barclay.
Uma forma melhor de investir esse dinheiro está nas novas tecnologias que liberam pouco carbono na atmosfera. A mudança climática coloca em risco as selvas e um terço do Amazonas pode ter se perdido, segundo algumas estimativas, acrescentou o ativista. “Temos de fazer as duas coisas: reduzir nossas emissões de carbono e o desmatamento. Mas, em nenhum dos casos estamos fazendo direito”, ressaltou. O estudo do Banco Mundial também indica que o alivio da pobreza deve fazer parte do contexto para a preservação de selvas mediante o mercado de carbono.
“Chegou o momento de reduzir as pressões das selvas mediante um contexto integral que inclua sem manejo sustentável por meio de uma estratégia global para atenuar a mudança climática e preservar a biodiversidade”, disse Katherine Sierra, vice-presidente de Desenvolvimento Sustentável do Banco Mundial. O documento desse organismo não menciona que o desmatamento avança de mãos dada com o consumo de carne bovina barata, soja, madeira e outros produtos nas nações ricas do Norte. As políticas do Banco Mundial tiveram um papel significativo ao financiar, por exemplo, o crescimento das plantações de soja na selva amazônica e na savana no começo da década de 90 para abastecer os mercados europeus, disse Barclay.
Atualmente, o desmatamento enriquece algumas poucas pessoas, mas as novas instituições e tecnologias da rede de conservação de selvas mediante o mercado de carbono têm possibilidades de se contrapor a isso, disse Chomitz, que propõe um enfoque melhor seria que os governos industrializados contribuíssem com um fundo destinado a compensar os governos do Sul pela redução do ritmo de desmatamento em seus países. “Reduzir o desmatamento traz grande quantidade de benefícios incluindo a preservação da biodiversidade e a redução das emissões de carbono”, disse Chomitz, acrescentando que ao atacar as causas desse mal se avança muito na solução de problemas. (IPS/Envolverde)

