Bagdá, 14/02/2007 – A violência no Iraque não fez mais do que aumentar desde que os Estados Unidos enviaram mais 21.500 soldados a esse país. A presença militar norte-americana chegou desde o início da ocupação, em abril de 2003, à média mensal de 142 mil. Desde então, a violência contra esses soldados aumenta, mas, também as agressões à população civil iraquiana. Os iraquianos sofrem com a grave deterioração da segurança, dos serviços e da infra-estrutura, e, ainda, pelo ressentimento da coesão social desde a invasão do país em março de 2003 pelos Estados Unidos, apesar das promessas de liberdade, democracia e soberania.
Muitos iraquianos consideram, de fato, que um aumento das tropas dos Estados Unidos somente vai piorar a situação. “Isso melhoraria, sem dúvida, a situação das tropas no terreno, mas é preciso muito mais do que 20 mil soldados para mudar a situação de derrota para vitória”, disse à IPS o general iraquiano da reserva Ahmed al-Issa. “Ninguém questiona: os Estados Unidos perderam a guerra em todas as frentes. As únicas duas soluções são aumentar para 200 mil o número de soldados ou programar uma retirada com certos acordos prévios com os combatentes locais para evitar vítimas e um enorme caos”, disse o militar.
Em janeiro havia 132 mil soldados norte-americanos no Iraque, segundo o informe “ Buscando variáveis para a reconstrução e a segurança do Iraque depois de Saddam Hussein”, divulgado no dia 5 desse mês pelo independente centro de estudos direitistas Brookings Institution, com sede em Washington. Com 21.500 soldados a mais não se chega aos 160 mil de dezembro de 2005. O mesmo documento diz que há 14.650 efetivos de outros países no Iraque, a menor quantidade até hoje. Estrategistas militares iraquianos consideram que o último aumento de tropas não terá nenhum valor se o que se pretende é garantir a segurança e o avanço econômico de todos os iraquianos.
Mas, o objetivo do envio de soldados “é dominar a maior quantidade possível de opositores”, disse à IPS em Bagdá Duraid Aziz, advogado e analista militar de 46 anos que mora na cidade de Mosul. “O primeiro passo de seu plano de segurança foi atacar a área sunita de Adhamiya (em Bagdá) enquanto o Exército Mehdi (milícia xiita do clérigo Muqtada al-Sadr) continua matando iraquianos diante dos olhos do exército norte-americano”, afirmou. Aziz considera que Washington planeja entregar o país a milícias como a Organização Badr, braço armado do xiita e pró-iraniano Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque, que integra o governo. “O aumento de soldados só objetiva matar qualquer um que resistir diante do invasor”, ressaltou.
Nos últimos dias, as tropas dos Estados Unidos atacaram diversas áreas sunitas da capital, incluindo o distrito de Adhamiya. No último dia 7, o porta-voz do exército norte-americano no Iraque, general William B. Caldwell, disse que as forças de seu país e as iraquianas haviam começado a desenvolver um plano conjunto para garantir a segurança de Bagdá. “O plano está sendo implementado em sua totalidade neste preciso instante”, declarou Caldwell. Muitos iraquianos não acreditam que o plano funcione e concordam com Duraid Aziz. “Isto é um genocídio, e qualquer um que tenha olhos pode ver”, disse à IPS Muhammad Haddad, ativista de direitos humanos em Bagdá.
Forças iraquianas e norte-americanas “cometeram há pouco outro massacre depois do que fizeram em Najaf”, desta vez “em Samra, ao sul de Bagdá”, disse à IPS kamil Abbas, um professor de Iskandariya, também ao sul da capital. “Vão continuar fazendo isso porque não aceitam que nenhum iraquiano se sinta como um ser humano livre”, acrescentou. O informe do Brookings Institution contabilizou 185 ataques por dia contra as forças de segurança locais e estrangeiras em dezembro. O maior número registrado até agora, segundo essa instituição. Nos últimos quatro meses morreram mais soldados do que em qualquer período semelhante anterior, desde o começo da ocupação há quatro anos.
As autoridades iraquianas anunciaram no último dia 5 que pelo menos mil cidadãos haviam morrido na semana anterior por causa da violência política. “O aumento de soldados norte-americanos só significa mais agonia para o povo do Iraque”, disse à IPS Salam al-Dulaimy, um intelectual que estudou na Universidade de Bagdá. O presidente George W. Bush “só segue em frente enquanto espera um milagre, sem importar a grande quantidade de vítimas que a guerra deixa. Vejo este aumento como outro fator de distorção no Iraque e outra forma de ganhar tempo com o sangue do povo iraquiano”, afirmou.
Os sunitas estão passando mal com o lançamento de novos planos de segurança dos Estados Unidos e das forças iraquianas. A população nas áreas sunitas considera que o aumento de soldados e as medidas enérgicas de segurança trabalham contra ela. De todo modo, a maior presença militar não parece ter deixado a resistência nervosa. “Deixemos que Bush mande mais tarados para o Iraque. Mandaremos todos para o fogo eterno. Essa gente parece não ter aprendido o suficiente com lições anteriores. Nossa escola continua aberta”, disse à IPS um jovem da cidade de Faluja, em visita à capital.
Porém, os iraquianos estão pagando um alto preço pela falta de tranqüilidade. Uma em cada sete pessoas abandona seu lar em busca de lugares mais seguros, segundo funcionários da Organização das Nações Unidas. Trata-se do maior deslocamento de pessoas no Oriente Médio desde a guerra que aconteceu em seguida à criação do Estado de Israel em 1948. A violência provoca o deslocamento de aproximadamente 1.300 iraquianos por dia. Mais de 1,7 milhão já fugiram em busca de um lugar seguro. (IPS/Envolverde)

