Bangcoc, 10/01/2007 – Uma carta manuscrita dirigida a um ditador militar pode parecer uma forma ineficaz de desafiar o poder na era da Internet, onde o correio eletrônico, os blogs e os sites se combinam para desestabilizar a autoridade em vários países. Mas, na Birmânia, onde vigora uma rígida censura e o acesso à tecnologia da informação é limitado, o sofrido povo recorre ao tradicional papel de carta para expressar sua crescente insatisfação com o regime.
Após o lançamento da campanha “Coração aberto” na primeira semana do ano novo, dezenas de milhares de habitantes de Rangun e seus arredores adquiriram envelopes e folhas especiais para escrever as cartas, afirmaram os organizadores, antigos estudantes universitários conhecidos como “Estudantes da geração 88”. Este “é um esforço para romper o silêncio. Para fazer as pessoas escreverem abertamente suas queixas ao governo militar”, explicou Naing Aung, secretário-geral do Fórum pela Democracia na Birmânia, um grupo de exilados políticos birmaneses que trabalham junto com a Geração 88. “Não basta se queixar. Está campanha é para que os cidadãos demonstrem sua coragem de se identificarem abertamente como críticos”, acrescentou.
A campanha, com duração de um mês, é o mais recente esforço da Geração 88 para “elevar a voz do povo”, disse Aung em uma entrevista, acrescentando que “se trata de uma forma pacífica de expressar as opiniões do público, porque os protestos estão proibidos, a imprensa censurada e não há eleições”. Entretanto, a ousadia de escrever diretamente ao homem forte da Birmânia, general Than Shwe, representa um alto risco pessoal, inclusive de prisão, se provocar a ira da junta. As forças armadas que governam o país desde o golpe de Estado de 1962 demonstrou escasso respeito pelas liberdades políticas e civis e pelos direitos humanos. A dissensão e os proclamas de liberdade costumam se chocar com a força bruta.
As forças do levante popular que em 1988 quase derrubaram o governo militar foram reprimidas duramente, e a insurgência de minorias étnicas foi domesticada através de acordos de cessar-fogo, mas, o regime se aferrou ao poder mesmo depois de perder as eleições gerais que organizou em 1990. nessas eleições venceu por esmagadora maioria a Liga Nacional pela Democracia, de Aung San Suu Kyi, mas os militares desconheceram o resultado das urnas, proibiram as atividades de oposição e prenderam o desterraram seus líderes. Suu Kui, filha do herói anticolonialista Aung San, foi condenada a prisão domiciliar e incomunicável. Desde então foi libertada e detida em numerosas ocasiões. Em 1989, recebeu o prêmio Nobel da Paz.
O Conselho Estatal para a Paz e o Desenvolvimento, como se autodenomina a junta militar, tem atualmente mais de 1.100 presos de consciência, entre eles parlamentares opositores, monges budistas, jornalistas, escritores, estudantes e ativistas políticos. A Geração 88 tomou seu nome dos estudantes que em 1988 encabeçaram um protesto pela democracia que foi brutalmente reprimida pelo regime militar, e baseia sua atual campanha no êxito de outras três realizadas no ano passado. A primeira foi uma campanha de assinaturas, em outubro último, pela libertação de todos os presos políticos, incluindo Suu Kyi. Cerca de 60 mil pessoas assinaram a petição.
Em seguida foi feita a campanha de “expressão branca”, que exortava as pessoas a se vestirem de branco como símbolo de honestidade e pureza, e um culto inter-religioso que incluiu rezas coletivas em silêncio e vigílias com velas em templos, igrejas e mesquitas. Ativistas políticos vêem com prazer todas estas atividades. “As pessoas querem cooperar com está campanha porque sofrem cada vez mais. Para muitos não importa o que possa lhes acontecer”, disse à IPS o ativista Zaw Min, porta-voz do Partido Democrático para uma Nova Sociedade, proscrito pela junta militar. “Cada vez mais as pessoas se identificam quando expressam sua opinião”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

