Cartum, 10/01/2007 – A violência voltou a explodir na região sudanesa de Darfur, forçando uma retirada em grande escala de trabalhadores humanitários, inédita desde que começaram as operações de ajuda nessa zona devastada pela guerra. Cerca de 400 membros do pessoal da Organização das Nações Unidas e de organizações não-governamentais foram evacuados das áreas de conflito nas últimas semanas, devido à crescente insegurança. Entre eles havia empregados da organização irlandesa de assistência Goal.
“Durante três anos pedimos à comunidade internacional que enviasse uma força internacional de paz para proteger os civis inocentes e manter abertos os canais de assistência”, recordou o fundador da Goal, John O’Shea, em uma declaração de imprensa após a retirada. “Está claro que a comunidade internacional não considera as vidas de quatro milhões de pessoas na região, que precisam desesperadamente de proteção”, acrescentou. Foram retirados trabalhadores internacionais e sudaneses de fora de Darfur. “Alguém é responsável: se foi recrutado alguém do Sudão, deve ser devolvido ao lugar que pertence”, disse à IPS Mark Blackett, diretor da filial sudanesa da Goal.
Porém, vários socorristas locais que ficaram para trás ainda estão em Darfur, fazendo o possível para manter os escritórios em funcionamento. “Soa terrível dizer que isso é muito perigoso para o pessoal internacional e pretender deixar somente os trabalhadores locais”, disse Alun McDonald, porta-voz da não-governamental Oxfam. “Não é o caso. Eles têm mulher e filhos. Não podemos evacuar a família estendida de todos”, acrescentou.
A maioria dos sudaneses que ficou não quer dar declarações sobre sua decisão de continuar trabalhando depois da retirada de outra equipe, citando políticas de ONGs que requerem que as perguntas sejam feitas somente a porta-vozes das agências. Funcionários de assistência asseguraram que estas políticas são implementadas para impedir ataques contra pessoal local. Entretanto, alguns deles disseram à IPS que continuar com os trabalhos assistenciais em Darfur foi tanto uma responsabilidade com sua região quanto uma oportunidade para realizar tarefas mais bem pagas do que as que teriam conseguido de outra maneira.
Abdallah, natural da cidade de Nyala, ao sul de Darfur, que pediu para não ter divulgado seu nome completo, perdeu seu trabalho no Conselho Norueguês de Refugiados depois que essa ONG foi expulsa dessa parte da conflitiva região sudanesa. Isso aconteceu em novembro, depois de uma suspensão de dois meses de suas atividades pelo governo do Sudão, que acusou a agência de divulgar informação errônea.
“É um grande problema ter perdido meu trabalho. Tenho seis filhos. Agora procuro emprego. Fiquei porque este é meu lar e quero ajudar os outros habitantes de Darfur”, disse Abdallah. Em Gereida, onde fica o maior acampamento de refugiados de Darfur, pessoal da Oxfam que ainda trabalha no local distribui combustível para as bombas de água para sua retirada dos poços. Mas, a porta-voz da agência, Caroline Nursey, disse à IPS que a operação não pode continuar funcionando por muito tempo se não contar com todo o pessoal.
Organizações de assistência expressaram crescente frustração pelo aumento da violência em Darfur, o que coloca em risco a maior operação humanitária do mundo, que agora inclui cerca de quatro milhões de pessoas. A Oxfam suspendeu suas operações em Gereida no final de dezembro, depois que cinco de seis dos seus veículos foram roubados por homens armados, que também levaram equipamentos e dinheiro.
“Desde que estamos na linha de fogo estamos presos a isso”, disse Nursey. “Mas, chega um ponto em que devemos priorizar a segurança do pessoal. Penso que até há pouco tempo havia respeito pelos socorristas, e não eram considerados alvos. Mas, nos últimos dois meses houve uma séria deterioração, e mais violência”, acrescentou. Treze trabalhadores humanitários, todos sudaneses, foram assassinados desde a assinatura de um acordo de paz em Darfur, em maio.
Funcionários de ajuda dizem que os socorristas sudaneses são mais propensos a estar em perigo, por duas razões. A primeira é a natureza mais perigosa dos trabalhos que realizam, incluindo os de guardas e motoristas. A segunda é que, simplesmente, há mais sudaneses que trabalham nessa área. “A maioria das pessoas assassinadas foram mortas em roubos de automóveis”, disse Nursey.
Casos extremos de insegurança podem fazer com que sejam retirados inclusive trabalhadores locais. E, em última instância, se os funcionários são internacionais ou sudaneses, o efeito de sua retirada é o mesmo: “Quando alguém não pode prestar ajuda, todos se sentem frustrados, tanto os funcionários locais quanto os internacionais”, disse Blackett. A assinatura do acordo de maio foi inicialmente elogiada como um grande avanço para acabar com o conflito em Darfur, mas, agora esse documento é considerado amplamente supérfluo, após a negativa da maioria dos rebeldes em apoiá-lo.
Somente uma facção do Exército de Libertação do Sudão, liderada pelo comandante Minni Minnawi, assinou o acordo. Outro grupo do Exército de Libertação, junto com o rebelde Movimento de Justiça e Igualdade, disse que o acordo não atendia suas demandas básicas de compartilhar riqueza e poder. Em particular, segundo os rebeldes, foi insuficiente a oferta do governo sudanês de US$ 30 milhões como compensação para cerca de três milhões de vítimas do prolongado conflito.
Em setembro, as autoridades lançaram um ofensiva militar contra rebeldes que se negam a aceitar o acordo em Darfur, provocando mais refugiados civis. Alguns observadores denunciam que os ataques aéreos do governo devastaram certas aldeias e que as milícias árabes conhecidas como janjaweed (Homens a cavalo, em árabe) continuam matando, violentando e saqueando impunemente. Há funcionários acusados de explorar as tensões entre nômades árabes e agricultores de outras etnias, que por muito tempo lutaram pela terra e pelos recursos hídricos, armando os janjaweed para realizar uma guerra por meio de apoderados em nome do governo.
Em Darfur, segundo algumas organizações, morreram cerca de 400 mil pessoas desde 2003, quando rebeldes que buscam maior autonomia e desenvolvimento se levantaram contra o governo, que respondeu com bombardeios e apoio a grupos rebeldes afins. Desde então, milhões de camponeses e aldeões tiveram de abandonar suas casas. Em agosto, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma proposta para enviar mais de 20 mil pacificadores à região, em apoio às forças da União Africana que se encontram no local. A missão da UA esteve repleta de problemas financeiros e um débil mandato que – denunciam os críticos – impediu a proteção dos civis.
Inicialmente, o Sudão rechaçou a entrada dos soldados das Nações Unidas, acusando a ONU de tentar recolonizar o país. No mês passado, o presidente, Omar el-Bashir, parecia apoiar um enfoque em três fases para que uma força combinada da ONU e da UA começasse a operar. Mas, informes indicam que posteriormente disse que esta força expandida somente incluiria efetivos africanos, que trabalhariam com apoio técnico das Nações Unidas.
A ONU adverte que o conflito em Darfur, que se expandiu ao vizinho Chade e à República Centro-Africana, ameaça atingir toda a região, colocando em risco cerca de seis milhões de pessoas. Calcula-se que mais de 200 mil foram assassinadas e aproximadamente dois milhões tiveram de se refugiar desde que começou a violência em Darfur. (IPS/Envolverde)

