Porto Príncipe, 22/12/2006 – Basta uma volta pelo centro da capital do Haiti para descobrir uma cidade em situação calamitosa. As escolas estão vazias porque as autoridades decidiram suspender as aulas devido a uma onda de seqüestros. Há doentes, feridos e mortos abandonados nos hospitais públicos desde meados de novembro, devido a uma greve do pessoal da saúde contra o governo por causa de seis meses de salários atrasados. Além disso, os vendedores ambulantes dizem que ganham menos dinheiro do que nunca e temem ser vítimas de crimes violentos. Mas se o apoio internacional ao novo governo é genuíno, os haitianos logo poderão ver algumas melhoras.
Em uma conferência de doadores feita em julho, três meses depois da posse do presidente René Préval, a comunidade internacional prometeu US$ 750 milhões para consolidar a recuperação econômica do país. Essa quantia se soma à de US$ 1 bilhão prometido há dois anos. No mês passado, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional anunciaram que o Haiti poderia se beneficiar de uma redução superior a 15% dos US$ 1,3 bilhões que lhes deve. Por sua vez, o Banco Interamericano de Desenvolvimento também anunciou a elaboração de um plano de alívio.
Na semana passada, o Congresso dos Estados Unidos aprovou, após décadas de frustradas tentativas, a lei de Oportunidade Haitiana mediante o Incentivo à Associação (Hope). Essa lei permite aumentar as exportações de bens haitianos para esse país, livre de impostos. Os empresários consideram que essa norma, defendida pelo próprio Préval perante os congressistas, pode criar dezenas de milhares de empregos. O apoio internacional que o governo haitiano tem é muito raro na história do Haiti, que começou sendo a primeira república negra do mundo, após sua declaração de independência em 1804, fortemente endividado com a França e economicamente isolado dos países mais desenvolvidos e racistas.
Nas últimas décadas, a comunidade internacional impôs sanções a brutais regimes militares e depois retirou os créditos e a ajuda ao governo de Jean-Bertrand Aristide, pela corrupção existente, pelas irregularidades eleitorais e pela dívida pendente. Somente depois que Préval se impôs a outros 32 candidatos com quase 50% dos votos, em uma eleição com amplo comparecimento às urnas, as nações ocidentais deram seu aval ao governo haitiano. Por que a população não vê todo esse progresso? A história do Haiti indica que se algo pode sair errado, sairá errado, e não fica clara a sinceridade professada pela comunidade internacional.
Foi entregue apenas uma pequena porção dos US$ 1,5 bilhão prometido, e a maior parte do alívio da dívida depende de o governo haitiano impulsionar certas reformas e programas para combater a pobreza. Mas os potenciais estímulos econômicos com a Hope enfrentam uma força contrária que parece incontrolável: a violência. Desde que Aristide foi deposto pela última vez em 2004 as forças estrangeiras no Haiti aumentaram de forma constante, chegando a cerca de oito mil soldados das forças de paz da Organização das Nações Unidas.
Ao mesmo tempo, civis de Porto Príncipe possuem cada vez mais armas de guerra, como fuzil Kalashnikov e metralhadoras M-16. Enquanto em um bairro da cidade as tropas da ONU combatem as gangues, na outra ponta estas se enfrentam entre si. A princípio, a polícia não se atrevia a entrar sem os soldados da ONU. Depois, também se viu envolvida em atividades ilícitas. Ricos e pobres, meninos e meninas e idosos sofreram seqüestros por resgate e, às vezes, coisas piores. O programa da ONU de Desarmamento e Reintegração não conseguiu muito.
Dezenas de integrantes de gangues participaram do plano que os capacitava em direitos humanos e responsabilidade civil e lhes facilitava um emprego. Mas, a maioria não deixou as armas e, inclusive, uns poucos chegaram a participar de seqüestros pouco depois de terem saído das gangues. Em outra iniciativa, o presidente negociou com os líderes desses grupos, mas a tentativa, duramente criticada por organizações da sociedade civil haitiana e um especialista em direitos humanos da ONU, parece não ter tido nenhum êxito.
A situação de insegurança teve um efeito devastador para a economia. Desde a última queda de Aristide, a quantidade de fábricas de Porto Príncipe diminuiu em ritmo constante. A conhecida favela de Cité Soleil, onde os grupos enfrentam as forças da ONU, cresceu quando foi criada uma zona de livre comércio no limite da capital há três décadas. Uma enxurrada de camponeses chegou à cidade em busca de trabalho e ali se instalaram. Mas quando a economia caiu, esse bairro se tornou um reduto de desempregados.
As fábricas sobreviventes ficaram a mercê dos jovens raivosos da favela provocando o fechamento de muitas após múltiplos seqüestros de seus empregados, chegando até a serem queimados e assaltados. Nos últimos anos, os empresários organizaram várias formas de protesto contra a ineficácia da ONU para resolver o assunto. Agora, fazem o mesmo contra o governo por não enfrentar a situação como deveria. Para alguns a segurança é uma condição necessária para o crescimento da economia, mas, para outros, vale o inverso.
Outra favela do centro da capital, Bel Air, é uma zona que no ano passado se beneficiou da presença de soldados da ONU. Em certa época esteve totalmente paralisada pelas gangues, mas, agora reabriram os comércios e as escolas e o trânsito circula lentamente por suas ruas. Mas segundo Jean-Baptiste Sarol, porta-voz de uma organização comunitária que ajuda crianças de rua, sem trabalho, é apenas questão de tempo antes de as armas reaparecerem. O mesmo pensam os líderes das gangues que ameaçaram o governo, pelo rádio, caso este gerasse postos de trabalho para eles.
Muitos moradores dessas favelas que tinham trabalho no governo de Aristide ficaram desempregados após sua derrubada. Vários especialistas da missão de paz da ONU insistiram no mesmo, que os problemas de segurança no Haiti têm uma origem amplamente econômica que deve ser enfrentada com tal. A parlamentar norte-americana por Chicago Jan Schakowsky disse à IPS quando visitou o país que o mundo não podia esperar pelo fim da violência sem um progresso econômico paralelo. A favor da Hope, Schakowsky disse que “no curto prazo, caso se espere pela segurança fora uma melhoria drástica no país, incluindo Porto Príncipe, será muito difícil seguir adiante”. (IPS/Envolverde)

