Ambiente-transportes: Muito melhor do que o etanol

Rio de Janeiro, 16/04/2007 – Os veículos híbridos elétricos (VHE) são a melhor solução para reduzir drasticamente a emissão de gases causadores do efeito estufa pelo transporte, inclusive mais do que os biocombustíveis, enquanto não for viável o uso de hidrogênio. Essa alternativa ganha força diante dos mais recentes informes do Grupo Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) da Organização das Nações Unidas, que reclamam medidas urgentes para conter o aquecimento da Terra, afirmam especialistas brasileiros.

O VHE pode reduzir em até 80% a contaminação causada por veículos que utilizam derivados de petróleo, “em alguns casos, até 90%”, disse à IPS Marcelo Massarani, professor de engenharia automotora da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Um VHE ainda custa entre 10% e 20% mais caro do que um convencional, mas nas condições de São Paulo a substituição representaria uma economia média de R$ 18 mil durante a vida útil de cada veículo, afirma a especialista Juliana de Queiroz em sua tese de mestrado, orientada por Massarani.

Em resumo, compreende menor consumo de combustível, redução de gastos médicos por doenças causadas pela contaminação e créditos no mercado de carbono criado pelo Protocolo de Kyoto, que fixa metas de redução das emissões de gases que causam o efeito estufa até 2012. Os benefícios do VHE são reconhecidos, mas “falta vontade política” para adotar medidas que impulsionem sua produção, afirmou Massarani. No Brasil, um estimulo evidente é a redução de impostos, que chegam a 33,3%, o dobro do cobrado na Europa, acrescentou.

O professor falou de sua intenção de reunir este ano em sua universidades governantes, representantes da indústria automobilística, outros pesquisadores e ambientalistas para discutir, em um seminário, estratégias para incentivar os novos veículos e remover os obstáculos à sua implementação. O VHE usa motor elétrico abastecido por baterias e um gerador que converte o combustível em eletricidade. Isto é, não deixa de usar gasolina diesel ou álcool, mas em quantidades menores.

“O motor elétrico é muito mais eficiente”, em especial na partida, não consome energia quando está parado, e quando se freia “seu motor se converte em gerador de eletricidade”, explicou à IPS Jayme Buarque de Hollanda, diretor do Instituto Nacional de Eficiência Energética (INEE). A energia perdida por veículos convencionais quando detêm sua marcha e o motor fica funcionando, nos Estados Unidos, é calculada em 17%. Já um veículo hibrido consome nada nesses momentos, ressaltou.

O motor à gasolina ou diesel “aproveita apenas um terço da energia consumida”, e o desperdício se nota no calor que produz e no cano de escapamento, acrescentou Antonio Nunes Junior, presidente da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE). O VHE não representa “um salto tecnológico”, mas aproveita as tecnologias existentes, porém, “em uma nova arquitetura que rompe modelos”, definiu Hollanda. É uma solução “mais eficiente, menos contaminante e mais barata”, mas sua entrada no mercado “é um processo lento”, pois toda cadeia de produção deve ser adaptada, com altos investimentos e certeza de retorno, explicou.

De todo modo, sua produção já começou e cresce nos grandes mercados. Mais de 320 mil automóveis híbridos foram vendidos no ano passado, 253.636 deles nos Estados Unidos (19,2% mais do que em 2005), e cerca de 40 mil no Japão, destacou Nunes Junior. Na Europa, onde há mais de 70 mil em circulação, a expansão foi de 56% ao ano. Uma barreira é o custo inicial mais elevado, embora se compense depois de quatro a seis anos de economia de combustível. Outra é que ainda há poucos modelos de automóveis híbridos e os compradores não encontram neles as características que desejam, por falta, por exemplo, de variedade de tamanhos, afirmou.

Mas “é consenso que o futuro do setor automotivo é a tração elétrica”, seja o VHE ou o veículo com baterias de íon e lítio, em desenvolvimento, que permitirá em um futuro próximo uma grande economia, previu Nunes Junior. A indústria japonesa é a que mais investe no desenvolvimento de baterias, e anuncia para a próxima década veículos elétricos com essa fonte de energia a preços competitivos. “É um processo irreversível, embora lento”, impulsionado pelos problemas ambientais e pela alta do petróleo, afirmou Hollanda. O desenvolvimento das baterias avança rapidamente em capacidade e redução de custos, tanto pelo esforço da indústria automobilística quanto da informática, acrescentou.

O aquecimento da Terra tem como uma de suas principais causas os mais de 700 milhões de automóveis que circulam hoje no mundo. Na Europa, estima-se que os carros particulares respondam por 10% da emissão de gases causadores do efeito estufa. E a cada ano o mundo produz mais de 40 milhões de novos veículos. O IPCC diz em seu informe divulgado em fevereiro que 14% das emissões provêm de atividades de transporte, entre as quais predomina a rodoviária. O Brasil tem a vantagem de combinar o VHE com etanol, que produz a partir da cana-de-açúcar, um exemplo de máxima eficiência energética, pois é muito produtivo e em seu processamento também gera eletricidade, destacou o especialista.

Porém, como o país tem um mercado pequeno, com uma frota total de 24 milhões de automóveis e produção anual de 2,1 milhões, a produção de VHE leves vai demorar para arrancar. A indústria irá preferir, naturalmente, ganhar escala em grandes mercados ricos, como Estados Unidos, Europa e Japão. Porém, o Brasil já produz e exporta ônibus elétricos híbridos e deverá em breve fazer o mesmo com caminhões. Seu caminho é começar por veículos pesados até que a pressão do mercado, estimulado pelo aquecimento do planeta e o preço do petróleo, torne viável passar para a produção de veículos leves, concluiu Hollanda. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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