Religião: Choque de políticas, não de civilizações

Nações Unidas, 16/11/2006 – A crescente divisão entre Islã e Ocidente não se deve a motivos religiosos e sim políticos, concluiu o Grupo de Alto Nível da Aliança de Nações em um informe apresentado em Istambul ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan. “Devemos nos desfazer de estereótipos, generalizações e preconceitos e ter cuidado para que os crimes cometidos por pessoas ou pequenos grupos não nos imponham a imagem de uma região, uma religião ou todo um povo”, afirmou Annan após receber o relatório.

A violência obedece ao temor e a mal-entendidos, desigualdades econômicas, guerras desatadas pelas potências ocidentais em países muçulmanos e ao conflito árabe-israelense, e não a questões de identidade cultural ou religiosa, afirmou Annan. Comumente se explora de forma cínica a fé para desatar paixões, avivar suspeitas e apoiar argumentos alarmistas segundo os quais o mundo enfrenta uma nova “guerra de religiões”, mas, a raiz do problema é político, segundo o informe da Aliança de Civilizações.

Essa Aliança, lançada em 2005 por Annan e co-patrocinada por Espanha e Turquia, tem o objetivo de contribuir para um consenso maior entre as nações, as culturas e as religiões a respeito do fato de todos os países serem interdependentes e necessitando se unir em favor do desenvolvimento, das seguranças e do bem-estar ambiental, econômico e financeiro. A Aliança de Civilizações corresponde a uma iniciativa do primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, apresentada à Assembléia Geral da ONU em 2004.

A iniciativa recolhe o legado de uma proposta anterior feita pelo ex-presidente do Irã, Mohamed Khatami, ao assumir o cargo em 1997. em 1998, a asse declarou 2001 “Ano do Diálogo entre Civilizações”, aceitando a iniciativa iraniana. E em novembro desse ano, dois meses depois do atentado de 11 de setembro que mataram três mil pessoas em Nova Yorque e Washington, a Assembléia Geral decidiu por unanimidade impulsionar o “diálogo entre civilizações” proposto pelo Irã.

“A força política que mais aprofunda a ruptura entre muçulmanos e ocidentais é a percepção generalizada de que existe um duplo discurso a respeito de quando se defende os princípios universais de direitos humanos e quanto estes são ignorados”, disse à IPS o subdiretor do Grupo de Alto Nível da Aliança de Civilizações, Shamil Idriss. As afirmações eloqüentes a favor da democracia perdem relevância quando as nações poderosas rechaçam e, às vezes, minam os governos eleitos democraticamente, segundo o documento. “AS intervenções políticas e militares ocidentais nas nações islâmicas é outra causa do aprofundamento da brecha. Muitos muçulmanos acreditam que suas sociedades estão sob ataque”, disse Idriss.

Os acontecimentos dos últimos anos exacerbaram o receito, o temor e os mal-entendidos entre as duas culturas, e os extremistas aproveitaram esse clima, segundo o Grupo de Alto Nível, integrado por 20 destacadas personalidades dos campos político, acadêmico, sociedade civil, finanças internacionais e meios de comunicação. A Aliança pretende contrapor essa tendência instaurando um modelo de respeito mútuo entre nações e culturas. Motivos políticos seculares propiciaram alguns dos mais horrorosos reinos do terror, como o Holocausto, as repressões stalinistas na dissolvida União Soviética e, mais recentemente, os genocídios no Camboja, na região dos Bálcãs e em Ruanda, todos cometidos por poderes estatais, segundo o relatório.

“Devemos começar por reafirmar, e demonstrar, que o problema não está nem no Corão, nem no Tora, nem na Bíblia. De fato, se diz que o problema nunca é a fé, mas os fiéis e o modo como se comportam entre si”, ressaltou o secretário-geral da ONU. O grupo afirma que “um olhar sobre o século XX indica que nenhuma cultura, região geográfica, orientação política nem grupo por si só tem o monopólio do extremismo nem de atos terroristas”. Um dos principais obstáculos para estender uma ponte entre muçulmanos e ocidentais é o conflito árabe-israelense.

“Gostaríamos de pensar que esse conflito é apenas um entre muitos. Mas, não é assim. Nenhum outro tem essa carga poderosa, simbólica e emocional mesmo entre pessoas distantes do campo de batalha”, afirmou Annan. O confronto árabe-israelense se tornou um importante símbolo do aprofundamento da brecha, segundo o informe. “Enquanto houver palestinos vivendo sob uma ocupação, expostos a humilhações e frustrações diárias, e israelenses morrerem em explosões de ônibus e discotecas as paixões continuarão se inflamando”, acrescentou Annan.

Esse conflito, junto com as intervenções militares de várias potências ocidentais em países como Afeganistão e Iraque, contribui significativamente para o crescente ressentimento e desconfiança em prejuízo do vínculo entre comunidades, afirma o grupo. O documento também sugere que a repressão da oposição política pacífica e o lento caminhar das reformas em muitos países muçulmanos constituem fatores-chave do crescimento do extremismo. O Grupo de Alto Nível da Aliança de Civilizações sugeriu uma série de soluções políticas praticas para enfrentar os problemas.

O secretário-geral deve designar um alto representante pra distender as crises surgidas na intersecção entre religião e política e para supervisionar a implementação de suas recomendações. Também sugeriram que seja elaborado um documento oficial para analisar o conflito israelense-palestino “sem paixões e com objetividade, que dê conta do relato de personalidades dos dois lados”. A equipe encarregada desta tarefa deverá revisar os êxitos e diagnosticar os fracassos de iniciativas anteriores e estabelecer as condições claras que devem ser cumpridas para se chegar a uma solução para o problema.

Alem disso, propõem, o reinicio do processo político, incluindo a convocação de uma conferência internacional sobre as iniciativas de paz no Oriente Médio, o mais rápido possível. Por outro lado, o grupo incentiva a ampliação do pluralismo político nas nações muçulmanas. Seu relatório pede aos partidos governantes do mundo islâmico que abram espaços para a participação da oposição pacífica, sejam grupos religiosos ou seculares, e exortam os governos estrangeiros a serem consistentes a este respeito, por exemplo, respeitando resultados eleitorais.

O documento também propõe um leque de medidas concretas em matéria de educação, imprensa, juventude e migração para construir pontes e promover uma cultura de respeito e entendimento entre as comunidades ocidentais e muçulmanas. Quanto ao tratamento dado pela imprensa aos conflitos entre comunidades, “os líderes políticos devem reagir rápido para dar-lhes perspectiva e evitar que possam exaltar os ânimos”, disse Idriss à IPS. A lenta reação dos lideres governamentais originou a controvérsia, e a conseqüente violência, provocada pela publicação de caricaturas do profeta Maomé por um jornal dinamarquês, segundo Idriss.

Entre as propostas figura a realização de filmes e programas de televisão co-produzidos que mostrem a diversidade como um aspecto normal da sociedade. “Deve-se fomentar uma variedade maior de personagens. Os muçulmanos devem interpretar papéis que não sejam de terroristas”. Disse Idriss. “Em um contexto de crescente polarização entre culturas e sistemas de pensamento que requerem atenção imediata, a apresentação deste relatório e suas recomendações à comunidade internacional constitui um passo animador nos esforços no sentido de plantar sementes do respeito e do entendimento”, afirmou na segunda-feira o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, em Istambul. Kofi Annan, cujo mandato termina em dezembro, se comprometeu a trabalhar com seu sucessor, Ban Ki-moon, para implementar as recomendações propostas no relatório. (IPS/Envolverde)

Mithre J. Sandrasagra

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