Washington, 14/02/2007 – Ativistas expressaram frustração pela falta de ação do governo do presidente George W. Bush diante da grave crise humanitária na região sudanesa de Darfur. O mal-estar agravou-se quando o enviado especial dos Estados Unidos ao Sudão, Andrew Natsios, disse na semana passada, na Universidade de Georgetown, que as ações do governo sudanês em Darfur já não podem ser consideradas um genocídio, como havia definido o próprio Bush. “O termo genocídio é contrário ao que está ocorrendo agora”, afirmou Natsios, embora expressando desilusão pelo fato de o presidente da China, Hu Jintao, não ter pressionado mais seu colega sudanês, Omar Al Bashir, para que aceite o envio de uma força internacional de paz em Darfur, durante sua última visita a Cartum, na semana passada.
“A afirmação de Natsios, de que em Darfur já não ocorre um genocídio, nega a realidade dos fatos e as numerosas declarações da Casa Branca e do Departamento de Estado dos últimos dois anos”, disse o diretor-executivo da organização Africa Action, Nii Akuetteh. “É, mais do que nada, uma mudança semântica. As afirmações de Natsios representam uma tentativa calculada de redefinir a crise, minimizar sua urgência e tornar óbvia a necessidade de uma ação dos Estados Unidos”, afirmou.
Funcionários do Departamento de Estado disseram à IPS na segunda-feira que a política norte-americana sobre Darfur não mudou. Mas as declarações do enviado especial norte-americano causaram frustração entre os ativistas. Estes lamentaram principalmente que o governo Bush não tenha adotado medidas severas e aplicado o Plano B que prometeu no ano passado, com sanções internacionais, caso Cartum não permitisse o envio de uma força de paz. “Creio que as pessoas se sentem muito frustradas”, disse o ativista Eric Reeves, do Smith College, de Massachusetts.
“O fato é que a comunidade internacional, incluindo os Estados Unidos, simplesmente nega-se a fazer o necessário para obrigar Cartum a aceitar uma força de paz autorizada pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas”, acrescentou Reeves. O ativista afirmou que, mesmo se o Plano B de Washington fosse aplicado, não causaria mais do que “inconvenientes de curto ou médio prazo” para o regime do Sudão. O Conselho de Segurança aprovou uma resolução no dia 31 de agosto que autoriza uma operação de paz da ONU com mais de 22.500 soldados e policiais em Darfur, zona com área semelhante à da França e onde morreram entre 200 mil e 500 mil pessoas nos últimos quase quatro anos, em sua maioria membros de três grupos indígenas africanos.
A maior parte da violência foi cometida por forças do governo ou pelas milícias árabes janjaweed, apoiadas por Cartum, embora no último ano uma coalizão rebelde armada em parte pelos vizinhos Chade e Eritréia tenham ficado mais agressivas, particularmente no norte de Darfur. Desde o final de 2004, a União Africana tem em Darfur uma pequena força de paz enviada para supervisionar um cessar-fogo que rapidamente foi violado. Este contingente, escassamente armado e com menos de sete mil soldados, nunca conseguiu conter a violência na região.
Após a interrupção no último verão de um acordo de paz patrocinado pelos Estados Unidos e pela ONU entre o governo sudanês e uma facção rebelde, a administração Bush e outras nações ocidentais propuseram uma resolução do Conselho de Segurança para criar uma força “híbrida” entre a União Africana e as Nações Unidas com mais de 21.500 soldados e um mandato mais forte para proteger a população civil. Enquanto as missões de alto nível da ONU e de vários governos ocidentais obtiveram promessas de cooperação por parte de Bashir e outros funcionários sudaneses, Cartum até agora se nega a autorizar o envio de uma nova força, mesmo com as condições de segurança em Darfur continuarem se deteriorando e a violência ter se estendido ao Chade, onde há mais de 200 mil sudaneses refugiados.
No final de novembro, Natsios, ex-chefe da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e designado para o cargo de enviado especial para Darfur pela pressão de grupos ativistas, anunciou que Washington estava pronto para impor sanções adicionais como parte de um não especificado Plano B se Cartum não aceitasse o envio de uma força de paz no dia 1º de janeiro último. “O dia 1º passou, ou vemos uma mudança ou vamos ao Plano B”, afirmou.
O governo Bush nunca disse oficialmente quais eram as medidas previstas nesse plano, embora, em dezembro o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, cujo governo trabalhou estreitamente com Washington na questão referente a Darfur, tenha dado a entender que poderia incluir a criação de zonas de exclusão aérea em diferentes partes de Darfur para impedir que aviões atacassem povoados, bem como sanções econômicas multilaterais. O dia 1º de janeiro passou sem nenhum anúncio oficial. Entretanto, funcionários norte-americanos revelaram que foi implementada uma parte do Plano B, como o envio no mês passado de quatro coronéis do Exército com suas tropas para a fronteira com o Chade, em sinal de discordância com as incursões da Janjaweed a esse país vizinho.
O jornal The Washington Post revelou na semana passada que Bush havia aprovado outra parte do plano. Se Cartum continuar contra à resolução do Conselho de Segurança, o Departamento do Tesouro poderá bloquear as transferências por meio de bancos comerciais norte-americanos dos pagamentos por petróleo ao governo do Sudão, disse o jornal. Washington já aplicou sanções semelhantes com algum sucesso contra bancos de terceiros países que faziam negócios com a Coréia do Norte e o Irã. Entretanto, agora que passou o ultimato do dia 1º de janeiro, não está claro se estas ou outras sanções serão efetivamente aplicadas. (IPS/Envolverde)

