Desenvolvimento: Argentina no caminho do software

Buenos Aires, 04/04/2007 – Na Argentina se expande de forma vertiginosa uma indústria com muitas vantagens: não contamina, requer pouco investimento, gera postos de trabalho qualificados e pode se desenvolver nas regiões mais pobres. Trata-se da produção de software e serviços de informática.

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A produção, as exportações e o emprego crescem desde 2002 neste setor – um dos mais dinâmicos da economia argentina – em níveis acima da média de crescimento geral. Além disso, o desenvolvimento não está concentrado geograficamente, mas repartido em múltiplas províncias.

Em 2002, a informática faturava US$ 190 milhões, e as exportações eram quase irrelevantes. Em 2005, o faturamento chegou a US$ 1,1 bilhão, com a exportação em US$ 170 milhões. “O governo apóia fortemente o setor com um plano estratégico e um regime de promoção, porque estamos convencidos de que é uma indústria que pode aspirar um lugar de destaque nos mercados local e internacional”, disse à IPS Fernando Grasso, coordenador da estratégia na Secretaria de Indústria.

A Câmara Argentina de Empresas de Software e Serviços Informáticos (Cessi) informa que a atividade vive um “crescimento multidimensional”. Emprega mais de 50 mil pessoas – o dobro das montadoras de veículos – e a incorporação de novos trabalhadores, a maioria jovens, cresce ao ritmo de 25% ao ano. Para contribuir com a queda do desemprego, o Ministério do Trabalho assinou convênio com esta câmara para treinar 700 desempregados e subempregados nesta nova atividade que envolve projeto, produção e implementação de programas informatizados e serviços para computação em todas as áreas da economia.

Porém, a chave da sustentabilidade da indústria a longo prazo esta no Plano Estratégico 2004-2014 para o desenvolvimento de software e serviços informáticos, em cuja elaboração participaram cerca de 280 pessoas entre representantes de órgãos do Estado, universidades e câmaras empresariais durante nove meses. O documento diz que na América Latina ainda não há um país que se destaque por sua capacidade no campo da informática, como ocorre com a Irlanda em relação à União Européia, ou com a Índia, líder em exportações para os Estados Unidos.

“A Argentina tem vantagens para pretender esse lugar”, como a formação de recursos humanos de alta qualidade, os quais poderiam apelar para a economia em sua atual fase expansiva como uma plataforma de aprendizagem para dar, em seguida, o salto aos mercados regional e global. Segundo Grasso, a Argentina poderia ocupar na região o lugar da Escócia, que junto com a Irlanda desenvolve serviços informáticos para a Europa com ênfase na qualidade, mais do que na quantidade. “É um projeto que tem prioridade na Secretaria e já pensamos e ampliar o prazo do plano estratégico para além de 2014”, acrescentou.

Para isto é necessário um trabalho coordenado entre Estado, empresas do setor e o setor acadêmico, para gera pólos de desenvolvimento de companhias de informática. Além disso, a lei de promoção da indústria do software, que foi aprovada e entrou em vigor há poucos meses, permitirá estabilidade fiscal e incentivos tributários. O programa também considera que se deve gerar um fundo de financiamento para a formação de pessoal com apoio do Estado e das empresas. Propõe, ainda, que o Estado, como maior consumidor de software e serviços, deve ter um papel destacado como cliente de produtos projetados e produzidos na Argentina.

O impulso à atividade já é percebido nas províncias. Na capital do país e m cidades da província de Buenos Aires, como Tandil e Mar del Plata, já há pólos de desenvolvimento de informática, e o mesmo ocorre em Córdoba, Entre Rios, Mendoza, San Luis e diferentes cidades de Santa Fé. Um dos pólos que desperta maior expectativa é o que está surgindo na província de Jujuy, noroeste da Argentina, e não pela magnitude do projeto, mas por situar-se em plena região critica do país, segundo a qualificação do Informe de Desenvolvimento Humano 2005 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

O estudo afirma que há nove províncias no norte do país que integram essa região crítica por seus elevados índices de pobreza, desnutrição, analfabetismo, desemprego e falta de investimento público e privado, e aconselha fomentar nessa área junto com empresas (clusters) para encontrar um modelo de desenvolvimento. Jujuy, com apenas 1,7% da população do país, é uma das províncias atrasadas. Mas ali existe um grande número de estudantes de carreiras da área de informática para um mercado com possibilidades limitadas. Assim surgiu a Iniciativa Jujuy, uma aliança entre universidade, governo provincial e empresas do setor.

Jorge Criot, gerente de projetos da Iniciativa Jujuy, explicou à IPS que o programa objetiva o desenvolvimento de capacidade e vocação para os empreendimentos de informática com vistas ao mercado. “Queremos produzir software para o mundo”, disse Griot desde essa província, situada 1.800 quilômetros a noroeste de Buenos Aires. Através de um concurso anual criado para incentivar o projeto de produtos e serviços entre estudantes e recém-formados, a Iniciativa Jujuy esse pessoal da Universidade Nacional de Jujuy, um dos pilares do programa, e premia a proposta mais inovadora.

“O prêmio é muito modesto, apenas 3,6 mil pesos (US$ 1,2 mil) para melhorar o equipamento, mas é um estímulo”, assegurou Griot. Atualmente há 50 estudantes trabalhando em diferentes projetos e duas empresas que já se consolidaram como fornecedoras para o exterior. Uma delas exporta para o Chile e a outra para Peru e Espanha, além de ter mercado em Buenos Aires e outras províncias argentinas. Desenvolvem programas de controle no uso da Internet dentro das organizações, de gestão de expedientes, de ferramentas de comércio eletrônico, de videogames e também de sistemas multimídia.

Entretanto, os próprios empresários alertam que nem todas as idéias maturam até chegar a um produto para o mercado. Outras requerem tempo para se consolidarem, enquanto algumas caminham com eficiência e empregam os que ainda não se animam a desenvolver um projeto próprio. “A Argentina tem um potencial muito grande de desenvolvimento”, disse Griot, que também é docente da Universidade de Jujuy. “Para os governos, esta é uma atividade muito boa porque requer baixos níveis de investimento, gera muita mão-de-obra qualificada e fortes rendas para as províncias”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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