Cuba-Espanha: Sinais à Europa

Havana, 05/04/2007 – Com o anúncio da próxima abertura de um mecanismo de diálogo sobre direitos humanos, Cuba e Espanha emitiram uma mensagem à União Européia sobre como avançar quando se quer chegar a um entendimento com esta ilha caribenha de regime socialista. Quando Cuba se trata, “a Espanha é a chave da Europa”, disse à IPS o reverendo Raimundo García, diretor do Centro Cristão de Reflexão e Diálogo, uma das poucas organizações da sociedade civil cubana que mantém um espaço de reflexão sistemático sobre direitos humanos.

Como ocorreu em 1996, quando o governo da época do centro-direitista José Maria Aznar promoveu a chamada “posição comum” da UE em relação a Cuba, “se a Espanha toma a iniciativa” outros países europeus poderiam tentar uma aproximação com a ilha, acrescentou o pastor batista. “Começa com a Espanha”, afirmou. “As chaves do sucesso” foram ressaltadas pelo chanceler cubano, Felipe Pérez Roque, e por seu colega espanhol, Miguel Angel Moratinos, que na noite de terça-feira encerrou uma visita de dois dias a Havana.

Para Roque, a Espanha “se afastou de um caminho de imposições e condicionamento político”, tendência que facilitou o “fechamento de uma etapa” e o reestabelecimento da “comunicação e do diálogo político entre os governos”. Por sua vez, Moratinos garantiu que viajou à Cuba “para conhecer e ouvir, compartilhar e não impor”. A única maneira de trabalhar “é através do diálogo, do entendimento, abordando todas as questões sensíveis, difíceis e complexas que temos na agenda comum”, afirmou o representante do governo socialista do primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero, no contexto da primeira visita à Cuba de um ministro de Relações Exteriores da Espanha desde 1998.

Os princípios para a manutenção de relações com a ilha aparecem no comunicado conjunto assinado ao final da visita de Moratinos e são a respeito da soberania, da não-ingerência nos assuntos internos, do fortalecimento do multilateralismo e da solução das diferenças internacionais pela via do diálogo e da negociação. Autoridades cubanas consideram que, assim, a Espanha se distancia da “posição comum” da UE que, em 1996, condicionou as relações de cooperação entre as duas partes à promoção de mudanças políticas internas em Cuba e propôs aos seus membros aumentar as pressões sobre o governo de Fidel Castro em matéria de direitos humanos e liberdades democráticas.

Desde então, a UE proclamou entre seus objetivos promover a passagem de Cuba para uma democracia pluralista, condição que Havana não aceita e considera que viola abertamente o direito da população da ilha de escolher seu destino, incluindo o sistema político. “A Espanha se aventura com audácia, tenta marcar uma pauta com a UE, demonstrar qual deve ser o caminho a seguir na relação com Cuba: o não-isolamento e o diálogo eficaz em todas as direções”, disse à IPS Manuel Cuesta Morúa, porta-voz do Arco Progressista, uma organização de oposição próxima da social-democracia.

O pastor García afirmou que pôde comprovar essa boa disposição ao diálogo em sua última viagem à Espanha, ao conversar com “dezenas de funcionários governamentais, parlamentares, representantes de partidos políticos, de sindicatos, organizações religiosas e outras da sociedade civil”. A “conclusão à qual pude chegar é que a Espanha está na melhor disposição para iniciar diálogos construtivos e colaborações com Cuba e que desde outros países europeus só se esperava a iniciativa espanhola para iniciar um forte movimento de aproximação”, explicou.

Entre os resultados práticos da visita do chanceler espanhol se destacam o reinicio da cooperação bilateral e a assinatura de um acordo para o estabelecimento de consultas políticas anuais, incluindo o diálogo sobre direitos humanos. “Nenhuma questão fica excluída a priori deste processo”, assegura o texto do acordo. Também se anuncia a busca de soluções para a questão da dívida cubana (cerca de US$ 1,2 bilhões), um novo acordo de promoção e proteção recíproca de investimentos e o início de conversações sobre o Centro Cultural da Espanha em Havana, em discussão entre as autoridades cubanas desde 2003.

