Nova York, 07/11/2006 – Centenas de ativistas e especialistas em microcréditos estarão reunidos na cidade canadense de Halifaz entre os dias 12 e 15 deste mês para explorar novas formas de ajudar com pequenos empréstimos os pobres rurais. O encontro é a culminação da primeira fase de uma campanha internacional lançada há quase 10 anos pelo economista Muhammad Yunus, de Bangladesh, prêmio Nobel da Paz. Desiludido com a atitude dos bancos comerciais em relação aos pobres do setor rural, Yunus lançou em 1997 uma campanha ambiciosa para fornecer pequenos empréstimos a pelo menos cem milhões de pessoas, em sua maioria na Ásia.
A Campanha da Cúpula do Microcrédito reconhece que não pôde atingir esse objetivo, mas seus incentivadores disseram que já foram beneficiados 82 milhões de pessoas, principalmente mulheres. “Estamos um pouco atrasados a respeito do objetivo. Mas acreditamos que cumpriremos a meta até o final do próximo ano”, disse à IPS a porta-voz da iniciativa, Dalia Palchic. Muitos integrantes da campanha disseram que os pequenos empréstimos ajudaram quem sobrevivia com menos de um dólar por dia a iniciar e desenvolver pequenos projetos empresariais, favorecendo de forma indireta também outros 410 milhões de pessoas.
Os empréstimos, sem garantia, que representam, em média, cerca de US$ 100 por pessoa, costumam ser dados a analfabetos. O caso de Balkisu Amadu, dona de um negócio à beira de uma estrada em Gana, é mencionado no relatório anual 2006 da Campanha, publicado na quarta-feira. Há um ano, antes de receber o pequeno empréstimo, Amadu ganhava 81 centavos de dólar por dia. Agora, recebe cerca de US$ 4 diários graças à sua participação na Oportunidade Internacional do Banco de Investimentos de Gana, uma das 3,1 mil instituições do mundo associadas à Campanha.
A respeito do impacto em nível local, os ativistas apontaram Bangladesh como “o mercado mais saturado em microcrédito”, pois operam nesse país mais de 200 instituições que beneficiaram 21 milhões de pessoas. Desde 1976, somente o Grameen Bank, fundado por Yunus, ampliou seus pequenos empréstimos para mais de seis milhões de pessoas. Os ativistas disseram que os microcréditos contribuíram muito para reduzir a brecha de gênero no ensino primário.
“Bangladesh já cumpriu o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio sobre a igualdade de gênero na educação primária e secundária. A agenda foi antecipada em 11 anos”, disse o diretor da Campanha, Sam Daley-Harris. Os objetivos, para 2015, incluem reduzir pela metade a proporção de pessoas que vivem na indigência e sofrem fome, conseguir educação primária universal, reduzir a mortalidade infantil em dois terços e a materna em três quartos e promover a igualdade de gênero. Além de combater a expansão do HIV/aids, malária e outras doenças, garantir a sustentabilidade ambiental e criar uma sociedade global para o desenvolvimento entre Norte e Sul.
Daley-Harris mencionou um estudo do Banco Mundial segundo o qual os microcréditos contribuíram para reduzir em 40% o número de pessoas em condições de pobreza moderada em Bangladesh. “Esperamos que os pesquisadores documentem o impacto positivo dos milhões de pequenos empréstimos”, concedidos, disse Alex Counts, presidente da Fundação Grameen, que apóia instituições de microcrédito em 22 países. “O resto do mundo está recuperando terreno, mas não suficientemente rápido. Estamos vivendo uma crise global de pobreza”, acrescentou.
Segundo a Organização das Nações Unidas, há no mundo mais de um bilhão de pobres, enquanto outro tanto carece de água potável e saneamento. O impacto dos pequenos empréstimos na vida de milhões de pessoas pobres não só conseguiu elogios para os promotores, mas também atraiu a atenção dos bancos. “Antes, ignoravam os rurais”, disse Palchick se referindo aos grandes bancos comerciais. “Mas alguns começaram a se interessar. Por exemplo, o Deutsche e o CitBank criaram seus próprios setores de microcrédito”, acrescentou. Além de ter êxito no setor comercial, a Campanha conseguiu influir no discurso internacional sobre desenvolvimento. Atualmente, muitas agências da ONU e instituições multilaterais trabalham em conjunto com esta iniciativa.
“O microcrédito contribui para que os pobres saiam por si mesmos da pobreza”, disse Lennart Bage, diretor do Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (FIDA), uma agência da ONU dedicada à luta contra a pobreza rural no Sul. Bage, que se espera lidere um dos painéis da Cúpula, disse que os pequenos empréstimos “foram especialmente efetivos para que as mulheres assumissem um papel destacado, e que costumam ser as principais clientes das instituições de microcrédito”.
Funcionários de outras agências da ONU expressaram conceitos semelhantes a respeito do papel dos microcréditos para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Um grupo de especialistas assessores das Nações Unidas se reunirá no dia seguinte após o encerramento da Cúpula para explorar “soluções inovadoras para a pobreza” através de mais facilidades de acesso ao microcrédito e a outros serviços financeiros. Esse grupo, que reúne mais de 20 representantes de governos, bancos centrais, agências reguladoras, instituições dedicadas ao microcrédito, setor privado, sociedade civil, doadores e acadêmicos, se reuniu em junho em Nova York.
Espera-se que os assessores mantenham uma série de encontros no próximo ano para destacar o significado do financiamento acessível para todos no alívio da pobreza. Os organizadores da Campanha adiantaram seus planos de beneficiar com pequenos empréstimos 175 milhões de pessoas, as mais pobres do mundo, até 2015. O objetivo será anunciado na Cúpula. (IPS/Envolverde)

