Pena de morte: A família do condenado, vítima invisível

Nova York, 14/02/2007 – A imposição da pena de morte tem graves efeitos na família dos executados. O estigma é transmitido de geração em geração. “Vão matar o papai porque matou alguém. Então, quando o matarem, quem vamos matar?”. Essa foi a pergunta que Christina Lawson ouviu de sua filha de 10 anos, enquanto as autoridades carcerárias do Estado do Texas se preparavam para executar seu marido, David Martinez, em 2005.

As execuções deixam confusos e traumatizados os filhos dos condenados. E todos seus familiares. Alguns acabam à beira da insanidade mental, diz o informe “Creating More Victims: How Executions Hurt the Families Left Behind” (Criando mais vítimas: como as execuções afetam as famílias que ficam para trás). O estudo foi publicado pela organização Famílias de Vítimas de Assassinatos, por Direitos Humanos (MVFHR), com sede no Estado de Massachusetts, que também representa os familiares dos condenados à morte. “As famílias dos executados também são vítimas”, diz o informe.

A dor de um grupo de sobreviventes não deveria se reparada causando dor a outro grupo de sobreviventes. A sociedade precisa abordar o dano emocional e físico que sobrevém nesses casos. “Devemos parar de criar mais vítimas”, disse à IPS Robert Cushing, diretor-executivo da MVFHR. “Obviamente, há semelhanças entre as experiências dos que ficaram para trás depois de uma execução e aqueles que sofreram outros tipos de perdas violentas, como a necessidade de enfrentar a dor e o trauma”, acrescentou. Mas as consultas feitas com 36 famílias para o informe da MVFHR também evidencia importantes diferenças, afirmou.

As famílias dos executados sofrem “vergonha, um isolamento cada vez maior e sentimentos de fracasso pessoal”, explicou Cushing. Eles podem sentir-se responsáveis pelos crimes dos condenados ou por não terem conseguido salva-los da execução. A educadora Janis Gay, cujo avô Alex Kels foi enforcado em 1924 na prisão californiana de Folson, confirmou esse sofrimento à IPS. “As pessoas acreditam que a violência acabe com a execução. Mas não é assim. Como em qualquer assassinato, existe uma família destruída, com o impacto adicional de que fica sufocada pela vergonha”, afirmou.

A promissora carreira da mãe de Janis Gay como escritora foi interrompida pela depressão. Seu irmão morreu por causas relacionadas com o alcoolismo. Todo contato dos filhos e netos de Kels com os sete irmãos e irmãs do executado foi rompido para sempre. O trauma pode ser transmitido de uma geração a outra. Gay, que dirige a organização Famílias de Vítimas de Assassinatos pela Reconciliação, diz ser uma das poucas felizardas pôde pagar uma terapia psicoanalitica para enfrentar sua situação. “É impossível encontrar apoio. Não tem ninguém com quem falar, ninguém que compreenda. Às famílias das vítimas de um crime são oferecidas comida e assistência psicológica antes e depois da execução. Mas, para as famílias do executado não há nada”, contou.

O informe da MVFHR expõe outros exemplos de doenças mentais sofridas por familiares de executados. Misty McWee tinha 14 anos quando soube que seu país era acusado de assassinato, e 28 quando a execução se concretizou. Perto do primeiro aniversário da morte de seu pai entrou em profunda depressão, tentou suicidar-se e foi hospitalizado. “Senti que a execução do meu pai e minha tentativa de suicídio tinham ligação”, contou aos investigadores da MVFHR. “Não me importava o que aconteceria. Senti que deveria ir com ele”, acrescentou.

“Por que ninguém nos ajudou a sobreviver a isto? Quando entrávamos no tribunal, as pessoas nos olhavam com desprezo, somente porque éramos familiares de nosso pai. Uma pergunta: o que fizemos, como filhos, para merecer isso?”, acrescentou. “Há muito para se tentar compreender, e não ajuda ter outras pessoas julgando alguém. As pessoas consideram que toda a família deve ser má”, disse McWee.

“O problema é que os sobreviventes não são reconhecidos como vítimas. Não existem grupos de apoio às famílias das vítimas, nem serviços psicológicos disponíveis para as crianças que ficam para trás. Ninguém sabe onde estão. Levam vidas anônimas”, disse Cushing à IPS. A MVFHR exige a realização de mais estudos a respeito. “Desafiamos a comunidade de saúde mental a reconhecer que estas vítimas existem, e, também, que reconheçam a qualidade única de suas experiências, com o objetivo de planejar alternativas apropriadas de tratamento para elas”, acrescentou Cushing.

A MVFHR recomendou que os efeitos psicológicos a curto e longo prazos da execução na família dos condenados sejam incluídos na formação de trabalhadores sociais, psicólogos clínicos, especialistas em traumas e outros profissionais que possam entrar em contato com essas famílias. A organização também exorta os legisladores a darem um tratamento legal equitativo às famílias dos executados e às das vítimas de assassinato. Todas elas deveriam ter acesso a assistência e apoio, inclusive ajuda financeira para pagar tratamento médico e assessoramento em matéria de saúde mental e funerais, disse Cushing.

A MVFHR também reclama que o sofrimento da família dos executados seja considerado em um contexto de direitos humanos, mais do que de justiça penal. Os familiares merecem proteção, segundo a Declaração de Princípios Fundamentais de Justiça para as Vítimas de Crimes e do Abuso de Poder, aprovada pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas em 1985.

A Declaração define como vítimas quem experimentou “danos físicos ou mentais, sofrimento emocional, perda econômica ou substancial impacto sobre seus direitos fundamentais”. Estas vítimas “deveriam ser tratadas com compaixão e respeito por sua dignidade, e receber a necessária assistência material, médica, psicológica e social. A liderança deve partir da ONU. Este é um problema de direitos humanos internacionais”, concluiu Cushing. (IPS/Envolverde)

Mithre J. Sandrasagra

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *