Cairo, 03/01/2007 – Depois da execução do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein quase quatro anos depois de os Estados Unidos liderarem a invasão e ocupação de seu país, o Oriente Médio continua diante do abismo. Sua morte já está causando mais problemas do que soluções. Apesar da formação de um governo permanente, o Iraque se viu reduzido ao caos e à violência sectária. A execução não trará estabilidade ao país, nem credibilidade ao seu governo. A situação de segurança se agravou em fevereiro de 2006, com um anônimo bombardeio contra um local de oração dos xiitas na cidade de Samarra, o que desencadeou uma onda de violência e contínuos protestos.
A formação de um governo permanente em maio, após três meses de disputas entre sunitas, xiitas e curdos, pouco ajudou para deter a violência. As tristes consequências continuaram ao longo do ano, com centenas de milhares de sunitas e xiitas abandonando seus lares. Enquanto os ataques contra a coalizão liderada pelos Estados Unidos minguavam, os assassinatos de integrantes de um e outro ramo do islamismo aumentavam em quantidade e intensidade. De acordo com dados das agências humanitárias, 1,6 milhão de iraquianos foram obrigados a fugir, a maioria devido à violência, desde a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003.
No final de 2006, a morte diária de civis em áreas sunitas e xiitas atingiu grau sem precedentes, a ponto de muitos observadores considerarem uma guerra civil. Embora a Liga Árabe, com sede no Cairo, continua organizando conferências de “reconciliação do Iraque”, com a esperança de parar a violência, as perspectivas de alcançar a paz no curto prazo estão cada vez mais distantes. No final de dezembro, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, considerou enviar mais 20 mil soldados para unirem-se aos 141 mil atualmente no Iraque.
Assim, a morte de Saddam Hussein (1979-2003) após um processo de duvidosa legalidade e independência, pode piorar mais a já tensa situação no Oriente Médio. Além disso, a realidade dos territórios palestinos ocupados por Israel nunca foi pior. Enquanto isso, o Líbano está à beira de outra guerra civil, com uma fortalecida oposição xiita desafiando a liderança de Beirute. Entretanto, os aliados-chave dos Estados Unidos na região, com Egito, Arábia Saudita e Jordânia, mantiveram sua proximidade com Washington apesar das dúvidas sobre suas políticas.
Quanto à Síria e o Irã, os dois países considerados “estados terroristas” pela Casa Branca, suportam uma grande pressão internacional liderada pelos Estados Unidos, que continua jogando a carta do perigo regional xiita. Apesar do otimismo que se seguiu à cúpula palestino-israelense em 2005, o continuado conflito do Oriente Médio deu poucos sinais de cessar em 2006, ano em que começou com a vitória do radical Hamas nas eleições parlamentares da Palestina. Desde sua formação em março, o governo liderado pelo Hamas esteve sujeito a contundentes sanções internacionais por sua negativa em reconhecer Israel enquanto não houver concessões recíprocas.
O embargo dos Estados Unidos e da União Européia devastou a economia da Palestina e entorpeceu seriamente a capacidade do governo para pagar os salários dos servidores públicos. O governo do primeiro-ministro Ismail Henaya iniciou conversações com seu rival, o partido Fatha, ao final de 2006, com a esperança de forjar um governo um governo de unidade mais digerível para conseguir o fim das sanções. Mas, em meados do mês as duas partes romperam o diálogo culpando-se reciprocamente pelo fracasso.
O chamado do presidente Mahmoud Abbas, do Fatha, no dia 18 de dezembro, para convocar eleições parlamentares, desgotou o Hamas, que foi o claro vencedor da competição de janeiro. A disputa logo desembocou em violência, com assassinatos dos dois lados no final do mês, dando lugar a especulações, sobre o início de uma guerra civil. A situação não é menos grave na frente palestino-israelense. Depoios de cinco meses de incursões militares na faixa de Gaza, onde centenas de palestinos foram mortos, uma débil trégua foi declarada no final de novembro. Entretanto, as hostilidades continuam quase diariamente, se mantém a política israelense de “assassinatos seletivos” contra militantes procurados, enquanto grupos armados palestinos disparam mísseis caseiros contra alvos de Israel.
As capitais do Oriente Médio não estão menos inquietas pela situação do Líbano, onde a escalada bélica deste ano rompeu o equilíbrio de poder. Pouco mais de um ano depois de os militares sírios se retiraram do país, uma guerra aberta entre Israel e a milícia xiita libanesa e pró-síria do Hezbolá (Partido de Deus) começou depois da captura de dois soldados israelenses em julho. A medida que o conflito cresceu, com descargas diárias de artilharia de mísseis dos dois lados, a comunidade internacional, com notável exceção dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, solicitaram imediatamente o fim das hostilidades.
Quando o cessar-fogo apoiado pelas Nações Unidas foi obtido em agosto, mais de 1.400 pessoas haviam morrido, a maioria civis libaneses. A maior parte do sul do Líbano estava em ruinas como resultado dos ferozes bombardeios israelenses. A guerra despertou a inquietação no Líbano, com uma oposição crescente e aberta concuzida pelo Hezbolá contra o governo, assassinatos de figuras políticas e a presença síria na vida política. Esforços de mediação liderados pelo secretário da Liga Árabe, Amr Moussa, que convocou a oposição e o governo a negociarem um acordo de poder compartilhado, parecem remotos de acontecerem. (IPS/Envolverde)

