Iraque: Uma fraca luz no fim do túnel

São Francisco, 27/03/2007 – Pacifistas dos Estados Unidos reagiram com cuidadoso otimismo à votação na Câmara de Representantes pela qual os combates no Iraque deverão ser concluídos até setembro de 2008. Essa cláusula foi aprovada na sexta-feira, no contexto de uma lei de orçamento que dá ao presidente George W. Bush US$ 100 bilhões adicionais para as guerras no Iraque e Afeganistão, mas com a condição acima.

“É um pouco de teatro político”, disse Carolyn Eisenberg, professora de política internacional da Universidade Hofstra e co-presidente do grupo de trabalho legislativo da coalizão contra a guerra Unidos pela Paz e a Justiça. O projeto de lei aprovado pela câmara baixa é “um esforço para dizer que, de um modo ou de outro, está guerra deve acabar”, disse Eisenberg. Mas expressou certa preocupação por aspectos específicos da iniciativa que dão ao presidente Bush muito espaço para manobras.

O texto “não especifica a saída de todas as tropas: se refere às “tropas combatentes”, explicou. “É um buraco gigantesco. O que é um soldado combatente? O que é um soldado contra-insurgente, ou um instrutor de soldados iraquianos, que poderiam permanecer? É uma zona cinza. Devemos ser realistas. Esta lei não põe fim à guerra”, conclui a ativista. Por sua vez, o ex-representante Tom Andrews, do Partido Democrata e líder da coalizão Ganhar sem Guerra, se mostrou satisfeito pela aprovação do texto, mas expressou preocupação pelas previsões sobre a conversão das tropas de “grupos de treinamento em unidades iraquianas na guerra civil”.

“É uma situação horrível, um grande erro desta legislação”, acrescentou Andrews, que também questionou os líderes da Câmara de Representantes por bloquear uma cláusula que proibia o presidente Bush de atacar o Irã sem autorização do Congresso. Unidos pela Paz e Justiça pressionou o Poder Legislativo para que negasse ao presidente os fundos necessários para manter as tropas no Iraque. A maioria dos analistas atribui a vitória democrata nas eleições legislativas de novembro à impopularidade da guerra.

Os ativistas encontraram algum apoio entre os legisladores mais liberais. O representante John Lewis, que nos anos 60 trabalhou com o assassinado líder do movimento pelos direitos civis dos negros, Martin Luther King, disse aos seus colegas que “se hoje ele pudesse falar, diria que a nação precisa de uma revolução de valores que exponha a verdade: a guerra não funciona. Se hoje pudesse falar – repetiu – diria que a guerra é obsoleta como ferramenta de política externa”.

“Esta noite devo deixar muito claro que, como ser humano, como cidadão do mundo, como cidadão norte-americano, como membro do Congresso, como individuo comprometido com um mundo em paz e comigo mesmo, não aprovarei com um voto outro dólar, outro centavos, para apoiar esta guerra”, ressaltou. Mas Lewis foi um dos poucos representantes a assumir essa posição. Na noite anterior à votação, realizada na sexta-feira, a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, se reuniu com membros da coalizão legislativa fora do Iraque e acertou com eles deixar de pressionar para negar fundos.

Além disso, nessa ocasião acertaram destinar US$ 21 bilhões a programas que não têm relação com a guerra no Iraque, como construção de silos e escolas rurais e subsídios para agricultura. Boa parte desses programas pareciam servir para seduzir os legisladores progressistas que em oportunidades anteriores votaram contra a guerra. Entre eles figurava o representante Peter DeFazio, do Estado do Oregon, que votou contra o início da guerra, há quatro anos.

Na semana passada, a Câmara de Representantes do Oregon aprovou uma resolução pedindo a retirada de todas as tropas do Iraque, e o mesmo tempo fizeram os vereadores de Portland, Covallis e Eugene, nesse mesmo Estado. Mas a porta-voz de DeFazio, Danielle Langone, considerou que o financiamento escolar era mais importante para seu distrito do que o problema da guerra. De todo modo, DeFazio depois atribuiu seu voto ao fato de o projeto “fornecer equipamentos essenciais aos soldados e por um prazo à guerra. Foi o voto correto, um voto que estabelece um fim para uma guerra lançada mediante o engano do povo, que nunca deveria ser travada”, acrescentou.

Prevê-se que o Senado discuta um projeto semelhante esta semana. Uma vez aprovado, as duas casas legislativas formarão um comitê para acertar as diferenças entre os dois textos. Em seguida, a iniciativa será levada ao presidente Bush para sua promulgação. O mandatário ameaçou vetá-la. “Os democratas na Câmara de Representantes, em um ato de teatro político, votaram por substituir com seu julgamento ou de nossos comandantes militares no Iraque”, disse Bush. “Estabeleceram restrições rígidas que vão requerer a interpretação de um exército de advogados”. Para Bush, o prazo estabelecido é “arbitrário”, pois não considera, segundo disse, “as condições no terreno”. (IPS/Envolverde)

Aaron Glantz

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