Irã: O país do petróleo tem falta de gasolina

Teerã, 09/11/2006 – O Irã, um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, continuará investindo milhões de dólares para oferecer aos motoristas locais combustível importado e subsidiado. A Assembléia Consultiva Islâmica (parlamento) aprovou na semana passada, entre fortes críticas, um pedido do governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad para destinar US$ 2,5 bilhões à importação de gasolina, deixando, assim, sem efeito planos anteriores para reduzir em mais de US$ 2 bilhões esse item para o ano fiscal que acaba em março do próximo ano.

A administração de Ahmadinejad argumenta que o país não dispõe da capacidade para refinar petróleo e atender a crescente demanda interna de combustível. Críticos dizem que a estratégia tem a única finalidade de oferecer gasolina barata para conseguir apoio popular, quando esses recursos poderiam ser destinados a planos de desenvolvimento. “O parlamento aprovou uma proposta populista sobre as importações de gasolina para satisfazer as massas. A decisão significa regressar ao passado e continuar com a tendência do crescente consumo de gasolina”, disse o legislador conservador Gholamreza Mesbahi Moqqadam, membro do Comitê Econômico do parlamento, citado pela agência de notícias Ilna.

“Lamentavelmente, os legisladores permitiram que o governo importasse US$ 5 bilhões em combustível e lhe deram um adicional de US$ 1 bilhão para distribuir entre diversos organismos”, disse Moqqadam. Entretanto, a lei orçamentária aprovada no dia 1º deste mês reduz em US$ 1 bilhão os US$ 3,5 bilhões que o governo havia solicitado e destina outro US$ 1bilhão do lucro com o petróleo a planos de desenvolvimento, como a compra de frotas de transporte, término de obras em aeroportos, projetos ferroviários, de saúde e criação de centros religiosos em pequenos povoados.

Entretanto, estes fundos não cobrirão os custos de importação de gasolina até o fim do ano fiscal em março próximo, por isso o governo deverá solicitar novamente o aval do parlamento para usar mais recursos. O legislativo descartou outras opções, como racionar gasolina ao seu preço atual subsidiado ou uma melhor distribuição do combustível nacional. O pedido do governo foi atendido pelo parlamento apesar de uma grande oposição de reformistas, conservadores e até de facções de linha dura.

“Para evitar mais importações de gasolina, a lei orçamentária para o atual ano fiscal estabelece que o governo importe apenas US$ 2,5 bilhões em combustível no ano e racionalize ou ofereça gasolina a dois preços (subsidiado e real)”, disse Moqqadam. “O governo não tem a coragem de acabar com as importações de gasolina”, disse à Agência de Notícias dos Estudantes o parlamentar ultraconservador Mohammad Khoshchehreh, ex-aliado do governo e agora duro crítico do governo.

Mohammad Reza Mir Tadjeddini, outro legislador linha dura, afirmou que os sucessivos governos do Irã foram espertos em tirar dinheiro do parlamento. “Milhares de milhões de dólares em gasolina continuarão virando fumaça enquanto o país precisa de dinheiro para o desenvolvimento, a criação de empregos e solução para os problemas econômicos da população”, disse ao jornal reformista Etemad. “É interessante que a lei recebeu críticas de todo os lados, inclusive do próprio setor conservador (ao qual pertence o governo), mas, foi finalmente aprovada sem muito debates”, disse à IPS um observador em Teerã.

“Ninguém foi capaz de defender a lei do governo, pois a continuação da situação atual era tão obviamente prejudicial e inútil que a aprovaram de todo modo”, acrescentou. “O fato é que Ahmadinejad teve sucesso em intimidar o parlamento prevendo a possibilidade de uma inflação incontrolável e uma crise de segurança nacional com distúrbios nas ruas se o preço da gasolina aumentasse ou o combustível fosse racionado. Também destacou a necessidade de atender às massas”, acrescentou. O consumo de gasolina subsidiada no Irã fica entre 70 milhões e 80 milhões de litros por dia, mais de um terço importado.

A demanda cresce ao ritmo de 10% ao ano, e os iranianos consomem, ninguém média, quatro vezes mais combustível do que os habitantes da União Européia. O preço da gasolina é quase nove centavos de dólar por litro, menos de um quinto do preço ninguém países vizinhos como Afeganistão, Turquia e Paquistão. Esta diferença é a causa de um contrabando anual de 40 milhões de barris de combustível a essas nações, segundo a agência de notícias Fars. (IPS/Envolverde)

Kimia Sanati

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