Comunicações: O celular é pau para toda obra

Rio de Janeiro, 09/01/2007 – Como resultado de uma rápida expansão nas camadas mais pobres, especialmente entre os numerosos trabalhadores informais, a quantidade de telefones móveis no Brasil já supera os cem milhões, equivalentes a mais de 53% de sua população. O telefone celular chegou ao País em 1990 ao custo de US$ 2 mil cada um. Mas esse valor foi caindo e em 1998, quando as companhias telefônicas foram privatizadas, já havia sete milhões de unidades. Este processo de popularização que se acentuou desde então e nas últimas semanas chegou ao ponto de as operadoras oferecerem o aparelho gratuitamente, subsidiando-o para conquistar novos assinantes.

Essa ofensiva aproveitando as festas de final de ano triplicou as vendas que anteriormente chegavam a uma média de um milhão de novos terminais cada mês. Os números oficiais de dezembro serão conhecidos dentro de algumas semanas, mas devem mostrar uma densidade de 53 telefones celulares para cada cem habitantes do País, cuja população é estimada em 188 milhões de pessoas. É que este meio de comunicação se revelou democrático. Em apenas 16 anos superou em duas vezes e meia a quantidade dos tradicionais telefones fixos, que no Brasil ficaram paralisados em 40 milhões de terminais ativos.

O sistema de celular pré-pago, que permite limitar os gastos mensais, ampliou o acesso dos pobres às telecomunicações. Cerca de 81% dos celulares no Brasil são pré-pagos e boa parte deles é usada apenas para receber chamadas, pois nunca, ou quase nunca, são abastecidos de créditos. Portanto, o gasto fica limitado ao investimento inicial da compra do aparelho. O telefone fixo perdeu competitividade por exigir um pagamento mensal de aproximadamente US$ 20,00, o que corresponde a 12% do salário mínimo nacional, uma quantia muito cara para os pobres. Além disso, a mobilidade é um fator decisivo.

Francisco Alves Dias, que há 25 anos trabalha por conta própria como eletricista e encanador, estima que sua renda aumentou “150%” desde que incorporou o celular à sua atividade. Antes, prestava serviços apenas em um grande edifício de classe média no Rio de Janeiro, permanecendo fisicamente ali esperando solicitações durante horas ou dias inteiros. Agora, Dias ampliou sua atuação para vários bairros, quase desapareceram as horas inativas, e trabalha “inclusive aos domingos”, disse à IPS. O celular, cujo número divulga em cartões distribuídos em vários lugares, passou a ser o seu escritório móvel.

Esse recurso representou uma alavanca de ascensão para muitos trabalhadores informais, que compõem mais da metade da mão-de-obra ocupada no Brasil. É o caso de uma ex-faxineira doméstica de São Paulo, que preferiu não ser identificada. Com o celular se animou a organizar festas de aniversário nos finais de semana, acabando por dirigir atualmente uma microempresa informal, com vários empregados. Uma infinidade de trabalhadores que não podem ter um escritório ou oficina para suas atividades, como manicuras, vendedores de rua, taxistas e prestadores de serviços variados, também estão entre os beneficiados pela telefonia móvel.

O impacto social da nova tecnologia, ainda sem estudos, inclui setores insuspeitáveis. O celular “melhorou muito a comunicação” dos surdos, graças ao serviço de mensagens escritas, disse à IPS Eduardo Monte, um engenheiro que perdeu a audição aos 12 anos, mas consegue conversar lendo os lábios do interlocutor. A vibração do aparelho ao receber uma chamada é outro recurso fundamental para os deficientes auditivos que os telefones fixos não oferecem. A presença de outros recursos visuais, como vídeos, é importante, bem como o teclado com símbolos em braile representa uma conquista para os deficientes visuais, ressaltou Monte.

Uma empresa brasileira desenvolveu um sistema de transmissão de mensagens traduzidas na Língua Brasileira de Sinais (Libras), a linguagem gestual que o Brasil adotou oficialmente e está implementando no ensino regular. A tecnologia foi chamada Rybená, que significa comunicação em uma língua indígena. O problema é que se trata de uma solução “de propriedade” de uma operadora telefônica, que terá de ser compartilhada com as demais que operam no mercado para facilitar o diálogo entre os surdos, disse Monte.

Na outra ponta, das camadas de maior poder aquisitivo, o uso e as expectativas a respeito do celular são muito diferentes. Além de facilitar a comunicação interpessoal, trata-se de um meio de entretenimento dos mais sofisticados e variado em recursos, com a incorporação de câmara fotográfica, música, jogos eletrônicos, vídeos e acesso à Internet. Também é usado como instrumento de segurança. Há cerca de três semanas teve grande repercussão o caso de um empresário que desde a Alemanha impediu um assalto à sua residência em uma praia do litoral paulista. Um sistema instalado na casa do empresário transmitiu para seu celular um sinal indicando a invasão por estranhos. Em seguida, pôde ver via Internet o que se passava dentro da residência e avisar a polícia, que deteve o assaltante. A violência no Brasil é um grande estímulo para o uso do celular, especialmente por adolescentes e jovens. Seus país os presenteiam com o telefone móvel para controlar seus movimentos, especialmente nas saídas noturnas.

No futuro próximo “a convergência é inevitável” e o celular também será um televisor móvel, previu para a IPS Gustavo Gindre, ativista do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e coordenador do Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura. Em breve, o produto audiovisual televisivo será visto na tela dos televisores, nos computadores e nos telefones celulares, mas, isso será tema de fortes disputas em relação à implantação da televisão digital, que começará este ano no Brasil, lembrou Gindre. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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