Comunicação: Jornalistas argentinos em rede pela cidadania da mulher

Buenos Aires, 08/12/2006 – Com a premissa de promover o exercício da cidadania da mulher e tornar visível a vulnerabilidade de seus direitos, nasceu na Argentina a primeira rede nacional de jornalistas com visão de gênero. “Jornalistas da Argentina em Rede (Par), por uma comunicação não sexista” é o nome com que foi lançado o grupo integrado por trabalhadoras dos meios de comunicação de 11 províncias do país, que tem como meta divulgar as questões de gênero nos espaços existentes e abrir outros. A iniciativa surgiu depois do Encontro Latino-Americano de Jornalistas com Visão de Gênero, que aconteceu em setembro em Campeche, no México, com participantes da Argentina, Costa Rica, Chile, Colômbia, Guatemala, México, Nicarágua, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.

Os jornalistas ali reunidos, em sua maioria mulheres, debateram a necessidade de formar uma rede que alerte para a desigualdade de gênero cristalizada nos meios de comunicação de massa e que haja um debate sobre estratégias para modificar essa situação. Para isso, consideram chave a criação de redes nacionais. Um grupo consolidado nesse sentido é o que existe desde 1995 no México. Também há redes nacionais funcionando na Guatemala e na Nicarágua, e desde este mês também na Argentina. Em conversa com a IPS, Sandra Chaher, coordenadora da Par, explicou as bases do projeto.

Em um encontro realizado em novembro na cidade de Buenos Aires, com presença de aproximadamente 70 jornalistas de 11 províncias e também do Chile, México e Uruguai, se decidiu trabalhar com uma rede virtual de intercâmbio e fazer uma reunião ao vivo às vésperas de cada Encontro Nacional de Mulheres, que acontece anualmente. Os participantes consideraram que o enfoque de gênero é “algo pendente nos meios de comunicação” e atribuíram estas limitações à linha editorial e à falta de interesse dos diretores por artigos que consideram “pouco jornalísticos”.

Uma ida a algumas bancas de jornais e uma passada pelos programas de maior audiência da televisão da Argentina vê-se que continuam mostrando mulheres semi-nuas, ou como um objeto decorativo, ou como veículo de publicidade. Mas, em meios mais tradicionais, o tratamento, sem ser escandaloso, também não contribui para uma imagem equilibrada. A Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em 1995 em Pequim, elaborou uma Plataforma de Ação na qual se reconhece, entre outros assuntos, que a imagem das mulheres nos meios de comunicação “não é equilibrada”, e afirma que a falta de sensibilidade de gênero é observada na persistência de estereótipos.

“A contínua projeção de imagens negativas e degradantes das mulheres nos meios de comunicação (eletrônicos, impressos, visuais e audiovisuais) deve mudar”, diz a plataforma, que compromete os governos a trabalharem para promover uma participação feminina plena. Também recomenda “incentivar redes de comunicação de mulheres como disseminadoras de informação e intercâmbio” e sugere fomentar a “capacitação relacionada com o gênero”. Mas, apesar destes compromissos, os meios de comunicação avançam lentamente, e não há vozes alertando para a persistência dos estereótipos.

Chaher, co-diretora da revista virtual Artemisa Notícias, explicou que até há sete anos os meios não se sentiam obrigados a dar mais espaço a temas sobre as mulheres, mas, agora, sim. “Existe um argumento desses temas, que não necessariamente são de gênero, porque nem todos os grandes meios conhecem a diferença”, explicou. Temas importantes da agenda das mulheres, como o da violência doméstica, agora chegam mais à imprensa, mas, “o tratamento não é correto”, ressaltou. Por exemplo, o assassinato de uma mulher continua sendo apresentado como crime passional nos casos em que o responsável é o marido ou o amante, um enfoque que evita o pano de fundo da violência de gênero. “Muitas vezes, os espaços onde são tratados temas com enfoque de gênero dependem da boa vontade ou da formação do jornalista, mas, depois os títulos ou a localização da matéria, que são decididos em outro nível, podem distorcer esse tratamento”, destacou Chaher, especialista em comunicação social.

Os jornalistas reunidos no encontro nacional destacaram que qualquer notícia pode ser analisada de uma perspectiva de gênero, que contemple homens e mulheres afetados de forma diferenciada por um mesmo fato. A pobreza, o acesso ao emprego ou ao credito, a violência e a educação. Os participantes concordaram que os intercâmbios devem servir como fonte de informação e capacitação, obter impacto nos meios de comunicação e em outros espaços públicos, fazer um acompanhamento de notícias com enfoque de gênero e estabelecer novas formas de comunicação com os meios de comunicação de massa. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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