Washington, 06/11/2006 – Os neoconservadores dos Estados Unidos, que dominaram a política externa de Washington durante a primeira metade do governo de George W. Bush, enfrentam agora seu pior momento, nas eleições legislativas desta terça-feira, quando poderão perder vários fiéis partidários no Congresso, entre eles o senador Rick Santorum, famoso por suas constantes advertências sobre o “fascismo islâmico”. Mas, uma clara vitória do opositor Partido Democrata também poderia aumentar a pressão sobre o governo para fixar um prazo de retirada do Iraque e dificultar seus esforços para obter apoio a uma eventual ofensiva militar contra o Irã, uma das prioridades neoconservadoras, nos dois anos que restam do governo Bush.
“Um Congresso democrata dificultará as coisas para os “falcões”, a ala mais belicista do governo Bush, disse Kenneth Pollack, da Brookings Institution e ex-analista da Agência Central de Inteligência (CIA). Por outro lado, a guerra no Iraque, que teve nos neoconservadores os principais propulsores, se constituiu neste ano em uma pesada carga para os candidatos do governante Partido Republicano. Mesmo quando os republicanos conseguiram manter seu controle no Senado, o apoio entre suas fileiras a um compromisso a longo prazo na ocupação do Iraque ou a nova aventura no Irã seria muito fraco.
Muitos candidatos republicanos já se distanciaram da Casa Branca na questão do Iraque, e o próprio Bush se viu obrigado a abandonar sua idéia de “manter o curso” da ocupação, que defendia há três anos. Alguns inclusive mostraram uma mudança radical. O ex-secretário de Estado Alexander Haig, originalmente partidário da invasão do Iraque, surpreendeu muitos ao afirmar há duas semanas na rede de televisão CNN que a guerra nesse país foi “dirigida pelos chamados neoconservadores, que seqüestraram” o Partido Republicano. Haig liderou o Departamento de Estado no governo de Ronald Reagan (1981-1989).
Em sua entrevista, Haig se referiu pelo nome a Richard Perle, do conservador American Enterprise Institute, e ao ex-subsecretário de Defesa e atual presidente do Banco Mundial, paul Wolfowitz, bem como aos editorialistas do jornal The Wall Street Journal. Perle, provavelmente o neoconservador mais influente, parece cada vez mais pessimista e crítico da administração nos últimos meses. “Creio que hoje temos um governo disfuncional”, disse há poucos dias a uma audiência no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, embora tendo o cuidado de não culpar Bush.
Tampouco serviu de ajuda aos neoconservadores o fato de Ahmad Chalabi, que foi o principal candidato de Perle e Wolfowitz para ser primeiro-ministro do Iraque, chamar o governo norte-americano a iniciar negociações com o Irã e a retirar suas tropas do território iraquiano. “Irã e Turquia, ambos poderosos países amigos do Iraque, devem participar do processo para ajudar a melhorar a situação de segurança nesse país, bem como para garantir seu desenvolvimento econômico e democrático”, disse Chalabi à agência de notícias Associated Press desde sua casa em Londres.
Estas afirmações são consideradas um anátema para os neoconservadores, que vêem o Irã como uma ameaça existencial para Israel que só pode se extinguir com uma ofensiva militar. Nos últimos dois anos, os neoconservadores tanto dentro quanto fora do governo acusaram os líderes iranianos de pretenderem desestabilizar o Iraque “libertado” e de fomentar a violência contra as tropas norte-americanas. Mas, a idéia da cooperação iraniana, em conversas diretas ou multilaterais, para estabilizar o Iraque é considerada chave por muitos políticos dos Estados Unidos para a concretização de uma retirada.
Entre estes há vários republicanos, como o ex-subsecretário de Estado Richard Armitage, e o presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, Dick Lugar, bem como destacados legisladores democratas, entre os quais a senadora Hillary Clinton. Nos últimos meses, o ex-secretário de Estado James Baker e os informantes do Grupo para o Estudo do Iraque, formado por congressistas dos dois partidos e que ele mesmo preside, recomendaram a Washington que inicie contatos diretos com Irã e Síria, bem como com outros agentes regionais, para estabilizar o Iraque.
“Creio na utilidade de conversar com seus inimigos”, afirmou no mês passado após se reunir com o embaixador iraniano na Organização das Nações Unidas, que responde de forma direta ao líder supremo da Revolução Islâmica do Irã, aiatolá Ali Khamenei. As palavras de Baker provocaram protestos dos membros do American Enterprise Institute, particularmente de Michael Ledeen, para quem o enfoque do ex-secretário de Estado é uma “contemporização ativa”; e de Michael Rubin, que alertou que “os cálculos de Baker poderiam ser úteis ao Iraque diante do Irã”. (IPS/Envolverde)

