São Francisco, EUA, 14/12/2006 – O plano do Pentágono para aumentar sua presença militar na ilha de Guam se choca com a resistência dos nativos chamorros, desta ilha do Pacífico Ocidental. O American Enterprise Institute, centro acadêmico da ala neoconservadora do governo de George W. Bush, afirmou que o Departamento de Defesa já decidiu pelo envio de equipamentos bélicos a Guam, território que pertence aos Estados Unidos, mas não incorporado a este país. As ordens dadas pelo Pentágono implicam a formação de uma força de ataque integrada por seis aviões bombardeiros e 48 de combate.
O Departamento de Defesa havia anunciado este ano o envio a Guam de oito mil fuzileiros navais e nove mil soldados de suas bases em Okinawa, no Japão. E na semana passada a Força Aérea informou sobre seu plano de enviar mais 2.600 de seus membros e famílias para a Base Anderson, também nessa ilha do Pacífico. O envio está em andamento, com um estudo ambiental de suas conseqüências. Funcionários do Pentágono afirmam que a construção das novas bases deveria começar em 2010 e o envio das tropas no ano seguinte. Ativistas calculam que esses movimentos derivarão em um fluxo total para a ilha de, aproximadamente, 35 mil pessoas, quantidade que colocará em perigo os recursos de uma pequena ilha com apenas 168 mil habitantes.
Localizada no extremo meridional da cadeia das ilhas marianas, Guam pertence aos Estados Unidos desde que esse país a ganhou na guerra com a Espanha em 1889. “Guam, basicamente não tem voz”, disse o escritor Michael Luján Bavacqua, estudante da Universidade da Califórnia, em San Diego. “Portanto, Washington se vê no direito de mandar para lá quem quiser, e não há instâncias nas quais Guam possa negociar com os militares norte-americanos. O Pentágono e o Congresso norte-americano são os donos soberanos, e agem como tais. Não têm obrigação de nos ouvir”, acrescentou.
Bavacqua observou que as decisões sobre Guam acontecem depois dos protestos contra a presença militar norte-americana na Coréia do Sul e na ilha japonesa de Okinawa. Nesses dois lugares os militares dos Estados Unidos operam de acordo com normas negociadas entre os governos, “Acordo de Estatuto de Forças”, conhecidas pela sigla Sofá. Mas, no caso de Guam não é preciso um Sofá, pois se trata de território norte-americano. De fato, o governo japonês está disposto a gastar do próprio bolso US$ 10 bilhões para a retirada das tropas norte-americanos, pois nos últimos anos vários soldados foram acusados de violar mulheres em Okinawa.
“Japão e Coréia do Sul fazem barulho. A população local é contra os militares norte-americanos, e Washington responde: se vocês não nos querem ali, iremos para um lugar onde as pessoas não tenham voz, e esse lugar é Guam”, afirmou Bavacqua. A população de Guam elege um delegado para a Câmara de Representante dos Estados Unidos, que não tem direito a voto. Nas eleições presidenciais, realizam uma consulta popular que não tem valor para eleger o presidente. Mas, os residentes da ilha podem entrar para as Forças Armadas norte-americanas.
A representante da ilha no Congresso em Washington, Madeline Bardallo, está de acordo com o aumento da presença militar na ilha. “Quando os japoneses atacaram Pearl Harbo, provocando a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, invadiram Guam ao mesmo tempo”, disse Bardallo à IPS. “Ocuparam a ilha durante três anos e meio. Agora, há muita preocupação entre as Coréias, entre Taiwan e China. “Muitos se recordam da ocupação chinesa e não queremos que algo assim se repita”, acrescentou. Segundo Bardallo, a população de Guam tem um forte sentimento patriótico, de acordo com a alta proporção de recrutamento na Guarda Nacional e na Reserva do Exército dos Estados Unidos, superior ao de qualquer Estado ou território norte-americano.
Porém, os ativistas fazem outro cálculo, embora tenham crescido ouvindo historias sobre os horrores do trabalho forçado e dos massacres do império japonês durante a guerra, pois não acreditam que a presença militar norte-americana os beneficiará. “Se houver um enfrentamento entre Estados Unidos e Coréia do Norte, os coreanos não bombardearão território continental norte-americano”, disse à IPS Sabina Perez, da Coalizão Internacional de Povos contra a Contaminação Militar. “ Buscarão um lugar mais próximo e mais fácil de atingir, que poderia ser Guam”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

