Tailândia: Depois das bombas, as culpas

Bangcoc, 03/01/2007 – É a hora de buscar bodes expiatórios na Tailândia: o governo militar acusa seus adversários políticos de ter participação na série de atentados com bomba que sacudiram Bangcoc às vésperas do Ano Novo. A junta militar não pára de sugerir que os simpatizantes Thaksin Shinawatra – o duas vezes eleito primeiro-ministro, deposto em setembro – foram os responsáveis pelas explosões que mataram três pessoas e feriram outras 40 no último domingo. Por outro lado, as pesquisas sobre os atentados são alvo de polêmica depois que o advogado mais respeitado do país, Porntip Rojanasunan, acusou a polícia de tê-lo impedido, e à sua equipe de investigadores independentes, de coletar evidências nos locais das explosões.

Na manhã da última terça-feira, menos de 48 horas depois das primeiras bombas, a cena onde ocorreu a explosão maior, em um ponto de ônibus perto do monumento à Vitória, estava totalmente limpa. Para os militares, as explosões não poderiam ter acontecido em um momento pior, quando começam a chover críticas contra sua administração do país apenas três meses depois de tirar do poder o partido Thai Rak Thai (Tailandeses que Amam a Tailândia), de Thaskin.

“Isto coloca em xeque a credibilidade da junta, pois se trata de um governo militar e a segurança nacional é sua prioridade. As pessoas esperam mais deles nesse campo”, disse à IPS o analista político independente Laurent Malespine. O que as investigações sobre os atentados revelam acrescentará tensão no cenário político, justo quando a nova Assembléia Constituinte apenas começa seu trabalho para redigir uma nova constituição, a de número 18 deste país desde que se converteu em monarquia em 1932.

O governo militar e alguns simpatizantes do golpes são acusados por ativistas pró-democráticos de tentarem limitar a participação do público no processo político. “O processo de redação da constituição será muito tenso. Aparecerão muitas divisões”, previu Malespine. Analistas acreditam que o primeiro-ministro, Surayud Chulanont, ex-chefe do Exército, poderia ter colocado sua própria administração contra a parede ao reduzir a lista de possíveis suspeitos a “pessoas que perderam benefícios políticos” nos últimos meses, em vez de dar lugar a outras hipóteses.

“Não tem sentido que o Thai Rak Thai tenha colocado as bombas, pois vai contra sua estratégia de tentar ganhar votos por vias populistas”, disse à IPS o analista político Giles Ungpakorn, da Universidade Chulalongkonr, de Bangcoc. “As bombas apenas alienarão o eleitorado e levarão as pessoas em direção aos militares”, acrescentou. O governo não deveria ter rejeitado outros possíveis vínculos, como a crescente insurgência nas províncias malaio-muçulmanas do sul, onde mais de 1.700 pessoas morreram nos últimos três anos, acrescentou.

Entretanto, o governo rejeita está hipótese devido à natureza dos produtos químicos e componentes usados para fabricar os explosivos, incluindo nitrato de amônia, pregos, peças de metal e relógio digital. Ao menos um especialista norte-americano em terrorismo no sudeste da Ásia disse não estar convencido de que os rebeldes malaios sejam os responsáveis pelos ataques, já que “as bombas eram menores e mais sofisticadas” do que as usadas no sul.

“Embora os rebeldes tenham capacidade técnica para atacar em Bangcoc, carecem de infrra-estrutura de apoio. Por que Bangcoc, se estão ganhando no sul?”, disse à IPS o professor de política internacional Zachary Abuza, do Simmons College, do Estado de Massachusetts (EUA). E, com é típico em muitos países governados por militares, a Tailândia se encheu de boatos e teorias de conspiração, como divisões dentro do próprio regime. “Uma alta fonte política disse que aqueles por trás dos ataques podem ser homens de uniforme, mas, negou-se a ser mais específico até que haja evidência mais concreta disponível”, informou no sábado o jornal The Nation. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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