RAWALPINDI, Paquistão, 27/10/2006 – Sentando num tamborete de plástico vermelho num pátio engaiolado junto a cela 74, Mirza Tahir Hussaim, condenado a morte desde há 18 anos, parece velhote embora só tenha 36 anos. A barba branca não cortado, cabelo cumprido e salpicado de canas e a forma em que caminha arrastando os pés mostram a vida tormentada deste británico de origem paquistanês. Tahir é acusado do homicídio de um taxista, que ele não nega mas cita como caso de legitima defesa. A justiça penal absolviu o mas o Tribunal Islámico Federal da Shariá condenou este nativo da cidade de Leeds na Inglaterra a morte em1988. A execução dele já foi suspendida quatro vezes. A última suspensão foi anunciada na semana passada depois de um aumemnto na pressão internacional das autoridades mais superiores da Grande Bretanha e da União Europeia. O pedido de clemência mais recente veio do Carlos , o Príncipe de Gales que está para chegar no Paquistão (Out 29) com a sua esposa para uma visita oficial de seis dias. A execução de Tahir estava prevista par o dia 1 de novembro, três dias depois da chegada do Príncipe de Gales. Alguns parlamentarios britânicos solicitaram que o Príncipe cancela a viagem dele. Numa declaração ao Primeiro Ministro do Paquistão Shaukat Aziz, o porta voz do Príncipe disse que o herdeiro da corona britânica mostrou a sua preocupação para o destinto de Tahir e reclamou a sua libertação imediata. O Primeiro Ministro Britânico, Tony Blair, aproveitou de uma visita do presidente paquistanês Pervez Musharraf no mês passado para exigir o indulto do Tahir. Falando na Câmara dos deputados, o Blair disse que levantou a questão “constantemente com as autoridades paquistanesas” e implorou ao Musharraf de perdoar o britânico. Mas as autoridades paquistanesas simplesmente adiou a execução até ao dia 31 de dezembro. Elas negaram que a decisão a adiar resultou da pressão externa e que a suspensão mostra uma fraqueza na parte do presidente. Ao contrário, dizem que esta decisão visou dar os parentes do taxista assassinado tempo a chegar a um compromisso aceitável. Segundo a lei paquistanês, os parentes do vítima podem decidir libertar um sentenciado a morte. Longe deste turbilhão das negociações políticas internacionais, Tahir parece saltar por cima destas dificuldades, sentando no seu tamborete fora da sua cela de quatro metros por quatro e falando com um jornalista que assiste a la visita sob o pretexto de ser um parente. Durante esta entrevista realizada no mês santo de Ramadão, ambos Tahir e o jornalista não sabiam do adiamento da execução. "Somos impotentes perante a morte, e não importa como morreremos. O mais importante é que as nossas boas acções preparem nos para enfrentar o nosso Criador e ver se Ele estará comprazido connosco ou não”, disse Tahir, sem sinal de ironia na sua voz. Tahir é apenas um de 5.000 presos no cárcere de Adiala, construido para albergar 2.000 presos. Ele é o único que não use a farda cor de ferrugem. As autoridades do cárcere acederam permitir-lo vestir se de branco, a cor de pureza. "As autoridades do cárcere foram muito amáveis. Amo a cor branca, particularmente quando faço as minhas orações durante Ramadão”, disse Tahir. Ele fala com uma voz gentil e educada. Mantem a sua dignidade apesar do meio em que vive.
Já passou muito tempo desde que, sendo um jovem de 18 anos, ouviu pela primeira vez o julgamento da condena a morte. "Senti como se a terra tinha desaparecido de repente por debaixo de mim e que caía num abismo", lembrou Tahir.
Agora parece calma e aceita o seu estado. "Tenho estado a preparar para morrer", disse ele, acrescentando que foi sempre religioso e que a sua fé firme em Deus o ajudou resistir aos temores.
A sua educação formal acabou con o tiro de um revólver quando tinha 18 anos, mas Tahir continua a apprender. Passa o seu tempo estudando o Corão e asimilando a filosofia do seu poeta favorito Allama Iqbal. Já decorou 15 dos 30 capítulos do Corão, o livro sagrado do Islão, embora pensa que está a esquecé-los e precisa de revé-los. Quando se perguntou se ele nunca rezou que morreria naturalmente antes de ir ao cadafalso, não respondeu direitamente. "Não importa como se morre, pois esta estadia é simplesmente um trânsito."
