Desenvolvimento: Metas do Milênio, mais investimento em microcréditos

Roma, 23/01/2005 – O debate sobre a maneira de reduzir a pobreza no mundo trouxe à luz uma ampla gama de estratégias, entre elas se destaca este ano a promoção de microcréditos para fornecer serviços financeiros a setores de recursos escassos dos países em desenvolvimento. A estratégia toma vida, sobretudo quando a Organização das Nações Unidas declara 2005 Ano internacional do Microcrédito."Os microcréditos representam um dos caminhos mais efetivos para combater a pobreza e representam uma ferramenta destinada a contribuir para o sucesso dos objetivos do milênio", disse á IPS Lennart Bage, presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) no contexto da divulgação do Informe do Projeto Milênio, apresentado esta semana também em Roma.

Para Bage, os projetos de microcrédito são essenciais em toda estratégia de desenvolvimento e desempenham papel importante porque permite aos pequenos agricultores e comerciantes melhorar de vida e obter maior renda através da criação de pequenas empresas. Como exemplo, citou o caso do Egito, onde a criação de pequenas companhias no setor agrícola teve resultados animadores. "Conseguiu-se aumentar a produção das colheitas até mesmo em 100%, além de outros benefícios", comentou. Experiências desse tipo também são desenvolvidas na América Latina, sobretudo na Argentina, México, Peru e Bolívia, onde 80% das iniciativas são realizadas por mulheres.

Entretanto, Bage também advertiu que 70% dos pobres do planeta necessitam de serviços de crédito, poupança e transferência de dinheiro, aspectos básicos para a criação e gestão das pequenas empresas. O FIDA coincide em apontar, junto com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA), que é possível atingir as oito metas do milênio antes de 2015, "se os países em desenvolvimento e os industrializados passarem imediatamente à ação", o que implica colocar em marcha planos como o microcrédito.

Entre esses Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidos em 2000 pelos 189 Estados-membros figuram garantir até 2015 a educação universal de meninas e meninos e reduzir à metade, com relação a 1990, a população de pobres, famintos e pessoas sem acesso à água potável e nem meios para custeá-la. Outros objetivos promover a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil, melhorar a saúde materna, combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças e garantir a sustentabilidade ambiental.

As três organizações com sede em Roma se mostram otimistas, apesar de as cifras da pobreza no mundo parecerem indicar o contrário. Uma em cada cinco pessoas vive na pobreza extrema, o que equivale a cerca de 1,2 bilhões; mais de 850 milhões sofrem de fome crônica; quase 22 milhões de crianças morrem por ano de doenças que podem ser prevenidas, como malária, diarréia e pneumonia e 114 milhões delas não têm acesso á escola, enquanto 584 milhões de mulheres são analfabetas. Além disso, a terça parte dos pobres moram em zonas rurais e depende basicamente da agricultura, um setor no qual a Ajuda Oficial para o Desenvolvimento (AOD) vem diminuindo desde 1988. Atualmente, somente 8% desse dinheiro é destinado ao desenvolvimento rural.

FIDA, FAO e PMA afirmaram que "os líderes dos países mais pobres devem dar os passos necessários para garantir um bom governo e um planejamento econômico sólido" e a comunidade internacional deve "apresentar estratégias que os apóiem". Por outro lado, Pedro Sánchez, responsável por apresentar o Informe do Projeto Milênio na capital italiana, disse à IPS que se realmente se deseja combater a pobreza, é necessária uma mudança de atitude por parte de líderes, governos e da comunidade internacional e isso significa passar à ação. Temos de ser realistas, enfrentar os países e líderes que querem perpetuar a pobreza com fins políticos e favorecer realmente quem vive em um contínuo tsunami de fome, miséria e enfermidade, como os países da África subsaariana", acrescentou Sánchez, que dirige o departamento de Agricultura Tropical do Instituto da Terra da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

O especialista disse ainda que teoricamente todo o mundo sabe quais devem ser as estratégias mais eficazes para lutar contra a pobreza, mas "falta maior vontade política e mais compromisso", o que implicaria "não seguir submetendo os países pobres ao negócio dos empréstimos quando na realidade devem receber doações. Muitos países pagam cinco vezes mais em dívida do que recebem em ajuda", acrescentou, citando o caso do Quênia, onde 56% de seus 31 milhões de habitantes vivem com menos de um dólar por dia. Esse país "recebe cerca de US$ 100 milhões anuais em ajuda externa e paga US$ 500 milhões por ano de dívida. E continuas aumentando a dívida em termos de empréstimos", afirmou.

As três agências da ONU estão convencidas de que se pode atingir as metas até 2015 se forem implementadas estratégias efetivas para reduzir a fome e a pobreza, o que se traduz em reformas políticas, investimento, aumento da produtividade, instituições de serviços e finanças rurais e no mercado. Além disso, assinalam como estratégias essenciais a criação de economias pujantes com crescimento sustentável a longo prazo, onde as pessoas podem valer por si mesmas. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio podem ser alcançadas antes de 2015 com um investimento anual de US$ 100 bilhões por ano, mas hoje em dia não se destina nem a metade. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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