EUA: Batalha política pela retirada do Iraque

Washington, 12/03/2007 – Os legisladores do governante Partido Republicano anunciaram que não apoiarão a retirada completa das tropas dos Estados Unidos do Iraque antes de 1º de outubro de 2008, proposta pelo Partido Democrata. O Poder Executivo também se manifestou contra o projeto de lei a esse respeito apresentado quinta-feira na Câmara de Representantes. Em caso de aprovação, “deixaria de mãos atadas desnecessariamente nossos generais” no território iraquiano, afirmou o porta-voz da Casa Branca, Dan Bartlett. A medida, apresentada como emenda a um projeto pendente que destina outros US$ 100 bilhões ao esforço bélico no Iraque, também requer que o presidente George W. Bush inicie a retirada em julho próximo.

O começo da retirada poderia ser adiado, segundo a iniciativa, caso Washington se certificasse que o governo do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, avança para a reconciliação nacional e para o fim da violência causada pela religião. Também na quinta-feira, vários senadores democratas apresentaram um projeto que ordena ao presidente que comece a paulatina retirada do Iraque no prazo de 120 dias, com o objetivo de finalizá-la em 31 de março de 2008. Entretanto, os senadores republicanos já impediram por duas vezes que o Senado debatesse as políticas do governo no Iraque.

A Agrupação Progressista, do Partido Democrata, que reúne cerca de um quinto de seus representantes, divulgou sua própria proposta de emenda na quinta-feira, exigindo uma retirada completa de todas as forças norte-americanas do Iraque no mais tardar até o final do ano. A presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi se verá em dificuldades para conseguir sua aprovação. “Creio que no final estaremos unificados”, disse. Porém, mesmo que Pelosi tenha êxito, a emenda ainda terá de ser reconciliada com qualquer versão de projeto aprovado pelo Senado, cujos líderes continuam discutindo seus termos, e, ainda, superar o anunciado veto de Bush.

O presidente rechaça qualquer proposta, incluída a do bipartidário Grupo de Estudo sobre o Iraque, que estabeleça um calendário ou prazo para a retirada de soldados norte-americanos. O líder da minoria republicana da Câmara de Representantes, John Boehner, insistiu que a emenda proposta poria em perigo todas as possibilidades de êxito no Iraque ao “estabelecer um calendário (de retirada) e telegrafá-lo ao inimigo”. Fazendo eco às declarações da Casa Branca, acrescentou que o novo comandante das forças norte-americanas no Iraque, general David Petraeus, “deveria ser a pessoa a tomar as decisões sobre o que deve acontecer no território”.

A emenda proposta foi acordada quase três semanas depois que 17 republicanos se uniram a dois democratas na Câmara de Representantes para aprovar uma resolução não-obrigatória que contraria a decisão de Bush de enviar mais 29 mil soldados para se juntarem aos 140 hoje presentes no Iraque. A Agrupação Fora do Iraque, que se constitui por cerca de um terço dos democratas da Câmara de Representantes, alegou que os resultados das eleições legislativas de 7 de novembro determinaram ao partido forçar uma rápida retirada. Mas a direção democrata se preocupa que semelhante pedido provoque seus membros mais conservadores, os da Coalizão do Cão Azul.

Estes legisladores, que procedem de distritos que normalmente votam nos republicanos, são considerados especialmente vulneráveis a ataques do governo por serem “brandos” ou não darem apoio adequado aos soldados no campo de batalha. A Coalizão do Cão Azul tropeçou com uma proposta do republicano John Murtha de incluir requisitos específicos de celeridade e treinamento para as tropas no Iraque. Essas restrições tornaram inviável o plano de aumento de soldados de Bush. O projeto ao qual será juntada a emenda é o pedido de Bush de quase US$ 100 bilhões para continuar financiando operações militares no Iraque e no Afeganistão até o final do ano fiscal de 2007, que termina em 30 de setembro próximo.

Como os mais de US$ 60 bilhões já destinados para 2007 estão se esgotando rapidamente – os custos relacionados com a guerra nos dois países são de, aproximadamente US$ 12 bilhões mensais – no calendário legislativo foi dada alta prioridade ao projeto complementar. Pelosi disse esperar que isso facilitasse as tarefas do Comitê de Destinações nesta semana, para que o plenário da câmara possa votar no final do mês. Na realidade, a emenda soma US$ 4 bilhões ao pedido original de Bush, incluídos US$ 1bilhao para operações no Afeganistão, onde tanto o Legislativo quanto o Executivo parecem cada vez mais preocupados com um ressurgimento do movimento islâmico Talibã, que dominou o país entre 1996 e 2001.

A emenda também tenta incorporar algumas das recomendações-chave do Grupo de Estudo sobre o Iraque. Essa organização, que apresentou seu informe no começo de dezembro, havia convocado a retirada de todas as forças de combate do Iraque para 31 de março de 2008. A emenda democrata adiou esse prazo por mais seis meses. O Grupo de Estudo sobre o Iraque também havia exigido que Washington reduzisse sua ajuda ao Iraque caso o governo de Maliki não demonstre estar avançando realmente para a reconciliação nacional.

A proposta democrata incluiu entre os avanços previsíveis a promulgação de leis que assegurem uma eqüitativa distribuição regional dos ganhos com petróleo no Iraque e a adoção de emendas à Constituição projetadas para dar voz à população sunita, a maioria de cujos partidos boicotou as eleições para a assembléia constituinte do país. Se Bush não pode certificar que esses avanços estão se concretizando até 1º de julho deste ano, e novamente em 1º de outubro, deve retirar todas as forças de combate dos Estados Unidos unos seis meses seguintes.

A emenda também proíbe explicitamente o estabelecimento de bases permanentes dos Estados Unidos no Iraque, outra recomendação do Grupo de Estudo sobre o Iraque. Além disso, proíbe “o início de ações militares de ataque contra o Irã, exceto quando essas operações forem autorizadas” pelo Congresso. E, ainda, impõe, como propôs Murtha, vários requisitos referentes à prontidão, treinamento e rotatividade das forças norte-americanas no Iraque, mas permite a Bush renunciar a elas em determinadas circunstâncias.

A emenda desiludiu alguns ativistas contra a guerra que se alinharam ao calendário de retirada do Grupo de Estudo sobre o Iraque, ou inclusive um período mais breve, junto com um intensificado processo de negociações, tanto dentro do país ocupado quanto entre seus vizinhos, o que também foi defendido pelo Grupo. “O Congresso não conseguiu se dar conta da mensagem do informe” do Grupo “de que somente um processo político solucionará o problema”, disse Joe Volk, diretor do Comitê de Amigos da Legislação Nacional. “Ninguém pode continuar votando milhares de milhões de dólares em fundos adicionais para a mesma política falida quando sabe que esta fracassou”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *