Budapeste, 08/12/2006 – Transnistria, o território que busca, sem êxito, ser reconhecido como país independente da Moldovia, realizará no próximo domingo sua quarta eleição presidencial sem que a comunidade internacional se dê por satisfeita. Um ano depois de constituir-se em país independente em 1991, devido à desintegração da União Soviética, estourou na Moldovia, com 4,5 milhões de habitantes, uma breve guerra civil como resultado da tentativa separatista da Transnistria, localizada a leste do rio Dniester e vizinha à Ucrânia. A Transnistria, com meio milhão de habitantes, é governada por Igor Smirnov, com apoio tácito da Rússia e controle sobre todos os ramos do poder. Segundo as pesquisas, também é o favorito para vencer a eleição.
Smirnov, de 65 anos, prometeu permanecer no cargo até a Transnistria obter reconhecimento internacional. Em 2000, ganhou as eleições presidenciais com quase 82% dos votos. Nas ruas de Tiraspol, a capital, não se vê publicidade da oposição, segundo versões da mesma imprensa que faz ampla cobertura das atividades do presidente. A Moldovia o considera um ditador, mas, vários analistas concordam que é um presidente popular, pois conseguiu aumentar o nível de vida dos habitantes graças ao seu sistema político do tipo soviético.
Um rival de importância de Smirnov é Andrey Safonov, jornalista e editor do principal jornal de oposição em um país onde o Estado também controla quase todos os meios de comunicação. Safonov, que se diz favorável à criação de uma sociedade civil sólida, esteve prestes a não poder disputar a eleição, mas, no último momento a Comissão eleitoral Central permitiu sua participação. Outros candidatos são o empresário PEtr Tomayly e o dirigente comunista Nadezhda Bondarenko, embora alguns cépticos considerem que foram colocados pelas autoridades para simular eleições pluralistas.
Nenhum candidato questiona a independência, e estão abertos, em diferentes graus, a um reinício de conversações com a Moldova a respeito de uma possível mudança do status atual autônomo. Smirnov foi contra uma reunificação por diferenças irreconciliáveis no aspecto sócio-econômico, pois a Moldovia tem uma orientação pró-ocidental que se choca com a do tipo centralizado da Transnistria. As duas partes se acusam pelo fracasso das negociações com vistas a um acordo. O principal obstáculo foi a reclamação de Tiraspol no sentido de ser formada uma confederação e a oferta da Moldovia de uma autonomia simples. Por sua vez, a Moldovia acusa a Rússia de prolongar o impasse ao apoiar o regime de Tiraspol e manter forças de paz na região.
A população da Transnistria se divida em partes iguais entre ucranianos, romenos e russos, todas as línguas contam com reconhecimento oficial, embora somente se permita o romeno no alfabeto cirílico. “Não é um conflito étnico, mas essas diferenças estão se acentuando porque resultam úteis para os políticos”, disse à IPS a especialista em política a romena Claudia Ciobanuy, que há pouco tempo esteve nesta região. “Os romenos que vivem aqui se sentem reprimidos e insistem que somente com a criação de um Estado Moldavo mais forte se pode solucionar o problema da Transnistria”.
Porém, Smirnov elogia o modelo de democracia russa e não esconde suas intenções de alinhar as políticas de educação e finanças e vários aspectos sociais com Moscou para facilitar uma futura união. No dia 17 de setembro, a Transnistria realizou um referendo não reconhecido pela Moldovia em que 97% dos votantes se manifestaram a favor da independência e de uma “eventual” união com a Rússia. “Pode ser que a população realmente queira a autonomia para manter um estilo de vida soviético, mas, também existe a questão de que até que ponto não foi resultado da propaganda e da falta de consciência sobre as alternativas”, disse Ciobanu.
“A vida parece barata e confortável, o Estado ajuda a população, as pessoas estão bem vestidas, mas, infelizmente parece que trocaram pobreza por liberdade”, disse a especialista à IPS. “A população da Transnistria padece os interesses empresariais de Smirnov, da Moldova e da Rússia”, que pretendem manter o statu quo, segundo Ciobanu. O país pária possui as instituições e os símbolos de um Estado próprio, mas, é mais conhecido por facilitar atividades ilícitas como tráfico de armas e de seres humanos.
Ciobanu concorda que com maior reconhecimento a região “teria de aderir a normas que não são as que Tiraspol estabelece arbitrariamente, embora não haja garantias”. Mas, a maioria das organizações internacionais se interessa pela sugestão da Moldovia de ignorar as eleições para não legitimar essa situação. O governo moldavo insiste em que essa zona primeiro deve se democratizar e fortalecer a justiça, além de mandar o exército russo para fora de seu território. (IPS/Envolverde)

