Bagdá, 08/11/2006 – A instituição criada no Iraque pela ocupação norte-americana para proteger edifícios do governo, escolas, hospitais e bancos é a principal fonte da onda de violência religiosa em que se encontra o Iraque, segundo insistentes versões. “A primeira medida de Paul Bremer”, o diplomata norte-americano que liderou a administração civil da ocupação”, foi dissolver o exército iraquiano e todas as instituições de segurança”, explicou à IPS um funcionário ministerial que pediu para não ser identificado. O presidente George W. Bush “lhe concedeu a mais alta distinção da Casa Branca”, a Medalha da Liberdade, em dezembro de 2004, “por um trabalho bem feito”, ironizou a fonte.
As autoridades da ocupação norte-americana e os líderes iraquianos que colaboraram com ela criaram um novo exército e uma nova policia sob supervisão das forças multinacionais. Também se decidiu, na oportunidade, que cada ministério estabeleceria sua própria força de segurança fora do controle das pastas do Interior e da Defesa, embora na órbita de uma instituição central. A Ordem 27 da Autoridade Provisória da Coalizão, máxima autoridade civil das forças estrangeiras no Iraque, criou o Serviço de Proteção de Instalações (FPS) no dia 10 de abril de 2003, um dia depois da queda de Bagdá e 21 dias depois do início da invasão.
Este decreto indica que “A FPS também integrará empregados de firmas privadas de segurança contratadas para fornecer serviços aos ministros ou governadores”. Essas empresas e seus empregados deverão contar com “licença e autorização do Ministério do Interior”. Para a organização investigadora independente GlobalSecurity.Org, o FPS “trabalha para todos os ministérios e agências governamentais, mas, sua linha de ação é estabelecida e aplicada pelo Ministério do Interior”. Porém, o Serviço “também pode ser contratado privadamente”, acrescenta. “O FPS tem a tarefa de proteger os edifícios ministeriais, governamentais ou privados, instalações e pessoal”, acrescenta o informe da GlobalSecurity.org.
“A maioria dos empregados do FPS é de ex-guardas de segurança e ex-uniformizados. O FPS agora dará segurança a instalações públicas como hospitais, bancos e centrais de energia. Uma vez treinados, os guardas trabalham com forças militares norte-americanas na proteção de locais críticos como escolas, hospitais e centrais elétricas”, acrescenta a organização. Harid al-Fahad, um general do dissolvido exército iraquiano, assegurou que o FPS não faz nada disso. “Todas as forças formadas são, na realidade, milícias, e não forças organizadas. Foram criadas de acordo com porções destinadas a cada partido no poder”, disse o ex-militar à IPS em um café de Bagdá, de onde se ouvia as detonações aéreas próximas.
Os políticos levaram seus seguidores às autodenominadas forças de segurança. Outros aceitaram subornos entre US$ 500 e US$ 700 para cada solicitante para que lhe desse emprego sem levar em conta os regulamentos”, afirmou al-Fahad. Quando explodiu a violência entre comunidades religiosas por todo o Iraque, após o atentado contra um santuário xiita em Samarra, em fevereiro, “o FPS parecia a força principal por trás dos assassinatos na capital, e há evidência de que os cometeram por dinheiro”, disse o ex-general. A situação parece interminável. Para oficiais norte-americanos que treinam a polícia, a infiltração das milícias nas unidades poderia atrasar em anos a passagem do controle da segurança para as autoridades iraquianas.
“Como podemos esperar que os iraquianos comuns confiem na polícia se não podemos nem mesmo esperar que não matem nossos próprios camaradas?”, perguntou na semana passada o capitão Alexander Shaw, comandante da equipe de polícia de transição do 372 Batalhão de Polícia Militar. Este batalhão, cujo quartel fica na cidade de Washington, supervisiona o treinamento de todos os policiais na área ocidental de Bagdá. “Para ser honesto, não estou seguro de que alguma vez haverá aqui uma polícia livre da influência das milícias”, disse Shaw.
A maior parte da infiltração procede das duas grandes milícias xiitas, a Organização Badr, braço armado do pró-iraniano Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, e o Exército Mehdi, cujo líder espiritual é o mulá Muqtada al-Sadr. Shaw alertou que cerca de 70% da força polícia iraquiana correspondem a infiltrados, e que os oficiais têm muito medo de patrulhar vastas áreas da capital. “Nenhum policial iraquiano está trabalhando para melhorar o país”, disse à imprensa o general Salah al-Ani, chefe de polícia do ocidente de Bagdá. “Trabalham para as milícias ou para embolsar dinheiro”, afirmou.
O médico Nameer Hadi deixou sem emprego em um grande hospital da capital porque se sentiu ameaçado pelo FPS. “Os vi matando a sangue frio uma paciente quando souberam que era mulher de um líder tribal sunita”, disse à IPS. “Sou xiita, mas estes crimes são inconcebíveis”, acrescentou. Muitas pessoas, talvez a maioria da população de Bagdá, acreditam que o FPS é composto principalmente de delinqüentes. Os mesmos que saquearam bancos e repartições publicas enquanto ocorria a invasão norte-americana. O ministro do Interior, Jawad al-Bolani, rejeitou, no mês passado, acusações sobre a participação de policiais e militares em esquadrões da morte. Mas atribuiu o astronômico nível da violência ao FPS, que, segundo diversas estimativas, “conta com 150 mil homens. “Cada vez que capturamos alguém” por crimes políticos ou de ódio religioso, “raramente não é empregado dos ministérios”, disse al-Bolani. “A maioria é do FPS”, ressaltou.
Entrevistado pela TV Al Arabiya, via satélite, no mês passado, o porta-voz do governo iraquiano, Ali al-Dabbagh, admitiu que as forças de segurança requerem uma “purificação”, e acusou a atual violência por erros cometidos durante o “período Bremer”. Ao mesmo tempo, os ataques contra instalações do governo estão em seu apogeu. Portanto, o FPS tem sido pouco eficaz em protege-las, acrescentou. (IPS/Envolverde)