O fechamento da instituição foi anunciado por Havana no dia 14 de junho desse ano, em meio às crescentes tensões que sucederam a detenção de um grupo de 75 dissidentes cubanos dois meses antes. A Espanha havia investido US$ 3,9 milhões na restauração da sede e a utilizou menos da metade dos 20 anos previstos no acordo inicial. Antes, a UE havia aprovado um pacote de medidas que incluía limites a visitas governamentais, redução da participação dos países-membros da União Européia em acontecimentos culturais relacionados com Cuba e a intenção de convidar representantes da oposição interna às comemorações de suas festas nacionais.

Em janeiro de 2005, a União Européia suspendeu essas disposições, embora nem todos seus embaixadores tivessem deixado de convidar representantes da dissidência para suas recepções oficiais, o aspecto do pacote que mais irritação causou ao governo cubano. A Espanha foi o primeiro país a dar um claro passo nesse sentido. A visita de Moratinos “mostra a via pela qual podem ser conduzidas as relações entre Cuba e a UE, bem como a capacidade e a vontade de resolver as diferenças mediante o diálogo acima do confronto e dos condicionamentos”, assegurou ao jornal Granma, órgão oficial do governante Partido Comunista de Cuba.

Como uma prova dos bons resultados da gestão espanhola, analistas locais interpretaram o fato de o chanceler ser recebido durante duas horas pelo presidente em exercício, Raúl Castro. O encontro fora anunciado em Madri, mas, não constava da agenda oficial distribuída à imprensa em Havana. O também ministro da Defesa substitui de maneira “provisória” seu irmão Fidel Castro, que convalesce de uma cirurgia desde julho passado.

Embora se esperasse a reunião de algum alto funcionário espanhol com representantes de diferentes setores da oposição política interna, isso não ocorreu e a embaixada da Espanha em Havana tampouco confirmou sua possível realização nos próximos dias. “Temos intercomunicação com todos os setores da sociedade cubana, estamos abertos a todos eles, porque nosso compromisso em matéria de direitos humanos sempre foi inalterável e continuará assim”, garantiu Moratinos ao fim de sua visita.

As Damas de Branco, grupo de mulheres e mães dos 75 dissidentes presos na primavera de 2005, expressaram seu descontentamento por não terem sido recebidas por algum integrante da delegação espanhola durante a visita de Moratinos e informaram que não participarão da reunião planejada, se de fato acontecer. No entanto, Cuesta Morúa avaliou como positivo o fato de Cuba estar disposta a abrir um processo para “caminhar no tema espinhoso dos direitos humanos” e, ao mesmo tempo, exortou o governo a “não esperar que a mesa de diálogo com a Espanha se construa e comece a dar passos unilaterais nessa direção”.

Embora o acordo bilateral garanta que o diálogo sobre direitos humanos não excluirá nenhum tema, o chanceler cubano assegurou aos jornalistas que a agenda com a Espanha não contempla a questão dos presos políticos na ilha, os quais chamou de “mercenários” a serviço de interesses estrangeiros. “É impossivl começar a falar de direitos humanos e não levar em conta as prisões em Cuba e as pessoas que estão presas por defenderem os direitos humanos. Teria de começar libertando já todos os presos políticos que há no país”, disse o dirigente de oposição após considerar que o atual processo deve seguir com “cautela”. (IPS/Envolverde)

Dalia Acosta

Dalia Acosta ha sido corresponsal de IPS en Cuba por muchos años. Se graduó en 1987 de la licenciatura en periodismo internacional en el Instituto Estatal de Relaciones Internacionales de Moscú. Trabajó un año en el diario cubano Granma y otros seis en Juventud Rebelde, donde incursionó en el periodismo de investigación sobre mujer, minorías, sida y derechos sexuales. En 1990 recibió el Premio de Periodismo Tina Modotti, y en 1992 el Premio Nacional de Periodismo por un reportaje sobre la comunidad rockera de su país. Empezó a colaborar con IPS en 1990 como parte de un proyecto de comunicación con el Fondo de Población de las Naciones Unidas (UNFPA). Desde 1995 se desempeña como corresponsal en La Habana, y entre 1991 y 2010 trabajó también para el Servicio de Noticias de la Mujer de Latinoamérica y el Caribe (SEMLac).

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