Londres, 27/01/2005 – O Fórum Social Mundial começou nesta quarta-feira em Porto Alegre com sistemas de informação de código aberto, em concordância com sua aspiração de incentivar uma política aberta a todos. Os milhares de computadores utilizados durante o encontro possuem programas de informática gratuitos e livres. O site oficial do FSM foi desenvolvido em php, uma linguagem de código aberto (que pode ser modificado pelo usuário). O sistema de traduções também se baseia em um programa gratuito, desenvolvido pelo Nomad, um grupo de técnicos do Brasil, da França, Grã-Bretanha e Índia que trabalham desde 2003 de maneira voluntária para o Fórum Social Mundial.
Por outro lado, um grupo de Tunis desenvolveu um programa para armazenar gravações de vídeo e oferecê-las na Internet. As deliberações em mais de 400 painéis serão transmitidas ao vivo, o que permitirá uma participação virtual de qualquer parte do planeta em conexão com a rede mundial de computadores. A intenção é transformar o FSM em um espaço onde a prática reflete modelos para um mundo melhor. O "território social mundial" – como os organizadores denominam a sede do Fórum – é um ambiente onde se manejam tecnologias de código aberto, energia de fontes renováveis e produtos cuja técnica de mercado segue os princípios do comércio justo.
Aproximadamente US$ 744,6 mil do orçamento de US$ 5,2 milhões do Fórum Social Mundial foram destinados a organizações de defesa do comércio justo e a sistemas de comunicação de código aberto. O FSM também é uma instância de reunião para ativistas defensores do software livre, que realizarão um "laboratório de conhecimento livre" no acampamento juvenil instalado em Porto Alegre. Esses debates serão animados por membros da Fundação Software Livre, pelo sociólogo espanhol Manuel Castells e Lawrence Lessing, da organização Creative Commons Iniciative, que defende uma alternativa para as atuais normas de propriedade intelectual que proteja o trabalho criativo, mas também promova o acesso ao conhecimento.
A Creative Commons Iniciative fornece um sistema denominado "alguns direitos reservados" em sites da internet, programação informática, música, cinema e literatura. Um escritor pode, por exemplo, proibir o uso comercial de sua obra, mas permitir o intercâmbio livre com fins não-lucrativos. Para isso, deve amparar-se em um dos 11 diferentes tipos de licença adotados em todo o mundo. A rede estatal de rádio e televisão britânica BBC anunciou em maio passado que submeterá um amplo arquivo de sons e imagens às licenças da Creative Commons, permitindo download ao público, mas proibindo seu uso comercial.
Não surpreende que o Brasil participe do debate sobre alternativas ao sistema vigente de propriedade intelectual. Na primeira fase da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, realizada em Genebra em 2003, o governo brasileiro se opôs fortemente à propriedade intelectual do software, e conseguiu que a questão figurasse na declaração final. O software livre (de código aberto) também é parte do projeto Cultura Viva lançado no ano passado pelo Ministério da Cultura do Brasil para incentivar as iniciativas comunitárias nessa área. Às 261 comunidades envolvidas no projeto se somarão outras 250 no próximo mês. "Trabalhar com códigos abertos e reciclar velhos computadores permite às organizações da sociedade civil criar laboratórios multimídias em comunidades subdesenvolvidas", disse à IPS Vitor Cheregati, funcionário do ministério. Em sua viagem em caravana muitos grupos do Cultura Viva se detiveram em diversas localidades para se reunirem com as comunidades.

