Bagdá, 07/11/2006 – A condenação à morte do ex-ditador do Iraque Saddam Hussein (1979-2003) ameaça agravar ainda mais as divisões étnicas, religiosas e políticas que caracterizam este já desgarrado país. As comemorações de curdos no norte e xiitas no sul do Iraque e dos protestos em cidades de maioria sunita no centro do país são sinais preocupantes. A violência sectária entre sunitas e xiitas está destroçando a nação, e muitos temem que a execução de Saddam inicie uma guerra civil nesse país. O Alto Tribunal iraquiano declarou no domingo Saddam Hussein culpado de ter ordenado a morte de 148 xiitas em 1982.
O veredicto ameaça a estabilidade do país porque os que não são sunitas consideram que Saddam Hussein, muçulmano que professa esse ramo do Islã, implementou políticas para favorecer sua comunidade em detrimento de outras. Muitos moradores de Bagdá consideram que se apressou a sentença para beneficiar o governante Partido Republicano dos Estados Unidos nas eleições parlamentares desta terça-feira. As pesquisas indicam que o partido do presidente George W. Bush não terá uma boa votação, especialmente pela ampla percepção da população norte-americana de que a política de seu governo no Iraque foi um fracasso.
As divisões sectárias, aprofundadas pela ocupação militar liderada por Washington, cresceram a tal ponto que muitos afirmam que já existe no Iraque uma guerra civil. Sessenta e dois por cento dos 26 milhões de iraquianos são xiitas, a população hegemônica no sul, enquanto no centro predominam os sunitas (35%), o grupo islâmico majoritário no mundo árabe e também no regime de Saddam Hussein, deposto pela invasão dirigida pelos Estados Unidos em 2003. Quanto à composição étnica da população iraquiana, os árabes constituem três quartos, enquanto os curdos, cuja maioria professa o Islã sunita, somam 20%.
A comunidade curda está majoritariamente no norte, apesar da campanha de limpeza étnica implementada na região pelo governo de Saddam, e goza de ampla autonomia desde que obteve a proteção da força aérea britãnica depois da guerra do Golfo (1991). Em várias localidades xiitas, com Cidade Sadr, o populoso distrito de Bagdá, e Najar, Kerbala e Basra, muita gente foi às ruas comemorar. A maioria dos que professam esse ramo do Islã sofreu a dura repressão do governo de Saddam. Sua condenação também foi motivo de comemoração no Curdistão. Os curdos, como os xiitas, foram duramente reprimidos pelo ex-ditador.
Na véspera da sentença, o primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, da comunidade xiita, pediu à população que “não festejasse muito” o veredito. Ouros líderes dessa corrente religiosa tentaram aplacar o festejo e, inclusive, se opuseram à pena de morte, argumentando que a execução de Saddam o transformaria em mártir. O panorama de uma sociedade dividida se completou com os protestos e a raiva expressados pelos moradores das áreas de maioria sunita, especialmente Bagdá e na província Al-Anabar. Os sunitas, que agora suportam a repressão de um governo de maioria xiita, e sob influência dos Estados Unidos, adotaram o ex-ditador como líder próprio.
O bairro de maioria sunita em Bagdá, Al-Adhamiuya, a polícia combateu membros da resistência com metralhadoras, e em Tikrit, cidade natal de Saddam, muitos moradores desafiaram o toque de recolher para sair com sua fotografia nas ruas. A situação piorou ainda mais quando o exército iraquiano atacou pessoas que se manifestavam em favor do ex-ditador em muitas localidades. Os canais de televisão sunitas Zaqra e Salahedin, que mostravam os fatos, tiveram a transmissão imediatamente cortada e foram invadidos pelas forças de segurança.
A censura enfureceu ainda mais os sunitas. A medida se assemelha ao fechamento, ordenada pelos Estados Unidos, do jornal Al-Hawza, dirigido pelo clérigo xiita Muqtada al-Sadr, o líder que há dois anos desatou o primeiro levante contra as forças da ocupação. Em um país onde os esquadrões da morte matam, em média, mais de cem pessoas por dia, somente na capital, outro acontecimento polêmico é a última coisa que o país precisa neste momento. Outro possível ponto crítico fica na cidade de Kirkuk, rica em petróleo, com população mista de curdos e árabes, que foram localizados ali durante o regime de Saddam Hussein. Os líderes curdos querem que a cidade se integre à região autônoma do Curdistão.
No sul, dominado pelos xiitas, mais de cem mil iraquianos abandonam seus lares a cada semana enquanto os líderes fomentam o federalismo, sob o qual cada grupo étnico manteria um controle substancial sobre sua região. Se Saddam chegar a ser executado pode piorar um padrão pelo qual cada “êxito” do governo deste país ocupado provoca um aumento dos ataques a membros da coalizão invasora e às forças de segurança iraquianas. O ex-ditador foi capturado pelos Estados Unidos em dezembro de 2003, após ser delatado por combatentes curdos. Depois deste episódio aumentaram drasticamente os ataques contra as forças de segurança.
Um padrão semelhante foi vivido depois do assassinato do suposto líder da Al Qaeda Abu Musab al-Zarqawi, pelas forças ocupantes. A execução de Saddam Hussein ainda não foi confirmada, pois agora o veredito deve ser debatido por um painel de nove juízes que tem um tempo indefinido para revisar o caso. Mas se a sentença chegar a ser confirmada, Saddam será levado à forca no prazo de 30 dias. (IPS/Envolverde)

