Pobreza-EUA: Preocupação com o fim do sonho americano

Nova York, 21/12/2006 – O banqueiro dos pobres, o economista Muhammad Yunus, ganhador do prêmio Nobel da Paz 2006, tem razão ao defender um “mercado de valores social”, pois sua ausência está minando o famoso “sonho americano” nos Estados Unidos, afirmam alguns. Este país, que conta com o “mercado mais livre e rico” do planeta, não está proporcionando “assistência social a um quinto de sua população”, afirmou Yunus ao receber o prêmio na cidade de Oslo no começo deste mês.

Alguns norte-americanos admitem que começam a sentir estes e outros apertos e a se preocupar com o gradual desaparecimento do “sonho americano”, porque cada vez mais diminuem as opções de alcançá-lo, embora muitos imigrantes não compartilhem dessa opinião. A pobreza nos Estados Unidos, mal justificada pela crescente imigração, está aumentando, disse em uma entrevista à IPS Walter Michaels, professor da Universidade de Illinois e autor do polêmico livro “The Trouble with Diversity” (O problema com a diversidade), recém-publicado pela Metropolitan Books, parte da editora Henry Holt and Company, de Nova York.

A obra, uma demolidora crítica à obsessão dos Estados Unidos pelas identidades e a cegueira diante das desigualdades, afirma que não é a imigração que está causando mais pobreza, mas as políticas neoliberais que afetam tanto as minorias étnicas quanto os cidadãos norte-americanos de origem européia. “As pessoas estão preocupadas, e com muita razão, pelo desaparecimento do sonho americano”, pois as possibilidades de sair da base e chegar ao cume da pirâmide social são escassas e cada vez menores. A mobilidade social diminui, e muitos dos que se viam como membros de uma cômoda classe média hoje estão mais perto da pobreza”, diz Michaels.

Isso se evidencia em parte, na sua opinião, na ansiedade que provoca a imigração ilegal e que se devem entre outras coisas, ao fato de o trabalho barato oferecido pelos imigrantes beneficiar economicamente sobretudo os norte-americanos de classe média alta que os contratam e, por isso, eles respondem com acusações de racismo aos que se opõem à imigração. “Sem dúvida, alguns deles são racistas, mas o problema econômico é o principal fundamento e as acusações de racismo não farão com que desapareça”, acrescenta.

O autor trata de explicar em seu livro porque “a constante celebração da diversidade na vida norte-americana se converteu em uma forma de aceitar a pobreza e a desigualdade”. Paradoxalmente, o respeito à diferença é “uma ferramenta poderosa para que os gerentes empresariais, que entendem seu negócio, busquem, por conveniência econômica e não por outras razões, o respeito às diversidades ou às minorias”, argumenta.

Grande parte dos empregos humildes em Nova York são realizados por imigrantes que são, por exemplo, a maioria dos vendedores ambulantes ou do setor de limpeza que trabalham em restaurantes populares ou nas lojas de rua da Broadway, o coração da Grande Maçã. Muitos imigrantes admitem que existe racismo e discriminação. Mas o sociólogo Gustavo Gómez, de origem latino-americana, afirma que “o sonho americano” continua em vigor para eles. “Este é um dos poucos países do mundo onde as pessoas começam de baixo e podem terminar no topo em 10 anos, ou, pelo menos, melhorar notavelmente a qualidade de vida que tinham em seus países de origem. Conheço, inclusive, imigrantes ilegais que conseguiram isso”, afirma.

Edgard Montoya, imigrante de 30 anos natural de Honduras, confirma essa visão, mas alerta que “a grande exploração acontece, em geral, quando os ilegais são contratados por imigrantes legais. Muitas vezes, lhes roubam até dias de trabalho”, afirma. No Queens, em Manhattan e outros distritos novaiorquinos, os imigrantes com ou sem documentos se reúnem diariamente em esquinas ou centros comerciais em busca de empregos na construção civil, pintura, limpeza e outros. “Quem tiver sorte, sobrevive. Pode ganhar até US$ 150 diários”, afirma Montoya.

Mas Michaels insiste, embora o trabalho para os imigrantes e “a defesa das identidades e dos direitos civis sejam importantes, não é o que vai resolver a crescente pobreza”. Talvez por essa razão procurou no subtítulo de seu livro explicar “como aprendemos (os norte-americanos) a amar a identidade e ignorar a desigualdade”. Neste país, “atualmente cada empresa tem um compromisso com a diversidade, que algumas vezes cumpre e outras não. Quando alguém se opõe a este compromisso, em geral o faz porque considera ser uma forma de discriminação ao contrário, que vitimiza os brancos, e porque estima que o caráter do indivíduo é subordinado ao do grupo”, explica Michaels. Mas esclarece que sua crítica à diversidade não obedece a essas razões. “Minha crítica é de que não é boa para os pobres, o grupo que mais precisa de ajuda”.

