Bruxelas, 08/12/2006 – Mais da metade dos africanos e um em cada três latino-americanos que tiveram contato com policiais nos últimos 12 meses pagaram pelo menos um suborno aos agentes da lei, segundo a Transparência Internacional. Na Europa e América do Norte, o público tem muito menos experiência em matéria de corrupção, mas, a maioria acredita que os governos não fazem o suficiente contra esse fenômeno, segundo pesquisa realizada por esta organização não-governamental internacional. Este flagelo pode ter um efeito dramático na vida dos pobres, disse David Nussbaum, diretor-executivo da Transparência, ao apresentar nesta quinta-feira, em Bruxelas, o último informe anual Barômetro Global da Corrupção.
Em alguns países, serviços básicos com eletricidade são negados aos pobres, que nem mesmo podem pagar pequenos subornos, diz o documento. A medida de cada comissão ilegal paga a empresas de serviços públicos na África equivale a US$ 8, uma quantia enorme para os mais pobres. Cada suborno pago a juízes, policiais ou escolas nesse continente representam, em média, mais de US$ 65. na América Latina, as pessoas pagam suborno que, na média, chegam a mais de US$ 600 para conseguir serviços médicos.
O Barômetro Global da Corrupção 2006 se baseia em uma pesquisa feita com quase 60 mil pessoas em 62 países, realizada pelo Instituto Gallup International entre julho e setembro deste ano. Japão, Espanha, Taiwan, Hong Kong e Croácia estão entre os países onde os participantes da pesquisa acreditam que a corrupção ou seus efeitos pioraram. Por outro lado, os entrevistados na Índia vêem algumas melhoras. Porém, “o documento não foi concebido para determinar tendências’, disse Nussbaum à IPS. “E o progresso pode significar progresso partindo de uma base muito baixa”, acrescentou.
No mundo, quem mais freqüentemente recebe subornos são policiais, serviços de registros e autorizações, e os juízes, segundo a TI. Mas, o público vê os partidos políticos e os parlamentares como as instituições mais corruptas, depois dos empresários, policiais e magistrados. As entidades religiosas, organizações não-governamentais e serviços de registro e autorizações são objeto de menos suborno. Em muitos países da África e em outros, como Bolívia, Filipinas, Coréia do Sul e Turquia, mais de 70% dos consultados asseguraram que a corrupção afeta suas vidas pessoais em alto grau. E 22% dos europeus se sentem pessoalmente afetados.
Os europeus “possivelmente pensem nas conseqüências que a fraude pode ter em seus trabalhos e suas pensões”, disse Nussbaum. Mas, o público do resto do mundo tem a impressão, segundo a pesquisa, de que as vidas política e empresarial são mais afetadas pela corrupção do que a vida familiar. Apenas entre 1% e 3% dos consultados nos países da Europa ocidental e da América do Norte onde a pesquisa foi feita disseram ter pago suborno nos últimos 12 meses. Mas, 70% dos europeus e 78% dos norte-americanos acreditam que a ação de seus governos contra a corrupção é ineficaz ou inexistente.
“No momento em que a pesquisa era feita a imprensa do Ocidente destacava alguns grandes casos de corrupção: a compra de cadeiras na Câmara dos Lodres britânica, o possível suborno referente a atividades da empresa alemã Siemens na Ásia, África e Europa, e o caso do ativista político Jack Abramov nos Estados Unidos”, envolvido em um escândalo de compra de votos, explicou Nussbaum. Quase um em cada cinco norte-americanos, junto com 15% de asiáticos e 23% de latino-americanos, consideram que seus líderes realmente incentivam a corrupção, segundo o estudo.
Inesperadamente, embora nos países africanos muitos paguem subornos, são menos críticos em relação aos seus governos. “Uma quantidade de países africanos realmente está centrando mais na luta contra a corrupção”, disse Nussbaum. “Restam importantes desafios, mas os africanos têm a impressão de que seus líderes estão fazendo algo. E deve dizer que freqüentemente vêem estes esforços debilitados por multinacionais que pagam subornos. Em estudos anteriores vimos que as companhias européias estão muito mais inclinadas a pagar subornos na África do que na Europa”, acrescentou.
Os países que assinaram a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção se reunirão entre 10 e 14 deste mês na Jordânia para fortalecer o cumprimento do acordo, que entrou em vigor no ano passado. “Está é uma importante oportunidade para a mudança”, disse Nussbaum. Do ponto de vista estatal, os países podem adotar códigos de conduta para servidores públicos, proteger os que denunciam práticas corruptas dentro de suas organizações e garantir que os infratores serão punidos, sugere a Transparência Internacional. O documento foi divulgado às vésperas do Dia Internacional Contra a Corrupção, celebrado em 9 de dezembro. (IPS/Envolverde)

