Mudança climática: Conselho de Segurança não é competente

Nações Unidas, 16/04/2007 – O grupo dos 77 países em desenvolvimento, a maior coalizão dentro da Organização das Nações Unidas, acusou o Conselho de Segurança de violar a Carta da ONU ao sugerir um debate nos próximos dias sobre energia, segurança e mudança climática. A principal responsabilidade desse órgão politicamente mais poderoso das Nações Unidas é impedir guerras e preservar a paz mundial, conforme estipula a Carta, afirma o G-77, que engloba 130 países. Os outros assuntos, incluídos os vinculados ao desenvolvimento social e econômico, competem ao Conselho Econômico e Social (Ecosoc) e à Assembléia Geral, como também estabelece a Carta.

A forte reação do bloco pela reunião do Conselho de Segurança prevista para esta terça-feira constará de uma carta destinada ao embaixador da Grã-Bretanha, Emyr Jones Parry, atual presidente do Conselho, de 15 membros. O G-77 tomou essa decisão durante reunião a portas fechadas realizada quinta-feira. A carta denunciará que a crescente transgressão do Conselho de Segurança nos papéis e responsabilidades de outros órgãos da ONU constitui uma distorção dos princípios e propósitos da Carta e compromete os direitos de todos os membros das Nações Unidas.

O atual presidente do G-77 e representante permanente do Paquistão na ONU, Munir Akram, disse que alguns dos membros do bloco consideram que o Conselho de Segurança excedeu seu mandato. Também afirmou que assuntos como a não-proliferação nuclear inclusive o terrorismo são competência de todos os membros. “O propósito do Conselho de Segurança, como pude ler na Carta da ONU, é atuar quando há ameaças reais ou abusos que coloquem em risco a paz”, disse Akram à IPS.

Em outras oportunidades, o Conselho de Segurança também “invadiu” terreno do Ecosoc e da Assembléia Geral, ao manter reuniões sobre questões de gênero, HIV/aids, terrorismo, manutenção da paz e logística da ONU. No ano passado, o G-77, então presidido pela África do Sul, protestou contra um debate sobre a questão de logística no Conselho. Mas o então presidente desse órgão, o norte-americano John Bolton, negou-se a retirar o tema da agenda. Akram afirmou que estes assuntos não supõem uma ameaça à paz internacional, embora reconheça que é uma questão de interpretação.

O terrorismo pode significar uma ameaça à segurança mundial, mas o Conselho de Segurança deveria enfrentar situações concretas e não se envolver na criação de normas e leis internacionais, afirmou o embaixador do Paquistão. “O poder para criar normas, segundo minha interpretação da Carta, é uma clara competência da Assembléia Geral, e não do Conselho de Segurança”, acrescentou. Em entrevista coletiva na semana passada, Parry Jones afirmou que o fato de realizar uma reunião para tratar de questões relativas à mudança climática é algo destacável.

O encontro será presidido pela chanceler britânica, Margaret Beckett, e não está prevista a aprovação de nenhuma declaração nem de uma resolução, segundo ela mesma adiantou. Por sua vez, o Movimento de Países Não-alinhados (Noal), de 117 membros, também criticou a proposta britânica de realizar uma reunião do Conselho de Segurança sobre mudança climática. A representante de Cuba e atual presidente do Noal, Ileana Nuñez Mordoche, expressou “a preocupação do Movimento pela continua e crescente transgressão do Conselho de Segurança das funções da Assembléia Geral, do Ecosoc e de outros órgãos tratando de assuntos que são competências exclusivas destes últimos”.

A China, integrante do Conselho com poder de veto, é um membro-chave do G-77, junto com Gana, Indonésia, Panamá, Peru, Qatar, República Democrática do Congo e África do Sul, todos membros rotativos não-permanentes desse órgão. Akram disse que cada membro individualmente tem todo direito de expressar a opinião de seu país. “Alguns deles adiantaram que falarão na reunião do Conselho de Segurança, outros disseram que não o farão porque desafiariam a competência desse órgão para tratar do assunto”, disse à IPS. As questões ligadas à energia e mudança climática são consideradas vitais para o desenvolvimento sustentável.

A Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável realizada em Johannesburgo, em setembro de 2002, conferiu responsabilidades a esse respeito à Assembléia Geral, à Ecosoc, à Comissão sobre Desenvolvimento Sustentável, ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), à Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática e ao Protocolo de Kyoto. Por outro lado, “nenhum papel foi dado ao Conselho de Segurança”, disse Akram.

Um delegado asiático cujo país integra o G-77 disse à IPS que intuitivamente se poderia dizer que há uma ligação entre a degradação produzida pela mudança climática e a ocorrência de conflitos. Isso é evidente para qualquer um que pense que os conflitos costumam ter origem na necessidade de garantir determinados recursos que escasseiam no planeta, como a água. Mas o problema na hora de elaborar um argumento nesse sentido, como para sustentar o motivo de o Conselho de Segurança discutir tais assuntos, é que de maneira concludente não se pode citar nenhum conflito em particular como exemplo, afirmou.

“Por que supõe uma ameaça para a paz e a segurança internacional?”, se perguntou. Parece não haver estudos concludentes para que o argumento se baseie em pesquisas científicas exaustivas. “Essa situação gerou a idéia de que o debate se faz pelo simples interesse de discutir, ou nada além de promover o assunto”, acrescentou. Do contrário, a Grã-Bretanha teria procurado incluir a questão na agenda formal do Conselho de Segurança. O fato de não estarem planejando reuniões posteriores reforça essa idéia, acrescentou o delegado asiático. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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