China-Japão: passos suaves em terreno delicado

Tóquio, 12/04/2007 – Na primeira visita de um primeiro-ministro chinês ao Japão em quase sete anos, iniciada ontem, Wen Jiabao chegou a Tóquio com a finalidade de aliviar a tensão entre vizinhos. Mas, analistas prevêem poucos resultados concretos. “A reunião entre Wen e seu colega japonês, Shinzo Abe, é um grande passo na direção certa. Mas, é difícil prever avanços na evolução de velhos problemas bilaterais”, disse à IPS Masahi Nishihara, especialista em segurança da Ásia-Pacífico do Instituto Nacional de Defesa.

Durante três dias, Wen devolverá a visita feita por Abe a Pequim em outubro. Os intercâmbios de alto nível entre os dois países foram interrompidos em 2000. O antecessor de Abe, Junichiro Koizumi, havia desagradado a China com suas visitas oficiais ao santuário Yasukuni, dedicado a chefes militares japoneses responsáveis por colonizar o norte desse país e outras nações asiáticas, como a Coréia, na primeira metade do século XX. Abe, que assumiu a chefia do governo em setembro, priorizou seu vínculo com a China, e assim ficou demonstrado com sua visita a Pequim no mês seguinte.

A visita lhe rendeu pontos por “dar o passo correto”, mas, analistas dizem que foi pouco para acalmar as tensões bilaterais. Wen chega a Tóquio em meio a crescentes problemas que pesam sobre as relações sino-japonesas. Entre elas o crescente gasto militar da China, a busca de gás no mar da China oriental e o teste, em janeiro, de um míssil de médio alcance, que repercutiu muito mal no Japão. Além disso, Pequim demonstra ser um forte competido do Japão na Ásia. Apóia, por exemplo, projetos de desenvolvimento na região do rio Mekong, o que desafia a liderança japonesa, consolidada através de sua assistência oficial na região.

“O crescimento econômico de dois dígitos da China acrescentou energia em sua influência regional e representa uma ameaça para o Japão. Agora, a China constitui um dos desafios diplomáticos mais difíceis para Tóquio”, disse Nishihara. Para gerar o ânimo adequado, Wen previa se encontrar com o imperador japonês e também se converter no primeiro líder chinês a dirigir-se ao parlamento. Mas, precavidos editoriais da imprensa japonesa sugerem que há um espinhoso caminho à frente. Referindo-s ao crescimento militar da China, entre outros assuntos delicados que marcam a visita, o jornal Asahi, o de maior tiragem do Japão, disse que “é difícil eliminar a desconfiança de uma vez”.

Porém, Hiroko Mada, especialista em assuntos chineses, insistiu que o vínculo econômico é o mais forte. Pode-se esperar que os dois governos se aproveitem desta circunstância com habilidade durante a visita de Wen. “Nenhum líder quer deixar de aproveitar a visita do primeiro-ministro chinês em seu proveito. Evitarão os assuntos difíceis e usarão a ocasião para apresentar um panorama positivo”, explicou à IPS. O comércio bilateral duplicou nos últimos quatro anos. Hoje o Japão é o terceiro sócio comercial da China, com um intercâmbio que em 2006 chegou a US$ 207 bilhões.

O investimento direto de empresas japonesas em território chinês aumentou 10% no ano passado, até chegar à cifra sem precedentes de US$ 50,290 bilhões. Funcionários chineses e japoneses prevêem acertar durante está visita a criação de uma comissão de estudo sobre cooperação econômica. As duas partes se comprometerão a manter reuniões regulares sobre assuntos como transferência tecnológica e cooperação na matéria. A imprensa japonesa informou sobre o estabelecimento de um novo acordo em mátria de vôos entre Tóquio e Xangai, para estimular a associação econômica.

Também há expectativas quanto ao Japão se comprometer a uma assistência continuada à China para combater a poluição, especialmente para reduzir o aquecimento do planeta. “A decisão de suspender empréstimos em ienes a partir de 2008 não deveria incluir a limpeza do meio ambiente chinês, o que também é importante para o Japão, um vizinho próximo”, afirmou Goshi Sato, economista ambiental da Universidade Kyushu. Quanto à China, a imprensa japonesa informa sobre o compromisso assumido por Wen d apoiar o chamado de Abe à Coréia do Norte para trabalhar com vistas a uma solução para a devolução de cidadãos japoneses seqüestrados por Pyongyang.

Espera-se que Wn, que em Tóquio é visto como um bom diplomata, aproveite ao máximo sua visita para melhorar a imagem da China no Japão. “Os dois líderes estão ansiosos para se manterem afastados dos assuntos difíceis. A visita será suave na superfície, mas as principais diferenças permanecerão quando Wen voltar para casa, observado por um Abe sorridente”, afirmou Nishihara. (IPS/Envolverde)

Suvendrini Kakuchi

Suvendrini Kakuchi is a Sri Lankan journalist based in Japan and covering Japan-Asia relations for more than two decades. Her focus is building understanding and respect between diverse populations in Asia based on equality and collaboration.

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