Desafios 2006-2007: Líbano arremessado 20 anos no passado

Beirute, 03/01/2007 – A guerra de 34 dias entre Israel e o grupo extremista islâmico Hezbolá deixou o Líbano destruído no plano físico e desestabilizado no campo político, em 2006. O novo ano não promete um futuro melhor. Antes do último dia 12 de julho, quando eclodiu o conflito, grande parte dos quatro milhões de habitantes dessa nação localizada ao norte de Israel conseguia, finalmente, sacudir a poeira da guerra civil entre muçulmanos e cristãos que destruiu o país entre 1975 e 1990. Atualmente, estima-se que 60% da população seja formada por muçulmanos.

Nos anos de recuperação dessa guerra, o turismo e o comércio se reativaram, as forças de ocupação sírias se retiraram (depois do assassinato do ex-primeiro-ministro sírio Rafiq Hariri, no dia 14 de fevereiro de 2005) e um Líbano unido, por fim, parecia possível. Mas, tudo isto mudou radicalmente após uma incursão do Hezbolá no dia 12 de julho em que o grupo capturou dois soldados israelenses e matou outros três perto da fronteira entre Israel e Líbano. O ataque foi semelhante a muitos outros anteriores, mas, provocou uma resposta devastadora por parte das forças aéreas de Israel.

Menos de 24 horas depois da captura dos soldados, as forças israelenses bombardearam o aeroporto internacional Rafik Hariri, em Beirute, impuseram um bloqueio aéreo e naval no Líbano e começaram bombardeios aéreos maciços em grande parte do país. “Se não nos devolverem os soldados, faremos retroceder 20 anos os relógios do Líbano”, ameaçou o chefe do Estado Maior de Israel, Dan Halutz, no começo da guerra. E a ameaça foi cumprida. O líder do Hezbolá, Sayed Hassan Nasralla, planejava utilizar os soldados seqüestrados como moeda de troca por alguns dos milhares de libaneses e palestinos presos em Israel.

Mas, o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, considerou que a ação do Hezbolá foi “um ato de guerra” e respondeu com um ataque aberto contra diferentes posições desse grupo, que causou a destruição de grande parte de Beirute, a capital do país, e outras cidades. Israel contou com o apoio diplomático dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Quando foi implementado um cessar-fogo obtido com a mediação da Organização das Nações Unidas, no dia 14 de agosto, 1.200 civis libaneses haviam morrido e outros 4.500 estavam feridos. Do lado israelense, morreram 43 civis e outros 1.350 ficaram feridos.

Mais de um milhão de libaneses e até 300 mil israelenses tiveram de abandonar suas casas. Além disso, grande parte da infra-estrutura civil do Líbano foi destruída. Este foi o destino de 70 pontes, 94 estradas, 20 postos de abastecimento de combustível, 350 escolas, os principais portos, centrais elétricas, fábricas de alimentos, represas, igrejas, mesquitas, hospitais, ambulâncias e uma base da ONU, segundo dados das Nações Unidas e do governo do Líbano.

Israel afirmou que a destruição do posto de observação da ONU no dia 26 de julho foi um acidente, embora funcionários da organização tivessem alertado reiteradamente a Israel sobre esse perigo. Os quatro observadores presentes na base morreram no ataque, e o pessoal de resgate que tentou chegar ao local também foi bombardeado. Cerca de 15 mil moradias de civis foram destruídas. O custo estimado da infra-estrutura inutilizada supera os US$ 15 milhões, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Por outro lado, os ataques a tanques de petróleo na costa causaram o vazamento de 10 mil toneladas de óleo que contaminaram 80 quilômetros do litoral do Líbano e destruíram a indústria pesqueira. Depois da guerra, Israel admitiu que usou armas proibidas, como bombas de fragmentação e com fósforo branco. Até hoje, grande parte do sul do Líbano permanece inabitável por causa da presença de bombas de fragmentação que não explodiram. Até 1º de dezembro, cerca de 250 mil libaneses continuavam na qualidade de refugiados por causa do conflito.

Por sua vez, o Hezbolá lançou cerca de quatro mil foguetes contra o norte de Israel e uma guerra de guerrilhas contra os soldados israelenses invasores no sul do Líbano. Os foguetes mataram dezenas de civis israelenses, danificaram casas e comércios, além de forçarem muitos civis a viverem temporariamente em refúgios subterrâneos. Os dois lados cometeram crimes de guerra ao praticar ataques indiscriminados em zonas civis. Em 11 de agosto, a ONU aprovou a resolução 1701, que exigia a retirada de Israel do Líbano, o desarmamento do Hezbolá e uma força das Nações Unidas mais eficaz no sul do Líbano. O Hezbolá não se desarmou.

O fim da guerra não representou tranquilidade para o Líbano. No dia 21 de novembro, o país foi sacudido pelo assassinato em Beirute do ministro da Indústria e líder maronita-cristão Pierre Gemayel, filho do ex-presidente Amin Gemayel. Pierre era um político de oposição à Síria, membro do partido Phalange. Políticos anti-sírios acusaram Damasco de estar por trás do assassinato, embora o governo sírio desmentisse e condenasse o atentado. A morte de Gemayel aconteceu em um momento de crise do governo de Fouad Siniora devido à renúncia de seis ministros que pertenciam ao Hezbolá. Os ministros reclamavam um governo de unidade e liderado pela “influência ocidental”.

Desde o final de setembro, multiplicaram os protestos em massa contra o governo de Siniora, majoritariamente protagonizados por setores mais pobres da população, em geral pertencente à comunidade xiita. Os manifestantes reclamam representação e serviços básicos. O Hezbolá, com uma posição fortalecida depois da guerra, promete atendê-los. Para evitar uma divisão sectária, o grupo se aliou com Michel Aoun, um político cristão-maronita que prometeu limpar o governo da corrupção. A instabilidade política pode se agravar em 2007 se o governo de Siniora não fizer grandes concessões para incluir o Hezbolá e seus seguidores. (IPS/Envolverde)

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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