Iraque: O inimigo onipresente

Washington, 31/01/2007 – Dois incidentes que envolveram forças dos Estados Unidos no sul do Iraque, dominado por xiitas, foram um claro exemplo da complexidade do conflito nesse país. A batalha de domingo perto da cidade de Najaf, na qual militares norte-americanos morreram ao ser derrubado o helicóptero em que viajavam, foi inicialmente informado como um ataque cometido por rebeldes sunitas e “combatentes estrangeiros” nessa cidade sagrada para os xiitas, e para onde confluem dezenas de milhares de peregrinos para as festividades muçulmanas.

Entretanto, informes posteriores identificaram os atacantes, fortemente armados e bem organizados, como membros do Exército do Céu, uma obscura seita xiita que acredita que o assassinato dos principais líderes espirituais de Najaf, inluindo o grande aiatolá Ali Al Sistani, preparará o caminho para a volta do imã Al-Mahdi. De acordo com as crenças xiitas, Al-Mahdi, conhecido como “o imã escondido”, desapareceu de seu túmulo na Mesquita Dourada, principal templo xiita de Samarra, 125 quilômetros ao norte de Bagdá, e reaparecerá no futuro para resgatar os crentes.

O governo iraquiano assegurou que 200 membros do Exército do Céu foram assassinados, incluindo o líder do grupo, e outros 120 foram capturados após cerca de 15 horas de combate. “Se tivessem triunfado em seus planos, as conseqüências políticas teriam sido catastróficas”, disse um funcionário de Washington, afirmando que a de domingo foi de longe a batalha mais dura no sul do Iraque desde a insurreição do Exército Mahdi, do clérigo xiita Moqtada al Sadr.

“O fato de não termos sido prevenidos, quando havia tantas pessoas envolvidas, demonstra como é limitado nosso serviço de inteligência, não apenas na província de Al Anbar (baluarte da insurgência sunita) e em Bagdá, mas também no sul. Realmente, não sabemos muito do que está acontecendo ali”, acrescentou o funcionário. As forças da coalizão liderada pelos Estados Unidos entregou formalmente o controle dos serviços de segurança iraquianos a Bagdá no mês passado.

Por outro lado, as autoridades ainda tentam descobrir que esteve por trás do ataque-surpresa do último dia 20 contra militares norte-americanos que se reuniam com seus pares iraquianos nos escritórios do governo regional de Karbala, cerca de 70 quilômetros ao norte de Najaf. Após informar que cinco soldados dos Estados Unidos foram assassinados defendendo o recinto militar, o Departamento de Defesa ratificou sua informação e esclareceu, na semana passada, que somente um soldado morreu no ataque, enquanto os outros quatro foram seqüestrados e depois executados cerca de 40 quilômetros a leste, onde seus corpos foram encontrados.

A agência de notícias Associated Press informou que uma dezena de rebeldes que viajavam pelo Iraque em veículos todo-terreno iguais aos usados pelos militares da coalizão usavam supostos uniformes de combate norte-americanos e vários deles falavam inglês. Foi o que contaram à AP soldados iraquianos que, pensando que fossem soldados dos Estados Unidos, os deixaram passar pelo posto de vigilância localizado nos arredores de Karbala. Os veículos e os uniformes, ao que parece utilizados no ataque, foram encontrados junto ao corpo dos soldados assassinados.

“A precisão do ataque, o equipamento usado e a possível utilização de explosivos para destruir os veículos militares sugere que a operação foi bem preparada”, disse à AP um porta-voz militar em Bagdá. Embora os militares norte-americanos anunciassem a prisão de quatro suspeitos pelo ataque, desde então não deram mais nenhuma informação, alimentando as especulações dentro do governo iraquiano e entre analistas independentes. Juan Cole, especialista da Universidade de Michigan, afirmou que o ataque foi cometido por rebeldes sunitas “para prejudicar as medidas de segurança” adotadas para a peregrinação de Ashura, que acabou nesta terça-feira em Karbala, e da qual participaram dezenas de milhares de fiéis para comemorar o martírio do neto do profeta Maomé, Al Hussein.

Por sua vez, Ray Close, ex-analista do Oriente Médio na Agência Central de Inteligência, sugeriu que o ataque e os seqüestros sejam uma represália pelas últimas blitze nas quais os militares norte-americanos detiveram funcionários iranianos no Iraque, a primeira em 21 de dezembro em Bagdá e a segunda na cidade curda de Arbil, no último dia 10. Após os protestos do governo central iraquiano e de Teerã, os iranianos foram libertados e deportados. O fato de a blitz ter acontecido nos escritórios do líder do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, Abdul Aziz al-Hakim, faz aumentar a preocupação. Al Hakim acabava de regressar de Washington, onde foi recebido com honras pelo presidente George W. Bush. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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