Direitos Humanos: Escritores e jornalistas perseguidos

Washington, 08/02/2007 – Um sobrevivente de uma prisão clandestina do Khmer Vermelho no Camboja está entre os 45 ganhadores este ano do prêmio Hellman/Hammett para jornalistas e escritores que sofrem perseguição política. Nas prisões do Khmer Vermelho, que imperou nesse país entre 1975 e 1979, foram assassinadas cerca de 14 mil pessoas. Vann Nath é um dos apenas sete sobreviventes da prisão secreta de Tuol Seng, ou S-21, onde sofreu torturas e quase morreu por inanição. Seus carcereiros não o mataram por causa de seu talento artístico: queriam que pintasse e esculpisse imagens do líder do Khmer Vermelho, Pol Pot.

“As representações em pinturas e texto das experiências de Vann Nath na prisão de Tuol Seng são um poderoso e contundente testemunho dos crimes do Khmer Vermelho”, explicou Márcia Allina, que coordena o programa Hellman-Hammett. O artista poderia ser uma testemunha-chave do tribunal organizado pelo Camboja e pela Organização das Nações Unidas para julgar os ex-líderes desse movimento, segundo a organização Human Rights Watch (HRW), encarregada de distribuir o prêmio. Vann Nath, que luta contra uma seria doença renal, é um dos 45 escritores de 22 países reconhecidos nesta terça-feira.

Entre os premiados estão jornalistas, novelistas, poetas, calígrafos, historiadores e blogueiros (que fazem blogs, sites na Internet que costumam funcionar como um diário pessoal de consulta pública). Mais da metade dos premiados são da China (9), seguida de Vietnã (8) e Irã (7). O programa foi criado em 1989 pela dramaturga norte-americana Lillian Hellman, que determinou que seus bens fossem usados para ajudar escritores em dificuldades financeiras por expressarem sua opinião. Hellman se inspirou em sua própria experiência durante o maccarthismo, período de perseguição de comunistas, reais e supostos, nos Estados Unidos a mando do senador Joseph McCArthy na década de 50.

A escritora e seu marido e colega Dashiell Hammet foram interrogados por comitês do Congresso sobre suas afinidades políticas. “Este prêmio tem o objetivo de ajudar os escritores a enfrentar e sobreviver às perseguições”, explicou Allina. Muitos dos beneficiados pediram para permanecerem no anonimato por medo de represália contra eles e suas famílias. Às vezes foi difícil encontrar alguns deles, porque estavam escondidos, acrescentou. Ainda assim, muitos concordaram em publicar suas historias e fizeram um esboço da situação da liberdade de imprensa no mundo.

Um dos premiados chineses, Huang Qi, é um blogueiro condenado por “incitar” a derrubada do governo” com a divulgação de artigos alusivos ao 11º aniversário do massacre estudantil na praça de Tiananmen, segundo a HRW. Em 1989, uma brutal repressão contra uma manifestação de jovens pró-democratas nessa praça de Pequim acabou com uma quantidade nunca determinada de vidas e levou o regime comunista a proibir as concentrações “ilegais”.

Huang Qi esteve cinco anos em uma prisão de alta segurança onde apanhava com regularidade. Foi libertado em 2005 e voltou ao seu trabalho anterior, mas o governo o vigia de perto e filtra o conteúdo de seu site na Internet na China, disse a HRW. A China é o país que tem mais jornalistas presos, 31 no total, informou na segunda-feira o Comitê para a Proteção de Jornalistas. Outro premiado é o iraniano Roozbeh Mir Ebrtahimi, de 27 anos, editor e jornalista de vários jornais fechados pelo regime islâmico.

Ebrahimi cobriu casos importantes de violação de direitos humanos no Irã e foi preso e mantido em isolamento por 60 dias em 2004. Além disso, o governo proibiu a publicação de seus dois livres de história nacional contemporânea. “O ano passado foi particularmente difícil para os escritores iranianos porque tiveram de enfrentar restrições, como nunca antes, com as novas normas e políticas de publicação”, disse Sarah Leah Whitson, diretora da HRW para o Oriente Médio. “É importante prestar atenção ao que fazem devido às atuais políticas repressivas”, destacou.

Por outro lado, alguns dos premiados vietnamitas estiveram presos ou foram proibidos de falar como estrangeiros durante a cúpula do fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) realizado em Hanói, capital do Vietnã, no ano passado, segundo a HRW. “Este é um ano especialmente importante para reconhecer escritores dissidentes do Vietnã”, disse Sophie Richardson, subdiretora da divisão para a Ásia da HRW. “O emergente movimento pró-democrático do Vietnã se tornou mais forte, mais direto e ganhou maior alcance, deixando em situação vulnerável seus ativistas diante das represálias do governo. O prêmio Hellman-Hammett concentra a atenção neles e lhes da certa proteção”, destacou.

Da América Latina foi premiada a jornalista colombiana Jenny Johanna Manique Cortés, editora do jornal Vanguardia Liberal da cidade de Bucaramanga, que descobriu seu nome em uma lista feita por um grupo paramilitar com nomes de jornalistas que seriam assassinados. Cortés está refugiada na Argentina. Os prêmios Hellman/Hammet outorgaram mais de US$ 2,5 milhões a mais de 500 escritores de todo o mundo em seus 16 anos de existência. Os valores variam de US$ 1.000 a US$ 10.000. (IPS/Envolverde)

Legenda: Vann Nath, sobrevivente da prisão secreta de Tuol Seng, ou S-21, onde sofreu torturas e quase morreu por inanição.

Guthrie Gray

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