Bagdá, 08/12/2006 – Centenas de milhares de viúvas se converteram na tragédia silenciosa de um país que afunda cada dia mais no caos. Estas mulheres são o outro lado da violência, que deixou mais de um milhão de homens mortos, presos ou deficientes, segundo cálculos de organizações não-governamentais iraquianas.
“O número médio de integrantes de uma família iraquiana é sete, assim, cerca de 10 milhões de pessoas enfrentam hoje as piores condições de vida”, acrescentou Hameed. Neste contexto, as mulheres se vêem obrigadas a “buscar formas para sobreviver e sustentar suas famílias, já que não chega ajuda da comunidade internacional”. A maioria das organizações internacionais deixou o país no ano passado, aparentemente aconselhadas por seus governos, que alertaram para a crescente violência no Iraque e para o perigo que corriam os trabalhadores humanitários.
“As organizações internacionais realizavam projetos de apoio às mulheres iraquianas antes de abandonarem o país de forma repentina, em outubro de 2005”, disse à IPS o gerente de projetos em Bagdá da organização de ajuda humanitária italiana Intersos, Faris Daghistani. “Havia muito interesse em trabalhar com as mulheres e descobrir como apoiá-las capacitando-as e fornecendo as ferramentas necessárias para obterem renda por si mesmas. É uma pena que a maioria de nossos projetos esteja paralisada. Tivemos de deixar as mulheres enfrentarem seu destino sozinhas”, acrescentou.
No entanto, a violência desatada desde a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003 não é o que fez aumentar o número de viúvas. Centenas de milhares de homens também morreram, foram detidos ou ficaram incapacitados na guerra entre Iraque e Irã (1980-1988). “Nunca vivemos como um ser humano deve viver. A guerra entre Iraque e Irã levou nossos pais, e agora a guerra do presidente George W. Bush leva nossos filhos e maridos”, disse à IPS Shatha Ahmed, uma médica de 42 anos de Bagdá. As mulheres enfrentam grandes dificuldades para sobreviver e liderar suas famílias, acrescentou. “Nem mesmo podemos sonhar em desenvolver nossas próprias habilidades”, ressaltou a médica.
O marido de Shatha, também médico, foi assassinado em setembro pelo Exército Mehdi, do clérigo xiita Muqtada Al Sadr, quando deixava o escritório do Ministério da Saúde em Bagdá. Agora ela tem o apoio de sua família e dos sogros. As viúvas também recebem ajuda do Crescente Vermolho Iraquiano, do Partido Islâmico, da Associação de Eruditos Muçulmanos e de alguns grupos da sociedade civil locais. Mas, este apoio não está bem organizado nem é suficiente para beneficiar a todas. O Escritório de Assuntos Sociais do governo começou a pagar pensões mensais de aproximadamente US$ 100 às viúvas. Mas, isto não basta para que possam sustentar suas famílias, sobretudo diante da crescente inflação.
Como se não bastasse, não é fácil conseguir estas pensões. “Tive de pagar uma quantia alta em subornos a funcionários do governo para poder receber a pensão mensal, que nem mesmo é suficiente para minha numerosa família”, disse à IPS Haja Saadiya Hussein, de 47 anos e moradora na capital iraquiana. “Os norte-americanos mataram meu marido no ano passado perto de um posto de controle, e agora tenho de trabalhar como doméstica em casas de funcionários do governo para sustentar meus seis filhos. Deixei de leva-los à escola para economizar”, contou Saadiya.
Algumas viúvas tentaram casar novamente, já que, por razões religiosas, os novos maridos estão obrigados a assumir o cuidado dos órfãos. “Não há compensação por perder um marido. O mundo é responsável diante destas mulheres que perderam seus maridos em nome da comunidade internacional”, disse à IPS um porta-voz do departamento de apoio social do Crescente Vermelho Iraquiano. (IPS/Envolverde)


