Segurança: China e Taiwan em rota de colisão

Pequim, 12/03/2007 – A escalada de ameaças entre China e Taiwan ameaça acabar com a frágil calma entre os dois arquiinimigos. O Congresso do Partido Comunista, no governo na China, se prepara para estabelecer como meta a reincorporação em cinco anos de Taiwan, que consideram uma província renegada desde que o Partido Nacionalista (Kuomitang) ali se estabeleceu há mais de meio século. Em Taipé, o presidente Chen Shui-Bian e seu Partido Democrata Progressista, de tendência independentista, já estão em campanha para as eleições legislativas do final do ano, embora sua imagem esteja muito prejudicada por escândalos de corrupção.

Na medida em que se aproxima o final de seu mandato, Chen procura deixar um legado brilhante: a independência formal em relação à China, nunca declarada. “Taiwan é um país cuja soberania é alheia à República Popular da China”, disse Chen este mês, perante um auditório de independentistas, ao mesmo tempo em que o parlamento chinês realizava sua sessão anual. “Taiwan quer independência, quer retificar seu nome, quer uma nova constituição e quer desenvolvimento”, enfatizou o mandatário, que em 2000 havia se comprometido a não procurar a independência formal.

No dia seguinte, respondendo ao que considerou uma provocação, Pequim lançou sues próprios mísseis verbais. “Qualquer um que pretender a independência será um criminoso aos olhos da história”, disse o chanceler Li Zhaoxing. Mas Taiwan não retrocedeu. Ao contrário, o governo potencializou os estridentes chamados presidenciais com a confirmação de um teste de mísseis, capaz de alcançar Xangai e Honk Kong. O teste aconteceu em fevereiro, mas se tornou público na semana passada através do jornal United Daily News. Chen esteve presente no lançamento do foguete Hsuifeng (Vento Valente) 2E, informou o jornal.

A estratégia militar de Taiwan é fundamentalmente defensiva, e depende do apoio dos Estados Unidos, que está comprometido com a defesa da ilha. Mas informes surgidos no ano passado desde Taipé indicam que alguns assessores de Chen incentivaram uma postura mais ofensiva, baseada fundamentalmente no desenvolvimento de mísseis. A mudança é atribuída à febril atividade armamentista da própria China. O que mais preocupa Taiwan é a quantidade de mísseis que apontam para a ilha. Em janeiro, Taipé informou que eram 900.

O teste de mísseis taiwaneses ficou conhecido quando o governo chinês anunciou que aumentará em 18% seu gasto militar, o maior aumento desde 1990. No ano passado, o orçamento da defesa chegou a US$ 36,6 bilhões. Porém, especialistas internacionais calculam que o gasto militar chinês, na verdade, é três vezes maior do que a cifra oficial. Não é nenhum segredo o plano chinês de modernizar a enorme, mas em alguns setores mal equipada, força militar de mais de dois milhões de soldados. Um dos objetivos é manter a pressão sobre Taiwan.

A prova na qual um míssil chinês destruiu, em janeiro, um satélite meteorológico fora de uso foi interpretado como uma advertência para os Estados Unidos: os satélites norte-americanos poderiam ser o alvo em caso de um conflito no estreito de Formosa. O governo chinês ameaça há muito tempo usar a força militar se Taiwan declarar formalmente a independência. Há dois anos, o Congresso Nacional do Povo, o parlamento chinês, aprovou uma “lei anti-secessão” que legitima um ataque militar se o Poder Executivo considerar justificado.

Ao anunciar o novo aumento do gasto militar, o porta-voz do parlamento, Jiang Enshu, reiterou que a força militar continua sendo uma opção na busca da reunificação de Taiwan. “Apelaremos para toda nossa sinceridade e nossos esforços para avançar na perspectiva de uma reunificação pacifica, mas, não vamos tolerar de modo algum a independência de Taiwan”, advertiu Jiang. Por sua vez, os Estados Unidos criticaram em reiteradas ocasiones o empurrão armamentista chinês, que considera muito obscuro. Segundo Washington, o avanço militar poderia levar potências vizinhas, como Índia Japão, a seguirem o mesmo caminho.

O vice-presidente norte-americano Dick Cheney, afirmou em recente visita à Ásia que o teste com míssil em janeiro e o armamentismo são “consistentes com a meta de reunificação pacífica” declarada pela própria China. Mas Peng Guangxian, o célebre estrategista do Exército Popular da Libertação, defendeu o febril armamentismo chinês e o atribuiu somente à intenção de melhorar a capacidade de defesa da segurança nacional. “Somente os separatistas de Taiwan aqueles que têm motivos ulteriores a respeito da China poderiam se sentir incomodados com estes avanços”, disse em fevereiro.

Em Taiwan, o governo de Chen tentou, sem muito êxito, em seus anos de governo aumentar o orçamento militar para comprar armas norte-americanas no valor de US$ 18 bilhões. O parlamento, controlado pelo opositor Partido Nacionalista, nega-se a aprovar essa verba por considerar que é muito alta e inapropriada para as necessidades da ilha. Entretanto, enquanto fracassou na tentativa de aumentar o orçamento militar, o governo de Chen conseguiu avançar em sua luta independentista. Nos últimos meses, as autoridades publicaram manuais escolares que destacam o caráter único da identidade nacional de Taiwan. Além disso, algumas das grandes empresas estatais da ilha mudaram de nome, trocando a palavra China por Taiwan.

Taiwan se separou politicamente de Pequim após a vitória em 1949 das forças comunistas na China continental e a fuga dos líderes do Kuomitang para a ilha, onde estabeleceram um governo rival. Taipé afiram que 20 de reformas democráticas transformaram a ilha radicalmente e criaram uma nova identidade em sua população, enquanto a China insiste que Taiwan é uma província renegada que lhe pertence, e ameaça usar a força se a ilha se declarar independente ou não aceitar se reunificar. (IPS/Envolv

Antoaneta Bezlova

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