De todos os modos, ele bem conhece o procedimento de uma execução. Durante os seus 18 anos de encarceramento viveu em dois cárceres, o de Kot Lakhpat em Lahore e o de Adiala, e acha que já viu uns 50 condenados se dirigirem ao cadafalso. "Dois dias antes da tua execução, levam te á uma cela diferente, perto do cadafalso. Logo antes da execução dizem que toma banho e reza. A execução toma lugar antes de madrugada”, explica Tahir calmamente, quase sem emoção. Tahir conhecia bem a maioria dos executados, “pois estavamos nas mesmas circunstâncias”. Admete que se dispedir é diprimente. Alguns presos morrem con dignidade, outros resistem a execução, outros exibem uma tranquilidade arrepiante.
Em agosto, quando estava prevista a sua execução, escreveu uma carta aos parentes do falecido taxista para pedi-los perdão. Há dois ano encontru se com o tio do falecido, Sohbat Khan, no cárcere de Lahore e pessoalmente rogou clemência. Até agora, a familia do taxista reclama só uma coisa – a morte do Tahir.
O condenado diz que compreende a ira da família que também tem sofrido todos estes anos tanto como ele.
A carga de ter acabado, intencionalmente ou não, com a vida de uma outra pessoa é enorme, e pesa lhe muito. Ele não pode mudar o passado, pois tinha que acontecer porque Deus o tinha assim ordenado.
Se a família do vítima aceitar um acordo do dito "dinheiro de sangue", aliviaria o dilema político do presidente Musharraf. Calcula se que os paquistaneses estão indignados pela atenção que se dá a um musulmano britânico quando muitos compatriotas languescem indignamente nos cáreres do país.
Todavia, Tahir conseguiu reter a compaixão pública, posivelmente por causa das circunstâncias convincentes do seu caso.
Em dezembro de 1988, Tahir tinha 18 anos e estava a visitar o seu país de origem pela primeira vez sozinho, quando foi detido pelo taxista. Tahir combateu e no processo a arma do taxista disparou matando o. Espavorido, Tahir conduziu o taxi á polícia para relatar o episódio.
Analistas políticos consideram que se cambiar de opinião, Musharraf sería percebido como cedendo a pressão internacional occidental. Nos seus sete anos de governo Musharraf nunca dictou nenhuma ordem de clemência a qualquer condenado a morte.
Contudo, ativistas dos direitos mantêm que Tahir não devia estar libertado apenas por causa da pressão occidental, mas sob o pretxeto de direitos humanos
Para já Musharraf parece disposto a suspender a execução cada vez que se acerque a data proposta.
Embora cada atraso traz um alívio temporário para a famjília do Tahir, também suggere o tormento de que o pesadelo jamais terminará. Amjad Hussain, o irmão do condenado que já passou 18 anos mobilizando apoio, disse que o adiamento lhes mata um pouco.
Os adiamentos constantes “já não bastam” , diz Amjad. “Ele já passou demasiado tempo encarcerado”.
Amjad procura que Musharraf comute a condena para a prisão perpétua, que se traduz a 11 a 14 anos no cárcere. Dado que Tahir já serviu 18 anos tem perspectivas de estar libertado.
Os anos no cárcere, a pressão mental constante e a preparação pela sua execução já tocaram Tahir muito. Segundo o psicologista Asha Bedar, para além do envelhecimento premaduro, Tahir pode também sofrer da alienação, do sindróno da pressão pós traumático, ou de tendências paranóicas.
Durante 18 anos, Tahir não tem experimentado a vida nem visto o mundo senão atraves do que leia nos livros de scolares e no Corão. Eligiu não ler a literatura moderna nem ver televisão "por causa da obscenidade que transmeta". Ele esforça se a viver com a culpa de ter matado alguem.
Contudo, Tahir sempre tem esperança: sempre continua a fazer planos para a vida fora do prisão.
Quando se perguntou onde gostaria de viver se for libertado, Tahir respondeu assim, “Se a minha família aceitar, eu gostaria de viver no Paquistão e procurar ganhar a minha vida, embora não tenho qualificação nenhuma”. (FIN/2006)

