Hebron, Palestina, 24/01/2007 – A situação dos palestinos se agrava dia a dia por causa da ocupação militar israelense. A cidade de Hebron, na Cisjordânia, é um vivo reflexo da tragédia causada por este projeto colonialista. Esta cidade, 35 quilômetros ao sul de Jerusalém, se caracterizava historicamente por sua mescla muçulmana-judia, mas nas últimas décadas as autoridades israelenses oprimiram os 150 mil palestinos que moram nela, além de apoiar o desenvolvimento das colônias judias. Cerca de 650 colonos ultradireitistas judeus ocuparam partes da velha cidade, destruíram as vizinhanças palestinas e a infra-estrutura econômica.
Agora, Hebron está dividida em duas partes, chamadas H1 e H2, por uma linha que separa os assentamentos do resto da cidade. Hoje, a maioria dos palestinos não pode se aproximar da zona H2. O que era uma zona residencial e de negócios, se converteu em um povoado fantasma, habitado apenas por colonos protegidos por soldados e policiais israelenses. Nas portas dos estabelecimentos comerciais e das mesquitas pode-se ver pintadas a estrela de David ou frases agressivas como “matem os árabes”, “Deus se vingará dos não-religiosos” ou “A câmara de gás para os árabes”. Hani Abu Akker nasceu há 40 anos no bairro de Tel Rumeida, agora parte da área H2 que fica no topo de uma colina de onde se vê toda a cidade de Hebron.
“Vê essa rua? Meu pai a construiu com as próprias mãos em 1945, antes que nada fosse chamado Israel”, disse à IPS, parado perto de sua casa na encosta da colina. Abu Akker não pode entrar em sua casa pela porta da frente, pois esta cercada por barras de aço e arame farpado como forma de proteção do constante assedio que sua família sofre diariamente. Para entrar em sair de sua casa, Abu Akker tem de suar a porta dos fundos e contornar o quarteirão. Sua casa está no meio a uma zona colonial de guerra, e os soldados israelenses decidem quem pode sair e entrar. É comum ver os colonos caminhando armados pelas ruas.
O israelense Yehuda Shaul conhece bem a situação de Hebron. Ele é co-fundador do grupo esquerdista Rompendo o Silêncio. Shaul também fez o serviço militar como comandante de um batalhão instalado no distrito H2. “Tudo o que se precisa saber sobre a ocupação pode ser visto nesta área de cinco quilômetros quadrados dentro de Hebron”, disse Shaul à IPS, parado em meio a um espaço vazio que uma vez foi um mercado de carne e hoje está destruído totalmente e abandonado. “Tudo está aqui. Este é um microcosmo do que ocorre em Israel e na Palestina. Aqui, 650 colonos governam e 150 mil palestinos pagam o preço”, afirmou.
Os palestinos que vivem nesta área têm sido hostilizados e atacados durante anos. Muitas famílias preferiam mudar, cansadas de anos de tormento e do lixo que os colonos atiram contra suas casas. As crianças palestinas são alvo de sérios ataques físicos nos últimos anos. Trabalhadores humanitários internacionais instalaram-se perto das escolas para servir de escoltas às crianças e evitar tragédias. Na semana passada, Efrat Akobi, um colono de Tel Rumeida, foi interrogado pela policia israelense depois que a organização humanitária B’Tselem divulgou imagens nas quais ele aparece hostilizando uma adolescente palestina, a quem xingava e dizia: “volte para sua jaula”.
O ministro israelense da Defesa, Amir Peretz, disse estar “chocado” pelas imagens e anunciou uma completa investigação. Mas os palestinos de Hebron dizem que não foi um incidente isolado. “Os ataques nessa cidade são cometidos diante dos soldados israelenses, que são incapazes ou não têm vontade de detê-los. A policia de Hebron, que recebeu centenas de queixas sobre violência por parte de colonos, também está sabendo da situação”, denunciou B’Tselem na semana passada. “É indigno que o Ministério da Defesa e os serviços de segurança finjam ignorar o problema e só se movimentarem agora por causa da polêmica causada pelo vídeo”, acrescentou a organização. (IPS/Envolverde)

