Washington, 06/02/2007 – Pela primeira vez na história, os Estados Unidos criarão um comando militar especialmente dedicado à África. A criação do Africom, que será anunciada formalmente esta semana, quando o presidente George W. Bush apresentar seu pedido orçamentário para 2008, é um reconhecimento oficial de que esse continente requer maior atenção de alto nível por parte do Departamento de Defesa. Particular preocupação causa o papel da África na “guerra mundial contra o terrorismo” ou, na linguagem do Pentágono, “a longa guerra”, bem como a crescente importância de seus recursos naturais, especialmente petróleo e gás, para a economia mundial.
Washington também se preocupa com a crescente influência da China no continente africano e sobre seus recursos. Atualmente, a África ocidental responde por quase 20% do fornecimento de hidrocarbonetos dos Estados Unidos, e prevê-se que fornecerá 25% até 2015. A vigilância do continente africano pelos Estados Unidos está repartida em três comandos regionais. O Comando Europeu (Eucom), que cobre toda a Rússia, o Cáucaso e a Turquia, também inclui o norte da África, o ocidente do Egito e todo o ocidente, centro e sul africano. O Comando Central (Centcom), que cobre a Ásia central o Oriente Médio, também inclui Egito, Sudão e o Chifre da África. Por fim, o Comando do Pacífico (Pacom) inclui as ilhas africanas no oceano Índico, incluindo Madagascar, bem como toda a Ásia e o Pacífico.
A idéia de criar o Africom, que em princípio terá sua base no quartel-general da Eucom, na Alemanha, conta com forte apoio do Congresso norte-americano, tanto por parte do Partido Republicano (governo) quando do Partido Democrata (oposição). “Um comando para a África ajudara os militares norte-americanos a se concentrarem em um continente que é essencial para nossa segurança”, afirmou o presidente do Subcomitê do Senado para a África, o democrata Russell Feingold. “Nossa estratégia de segurança nacional precisa evoluir, bem como nossa capacidade para enfrentar as novas e emergentes ameaças”, afirmou.
“Um comando africano é vital para fortalecer nossas relações com as nações desse continente e impedir que se convertam em bases para ataques contra os Estados Unidos ou nossos aliados”, acrescentou Feingold. Desde a “queda do Falcão Negro” em 1993, quando 18 soldados norte-americanos morreram na Somália devido à queda de um helicóptero militar, Washington resistia, em geral, a “por as botas” na África, apesar da pressão internacional. O governo norte-americano se mostrava reticente em participar de missões de paz e limitava-se a oferecer apoio financeiro e logístico.
Entretanto, a presença militar norte-americana nesse continente, especialmente no Chifre da África, e, em menor grau, no ocidente, rico em gás e petróleo, cresceu desde os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington e o início da “guerra mundial contra o terrorismo”. Desde 2002, a maior concentração de soldados norte-americanos na África foi o Acampamento Lemonier, na antiga colônia francesa do Djibuti, onde entre 1.500 e 1.900 soldados do Centcom estão preparados para intervenções rápidas contra supostos terroristas no leste, onde a rede Al Qaeda realizou mortais atentados em 1998 contra as embaixadas dos Estados Unidos em Nairóbi e Dar es Salaam.
Alguns desses soldados, bem como as unidades navais que patrulham a costa da Somália, teriam participado do acompanhamento e de dois ataques contra supostos líderes da União de Cortes Islâmicas, depois que este grupo armado abandonou Mogadíscio diante da ofensiva da Etiópia. Junto com o Egito, que continuará sob jurisdição do Centcom apesar da criação do novo comando, a Etiópia recebeu a maior assistência militar norte-americana na África. A intervenção etíope na Somália foi preparada pelos falcões de Washington, a ala mais belicista do governo Bush, e tomada como um modelo para futuras estratégias antiterroristas.
Por outro lado a Eucom enviou dezenas de unidades de treinamento, bem como milhões de dólares em armas e outros equipamentos, a governos amigos como parte de sua Iniciativa Contraterrorista Transsaariana. O programa, para o qual o Congresso norte-americano destinou cerca de US$ 500 milhões para os próximos seis anos, se concentra na Argélia, no Chade, Malí, Marrocos, Mauritânia, Níger, Nigéria e Senegal, todos países cujos governos asseguram, com diferentes graus de credibilidade, que a Al Qaeda ou grupos associados estão ativos. Por outro lado, o Centcom se tornou mais ativo na África ocidental, cuja importância para o futuro energético dos Estados Unidos está crescendo, e onde a pobreza, a corrupção e as tensões étnicas, segundo Washington, poderiam criar uma instabilidade semelhante à do Afeganistão ou a Somália. (IPS/Envolverde)

