Havana, 27/02/2007 – Uma das principais preocupações das famílias médias cubanas é a alimentação, com o que gastam cerca de dois terços de sua renda mensal, de acordo com diversos estudos. “Desde que levanto até sair para o trabalho a cada manhã penso no que trarei de comida à noite”, confessa uma professora de 40 anos, casada, com dois filhos e que cuida do pai já idoso. Seu problema não é o de seus primeiros anos de casada, que coincidiram com a recessão econômica dos anos 90 e com um desabastecimento generalizado. “Agora há muitos produtos nas lojas e no agromercado, mas o dinheiro nunca é suficiente”, disse a mulher, que conversou com a IPS sob a condição de não ser identificada.
A renda mensal de sua família é de, aproximadamente mil pesos, incluindo a pensão do pai, equivalente a cerca de 40 pesos conversíveis (CUC), única divisa de circulação permitida no país. O CIC é comprado nas casas de cambio estatais (Cadeca) a 25 pesos ou US$ 0,80. Após admitir que sua situação salarial não é das piores, que vive em casa própria, não paga escola da filha menor (a mais velha já trabalha) nem os cuidados médicos do país, porque “disso o Estado se encarrega”, faz uma queixa: “o que dão por libreto não é suficiente, como antes”.
Através do abastecimento racionado, marcado em uma caderneta familiar habilitada anualmente para isso, o governo cubano garante a cada cidadãos uma cesta básica a preços subsidiados que cobre “não menos que a metade das necessidades nutricionais”, segundo estimativas oficiais. Este sistema de venda regulamentada deve garantir a distribuição de arroz, feijões, açúcar, café, óleo, ovo, sal, macarrão, pão e bolacha, pescado, frango, outros derivados da carne, como salsicha, leite e iogurte para menores de idade. O gasto mensal por pessoa com os produtos de venda regulada varia entre 26 e 38 pesos, de acordo com uma pesquisa feita pelo Centro de Estudos da Economia Cubana (CEEC), ligado à Universidade de Havana, à qual a IPS teve acesso.
Tal modo de distribuição atendia aceitavelmente as necessidades básicas da família até a década de 80, mas agora, não dura mais do que 10 ou 12 dias no mês, concordam pesquisadores e consumidores. Para completar a dieta, a solução é ir aos mercados agropecuários, alguns muito sortidos e com produtos de melhor qualidade, mas com preços que seguem a lei da oferta e da procura. Para produtos como carne bovina, óleo ou manteiga é necessário dispor de pesos conversíveis. “Às vezes, compramos na ‘shopin’ (loja da rede comercial em divisas) um pacote de manteiga de 250 gramas, que no câmbio nos custa mais de 30 pesos”, diz a professora.
Para “o trabalhador que vive de seu salário cria-se uma situação difícil, pois o dinheiro que recebe pode ser muito para comprar os produtos regulados. Porém, não é suficiente para adquirir mercadorias que também são necessárias, mas que são vendidas a preços de mercado”, reconheceu no final de 2005 o presidente do Banco Central, Francisco Soberón. Uma pesquisa sobre a situação econômica dos lares feita pelo Escritório Nacional de Estatísticas em 2001 constatou que mais de 66,3% dos gastos totais da população da Cidade de Havana correspondiam a alimentos e bebidas, e apenas 33,7% aos demais gastos de consumo.
“É evidente que esta situação praticamente não variou nos últimos anos, mostrando a falta de elasticidade (sic) da estrutura dos gastos de consumo”, diz o estudo do CEEC, segundo o qual em países como Costa Rica e Espanha se dedica entre 33% e 26%, respectivamente, do orçamento familiar ao item alimentação. Entretanto, a pesquisa considerou que, embora a cobertura alimentar do abastecimento regulado não seja total, a situação melhorou ligeiramente entre 2001 e 2005, devido a algumas medidas tomadas para “melhorar a alimentação do cubano tanto quantitativamente quanto em relação à qualidade”.
O estudo cita o aumento das cotas de arroz nas províncias orientais; a entrega de quantidades adicionais tanto desse produto quanto de feijão; maior freqüência na distribuição de derivados da carne; regulamentação e ampliação das entregas de iogurte de soja, e aumento da distribuição de óleo vegetal. Esse conjunto de provisões permitiu “uma melhoria apreciável no consumo de nutrientes” entre os anos 2000 e 2005, com aumentos de 31% em termos de energia, 34% para a proteína e 46% no caso das gorduras, concluiu a pesquisa.
Mas independente das estatísticas, a professora prepara seu bolso cada vez que vai às compras. “No mercado agro mais perto de casa a carne de porco costuma custar entre 20 ou 25 pesos a libra, uma cabeça de alho entre três e quatro pesos, cebola de 4,5 a 10 pesos a libra. Está semana encontrei malanga (um tubérculo muito apreciado pelos cubanos) a dois pesos”, contou. Um economista que também não quis se identificar disse à IPS que em 2006 os preços dos produtos no mercado livre aumentaram 4,3% em relação a 2005, quando já haviam aumentado 7.1% em relação ao ano anterior.
Sua conclusão é que os preços não baixarão enquanto não aumentar a produção de alimentos, que em 2006 retrocederam pelo segundo ano consecutivo. O ano passado terminou com uma queda de quase 10% na colheita de viandas (tubérculos) e hortaliças, após uma queda de 20% em 2005, atribuída, sobretudo, a uma persistente seca. O pesquisador disse que tampouco a produção pecuária, em especial a bovina, conseguiu recuperar os níveis produtivos e indicadores de eficiência da década de 80.
“Em 2006 houve um bom regime de chuvas em todo o país e não ocorreram ciclones, o que evidencia que as causas da queda continuada da produção agrícola não podem ser atribuídas apenas às condições climáticas desfavoráveis”, alertou a fonte. O assunto foi centro de debates nas sessões de dezembro da Assembléia Nacional do Poder Popular (parlamento unicameral), durante as quais se apontou como um dos principais motivos dessa situação a lentidão do Estado para pagar os produtos que compra dos camponeses.
“Como podemos ter alimentos se os maiores produtores, que representam 65% da produção, não são pagos?”, perguntou o presidente interino de Cuba, Raúl Castro, que também é deputado. A discussão ficou pendente até as sessões parlamentares de junho, nas quais as instancias ligadas à agricultura deverão apresentar “um relatório oficial breve e concreto e sem justificativas” sobre o problema.
Segundo autoridades econômicas, Cuba deve aumentar sua produção agrícola e industrial de alimentos, não só para baixar os preços, mas, também para reduzir a dependência externa do setor, cujas importações cresceram 35% nos últimos dois anos. De acordo com estimativas oficiais, o país investiu no ano passado US$ 948 milhões na cesta básica de distribuição regulada para a população de 11,2 milhões de habitantes. (IPS/Envolverde)

