Caracas, 16/04/2007 – Os presidentes da América do Sul estarão amanhãa na Ilha de Margarita, na Venezuela, em uma reunião consagrada à cooperação energética e marcada pela polêmica global em torno dos biocombustíveis, depois do pacto entre Brasília e Washington para impulsionar o álcool combustível. Sabendo que suas posturas são divergentes e impregnadas de geopolítica, e que não querem fraturas, mas negócios conjuntos, os governantes sul-americanos descartaram formalmente a linguagem de confronto e apelam à de “paz e amor” e à “persuasão” na defesa de seus pontos de vista.
Nos rascunhos do que será a declaração conjunta, os delegados dos governos reunidos na semana passada em Caracas concordaram que o grande objetivo é reduzir a pobreza e as assimetrias entre seus povos, com esforços de pesquisa, desenvolvimento de projetos e intercâmbio de tecnologias energéticas. Mas em assuntos como o do biocombustível, e em particular no desenvolvimento possível do etanol, extraído da cana-de-açúcar e do milho, não houve consenso nesses trabalhos iniciais, e os ministros de Energia e chanceleres deverão examinar a questão em reuniões que manterão nesta segunda-feira.
O Brasil acertou com os Estados Unidos, em visitas recíprocas dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush, desenvolver um mercado mundial de álcool combustível até quintuplicar, em 10 anos, a atual produção mundial de 40 bilhões de litros anuais de etanol. Depois dessa aliança, o presidente de Cuba, Fidel Castro, criticou a nova política de agricultura com fins de energia como uma “internacionalização do genocídio” e uma “condenação de morte antecipada” para 300 milhões de famintos que não conseguiriam alimentos de vegetais destinados à produção de combustíveis.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que até fevereiro havia acertado com Brasil e Cuba plantações de cana e construção de usinas para obter etanol, deu um guinada de 180 graus diante do que chamou de “problema ético e ecológico”, isto é, “a loucura que significa produzir alimentos destinados não às pessoas mas para os automóveis dos ricos”. Chávez disse que na cúpula de Ilha Margarita pedirá a Brasil e Colômbia (que também acertou com Washington um programa de biocombustíveis) que “usem suas terras para produzir alimentos para os 300 milhões de famintos da América Latina e do Caribe”.
O assessor do Presidente Lula para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, lembrou que Chávez e Castro “usam o etanol como combustível ideológico, quando deveria ser apenas combustível”, mas acrescentou que na reunião desta segunda-feira o mandatário evitará enfrentamentos e usará “um estilo de pacto positivo, de paz e amor”. Castro e Chávez, “de repente, viram em Lula um competidor no mercado de petróleo dos Estados Unidos e saíram em defesa desse nicho, a base da renda petrolífera venezuelana de US$ 70 bilhões ao ano”, disse à IPS o analista de oposição Manuel Malaver.
As declarações de Chávez “não passam de marketing político, um esforço para valorizar o petróleo, principal produto de exportação do país”, disse o coordenador do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, José Flávio Sombra Saraiva. Em um dos discursos em que atacou os planos de produção de etanol, Chávez disse que a América Latina “não tem que se preocupar com o fornecimento energético, pelo menos por cem anos, porque todo o petróleo que precisa está na Venezuela, e podemos produzir, durante 300 anos, tanto gás quanto o equivalente ao etanol que os Estados Unidos consumirão segundo seus planos”.
Mais além desta polêmica, a cúpula revisará as iniciativas e os projetos em andamento, de caráter regional ou bilateral, que colocam a energia como pivô da integração no contexto da Comunidade Sul-Americana de Nações. O chanceler venezuelano, Nicolas Maduro, recordou que se tratará do Gasoduto do Sul, projeto de oito mil quilômetros de tubulações para levar gás do Caribe até o Rio da Prata em seu país, bem como sobre as iniciativas de cooperação petrolífera estatal, conhecidas como Petrosur e Petroandina.
A reunião permitirá numerosos encontros bilaterais e de grupos, começando porque o anfitrião inaugurará uma escola latino-americana de medicina, perto de Caracas, junto com seu colega boliviano, Evo Morales. O Presidente Lula fará uma escala na cidade de Barcelona para colocar a pedra fundamental de uma usina petroquímica venezuelana-brasileira. As estatais Petrobras e Petróleos da Venezuela, também constroem uma refinaria no Nordeste do Brasil.
Participará da reunião a maioria dos mandatários sul-americanos, além do primeiro-ministro de Trinidad e Tobago, Eric Williams. Estará ausente o mandatário uruguaio, Tabaré Vázquez. Em Margarita, uma ilha de 960 quilômetros quadrados no sudoeste do Caribe, destino turístico da classe média venezuelana, foram impostas medidas de segurança que a blindaram para esta cúpula, informou o ministro do interior, Pedro Carreño. (IPS/Envolverde)

