Mundo: Eleições e violência no Iraque

Bagdá, 27/01/2005 – Às vésperas das eleições, a maioria dos iraquianos não sabe onde terão de votar nem em quais candidatos. Quase tudo é mantido em reserva "por questões de segurança", e a única certeza é a violência. Na medida em que se aproxima a data da votação, a resistência iraquiana intensifica seus ataques contra as forças de ocupação dos Estados Unidos e de seus aliados, a polícia iraquiana, escritórios governamentais e supostos centros de votação. Na quarta-feira, a explosão de três carros-bomba em menos de uma hora matou cinco pessoas e feriu seis na província de Tamim, no Curdistão iraquiano, e um helicóptero da Marinha norte-americana caiu perto da cidade de Ar Rutbah, segundo alguns oficiais, que não revelaram a causa do ocorrido.
Também na quarta-feira, quatro soldados da coalizão que ocupa o país morreram na explosão de um carro-bomba perto da caravana em que viajavam para o sudoeste de Bagdá. No dia anterior, o juiz Qais Hashim al-Shammari foi assassinado junto com seu cunhado quando deixava a casa do parente na zona leste da capital, e ainda rebeldes atacaram os escritórios de dois partidos políticos em Baquba, com saldo de um policial iraquiano morto e quatro feridos. Por outro lado, três escolas de Bagdá que seriam usadas como centros de votação no próximo domingo foram atacadas na noite de terça-feira.
Esta semana, pelo menos seis soldados norte-americanos foram mortos em Bagdá. Um morreu na segunda-feira, quando o veículo de patrulha em que viajava passou sobre uma bomba colocada no caminho e outros cinco morreram no que as autoridades militares descreveram com "um acidente de trânsito". Nesse mesmo dia, um carro-bomba explodiu perto da sede partido do primeiro-ministro interino, Iyad Allawi. Pelo menos cinco pessoas, quatro delas policiais, morreram no atentado. Em meio a estes incidentes, os cidadãos tratam de adivinhar os lugares onde terão de votar e quais são os candidatos.
Aparentemente, as escolas serão centros de votação. A comissão eleitora ainda não fez o anúncio de maneira oficial, mas muitas escolas de Bagdá foram cercadas com barreiras de areia, blocos de concreto e arame farpado."Me sinto inseguro em minha própria casa, agora mais do que antes", afirmou Hashim al-Obeidy, um engenheiro aposentado que vive perto de uma dessas escolas. "Vi como os soldados norte-americanos construíram essas barreiras, e agora temo que os morteiros atinjam minha casa se a escola for atacada", acrescentou. Parado diante de sua residência no centro de Bagdá, apontou para a barreira de areia na frente de uma antiga escola semidestruída. "Já danificaram gravemente nossos sistema educacional, não reconstruíram nada e agora provocarão mais destruição", disse Hashim. "Seria uma loucura ir votar. É muito perigoso", afirmou, por sua vez, Salman, um guarda de 45 anos diante de uma outra escola também cercada por barricadas.
A maioria dos cidadãos ainda não sabe em qual escola votarão, e muitos expressam frustração pelo que consideram um processo ilegítimo. Além disso, "por que votar se ainda não sabemos quem são os candidatos?", perguntou Shawket Daoud, um técnico em computação que trabalha para o governo interino do Iraque. Mais de sete mil candidatos preferiram ficar no anonimato até o dia da eleição. Pelo menos oito líderes políticos, supostamente candidatos, foram assassinados e muitos outros receberam ameaças de morte. Ainda assim, alguns iraquianos irão votar."Votarei porque não posso me dar ao luxo de ter minha ração de alimentos cortada", disse Amin Hajar, de 52 anos, dono de uma pequena garagem em Bagdá."Corre o boato de que se não votarmos cortarão a ração. Se isso acontecer, minha família e eu morreremos de fome", explicou.
Abu Sabah, proprietário de um armazém no distrito de Karrada, na capital, disse estar confuso sobre a votação. As eleições parecem apressadas e a existência de pelo menos três coalizões de partidos políticos com candidatos em sua maioria anônimos não tem sentido, afirmou. "Por que devemos votar em pessoas que nem mesmo conhecemos, sob ocupação, lei marcial e zona de guerra? E por que se espera que votemos em uma lista de candidatos quando apenas conhecemos, com alguma sorte, um ou dois nomes?", perguntou Sabah.
Nesse domingo, os iraquianos devem escolher os 275 integrantes de uma assembléia nacional transitória que terá poderes legislativos e elegerá um governo. Primeiro escolherá entre seus membros um presidente e dois deputados, os quais por sua vez elegerão um primeiro-ministro. A assembléia também deverá elaborar o projeto de uma nova constituição que deverá ser submetida a consulta popular antes do dia 15 de outubro deste ano. Se for aprovada, deverão ser convocadas eleições para antes de 15 de dezembro. Do contrário, antes dessa data se deverá convocar eleições para eleger uma nova assembléia e assim se repetir todo o processo.

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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