Ambiente: Guatemala enfrenta problemas com mineração

Paris, 16/11/2006 – O cancelamento de um contrato de mineração na Guiana Francesa agravou a preocupação internacional com outro projeto levado adiante na Guatemala, com um grave custo para o povo local e o meio ambiente. O governo francês anunciou no mês passado que havia retirado a permissão para a companhia canadense Cambior procurar ouro na região amazônica de Kaw, na Guiana Francesa, um pequeno protetorado francês entre o Brasil e o Suriname com 200 mil habitantes. Paris havia concedido à Cambior autorização por 25 anos, em 2003, para extrair 34 toneladas de ouro. Mas diante da pressão de ambientalistas e dos moradores locais, o governo criou uma comissão em maio passado para analisar o impacto ambiental do projeto.

A comissão afirma em um relatório divulgado no dia 10 de outubro que o projeto não deveria ser realizado porque a liberação de água contaminada com cianureto das minas representa um risco ambiental inaceitável. A ministra de Meio Ambiente da França, Nelly Olin, afirmou que a Cambior havia sido informada da conclusão da comissão e que a empresa, finalmente, havia abandonado o projeto. No lugar onde estava previsto o projeto, foi decidida a criação de um parque nacional ambiental.

Mas desde 2003, agricultores e ativistas pelos direitos humanos na Guatemala lutam em vão contra um projeto muito semelhante da empresa canadense Glamis. Está companhia extrai ouro e prata no departamento de San Marcos desde outubro de 2005. A Cambior havia empregado o mesmo processo da Glamis para extrair metais preciosos. As rochas com ouro e prata são tratadas com vários produtos químicos, incluindo cianureto. As águas residuais são despejadas nos rios próximos.

A Igreja Católica, camponeses mayas, grupos ambientalistas e defensores dos direitos humanos guatemaltecos afirmam que a mina de San Marcos contamina os Rios Cuilco e Tzalá, fundamentais para o fornecimento de água na região. Mas em fevereiro deste ano, o governo expandiu o contrato para permitir a extração de zinco, mercúrio, chumbo, ferro e cobre na mesa área. “Há uma diferença se um governo é sensível ao meio ambiente, ao trabalho, aos direitos humanos e às preocupações em torno da saúde”, disse à IPS a ativista Íris Stolz, da organização cristã alemã Terra dos Homens.

“Os governos europeus são conscientes dos custos políticos de ignorar essas preocupações. Além disso, a capacidade da sociedade civil para exercer pressão sobre governos e instituições é de vital importância nesses casos”, acrescentou. Stolz coordena a campanha da Terra dos Homens contra o projeto da empresa mineira canadense na Guatemala. Uma pesquisa revelou que 95% da população local é contra o projeto. “Este resultado mostra a importância que as comunidades mayas dão à terra, à selva e à água para sua sobrevivência e seu desenvolvimento”, disse à IPS Mario Antonio Godinez, da organização ambientalista Ceiba.

Ulrike Bickel, especialista em desenvolvimento da organização católica Misereor, disse que “o governo guatemalteco não respeita os interesses de seu próprio povo e viola as convenções trabalhistas internacionais’. Bickel, que visitou o lugar e se entrevistou com moradores, legisladores e funcionários do governo da Guatemala, afirmou que a permissão para a empresa canadense está manchada por suspeitas de corrupção. “O legislador Alfredo de Leon nos disse que vários de seus colegas receberam subornos para apoiar a concessão”, disse à IPS. O escritório legal guatemalteco que representa a Glamis está ligado ao presidente do país, Oscar Berger.

O mandatário, um advogado que deixou a profissão ao assumir, em janeiro de 2004, era sócio do escritório de advocacia Berger, Sosa & Permueller. Um de seus principais sócios era Rodolfo Sosa de Leon, agora conselheiro legal da Glamis na Guatemala. A filha de Sosa é casada com o filho do presidente, Oscar Berger widmann. Ativistas destacam que o governo deu à Glamis concessões tributarias extraordinárias e livre acesso aos recursos hídricos. “A Glamis não paga nenhum imposto na Guatemala, e desfruta de total isenção até 2008”, afirmou Bickel. O Banco Mundial entregou US$ 45 milhões em créditos à companhia, cerca de um quinto do investimento total do projeto, de US$ 261 milhões. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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