Essa obsessão pela diversidade “está reduzindo a justiça social à premissa de que tudo está bem se a identidade de todos é respeitada, o que é uma reflexão, mas não uma crítica aos valores do neoliberalismo”, os principais responsáveis pela pobreza, argumenta Michaels. O respeito aos direitos dos afro-norte-americanos a ter sua própria identidade, expressar suas diferenças culturais e seus fatos diferenciais, não resolve a questão da desigualdade econômica, mas de alguma forma, a facilita, alega o autor.

“Com o compromisso com a diversidade o que se busca não é uma sociedade na qual não haja pobres, mas que os pobres – como os negros, judeus ou asiáticos – mereçam nosso respeito”, diz o autor. Michaels decidiu escrever seu livro porque “considera que a esquerda dos Estados Unidos parece muito mais interessada em combater o racismo do que se opor ao neoliberalismo e porque, embora seja importante lutar contra o racismo, é muito mais ver que é o neoliberalismo, e não aquele, que está causando a desigualdade na sociedade americana”.

“O racismo não é responsável, por exemplo, pelo fato de pobres, brancos ou negros não poderem ter hoje uma educação decente nos Estados Unidos, mas a culpa está no fato de termos abandonado o compromisso de criar escolas públicas e a idéia de que o Estado deve ter um papel crucial para garantir a todos igualdade de oportunidades. O abandono dessa responsabilidade é o que conhecemos como neoliberalismo”, afirma Michaels na entrevista.

O autor também recordou que, “como todos os grandes líderes dos direitos civis, Martin Luther King sabia muito bem que o movimento que liderava não estava concebido nem equipado para combater a pobreza. Um ou dois anos antes de ser assassinado, King chamou a atenção para a grande quantidade de pessoas brancas e pobres, recordando-lhes que sua pobreza – a pobreza do branco – não tinha nada a ver com a discriminação”, acrescenta.

Michaels recordou que King “propôs um salário mínimo garantido e afirmou que o mesmo não tinha a ver com o programa de direitos civis, mas que estava concebido para beneficiar os pobres, sem importar se eram vítimas da discriminação”. Nosso problema hoje é “que ainda não consideramos o argumento de King. Ele sabia que lidar com o problema das minorias não era uma maneira de lidar com a pobreza, que agora está se tornando um problema da maioria” nos Estados Unidos, afirma.

Além de polêmica e problemática, a tese de Michaels é complicada “porque é uma faca de dois gumes”, diz a psicóloga “latina” Mônica Arango, que exercenos Estados Unidos sua profissão com licença do Estado de Nova York. “Seus arrazoados se desenvolvem sobre um fina linha onde qualquer movimento pode reforçar o racismo e a discriminação ou ameaçar os direitos civis, as conquistas das minorias e a grande estima que os norte-americanos sentem por seu país”, diz Arango.

A situação parece se complicar mais, se a isso somar-se o fato de os Estados Unidos, deslumbrado por seu próprio mito de ascensão social, ser incapaz de reconhecer suas próprias falhas, como expôs a revista Newsweek em uma edição deste ano na qual avaliou com crueza o “sonho americano”. O semanário concluiu que os norte-americanos vivem em um mundo de sonho, e mostrou que a boa imagem que este país tem de si mesmo é, em geral, contrária à que tem o resto do mundo.

O certo é que hoje não há boas previsões. Enquanto um em cada 800 lares em Nova York tem renda anual superior a US$ 2 milhões, 60% dos norte-americanos – incluindo crianças – recebem uma renda média inferior a US$ 7 por dia, segundo um artigo publicado no jornal The New York Times no dia 28 de novembro. O crescimento da pobreza é um fato, e agora, segundo a Organização das Nações Unidas, também a mais grave das violações dos direitos humanos, segundo afirmou no começo deste mês Louis Arbour, alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Apesar de todos esses alarmes e críticas internas e externas, os norte-americanos não parecem aceitar a realidade. Setenta e um por cento dos consultados vêem seu país como uma fonte de bondade no mundo, e mais da metade considera que a reeleição do presidente George W. Bush é algo positivo para a segurança mundial, de acordo com a pesquisa feita pela rede de televisão britânica BBC, em 2006. Em outro estudo, citado pela Newsweek, 70% dos pesquisados expressam fé em suas instituições e quase 80% acreditam que “as idéias e os costumes norte-americanos” devem estender-se globalmente. Michaels admite que com seu livro procura “aterrissar” seus compatriotas, mas, adverte que embora “seja politicamente possível mudar as coisas, isso não acontecerá até que o debate sobre a diversidade se converta em um debate sobre a desigualdade”.

(*) Gloria Helena Rey trabalha há 25 anos como correspondente estrangeira na América Latina e na Europa. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais. Atualmente, colabora com o jornal El Periódico, da Catalunha, e Leituras de Fim de Semana, do jornal El Tiempo, de Bogotá. (IPS/Envolverde)

Gloria Helena Rey

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