China: Três bilhões de dólares… para quê?

Pequim, 17/04/2007 – Na medida em que prossegue a explosiva expansão das reservas em divisas estrangeiras da China, os mandarins financeiros discutem como lidar com essa riqueza dentro e fora do país. O governo pretende investimentos seguros e estáveis a longo prazo, mas enfrenta pressões dentro do país para que esse dinheiro seja usado em empreendimentos que beneficiem os interesses econômicos e estratégicos da China, embora isso implique uma diversificação em apostas de maiores riscos, mas também mais lucrativas. As reservas internacionais chinesas chegaram a US$ 1,2 trilhão no final de março, o que confirmou o gigante asiático como o maior possuidor mundial de divisas estrangeiras. E, ao amparo do crescente superávit comercial, aumentam ao ritmo de US$ 20 bilhões por mês.

O modo como for usada essa riqueza terá conseqüências nos mercados financeiros e de produtos básicos de todo o mundo, como ficou evidenciado no ano passado quando, ao saber-se que a China se preparava para comprar grandes quantidades de ouro, o preço do metal aumentou. No passado, Pequim usou suas reservas para recapitalizar suas principais instituições financeiras. Três dos quatro bancos do governo receberam US$ 60 bilhões no total. Enquanto as reservas cresciam aceleradamente nos últimos cinco anos, funcionários governamentais começaram a considerar que a China contava com suficientes recursos financeiros para enfrentar possíveis comoções externas e que os investimentos futuros poderiam ser escolhidos com mais cuidado.

Em março, o governo anunciou que seriam destinados entre US$ 200 bilhões e US$ 300 bilhões para uma nova agência de investimentos, ainda sem nome. Se lhe for dada autoridades suficiente, o novo organismo poderia utilizar centenas de milhares de milhões de dólares para adquirir bens financeiros ou estratégicos em todo o mundo, particularmente na África e América Latina, entre outras regiões em desenvolvimento. A China, por muito tempo conservadora em seus investimentos externos, é considerada uma administradora bastante cautelosa de seu dinheiro, mais preocupada com a segurança do que com a lucratividade.

O primeiro-ministro, Wen Jiabao, disse que o objetivo da nova agência será “preservar e aumentar” o valor das divisas estrangeiras e sugeriu que seu enfoque seria conservador. “A diversificação de nossas reservas estrangeiras se baseia em considerações de segurança”, explicou Wen ao encerrar a sessão anual do parlamento chinês, no mês passado. Estas declarações se dirigiam aos que previam um plano de investimentos mundiais que alteraria a ordem financeira mundial. A maioria das reservas chinesas estão denominadas em bônus do Tesouro norte-americano, o que dá a Pequim um retorno lento, mas seguro.

Figuras do governo de George W. Bush e operadores financeiros de todo o mundo temem que, em algum momento, a China decida se livrar de seus papéis em dólares, colocando em risco a economia dos Estados Unidos. Mas as autoridades chinesas estão submetidas a certa pressão interna para que as reservas sejam usadas de maneira produtiva e em beneficio da população. “A China é um grande país em desenvolvimento com uma enorme população, mas com recursos inadequados”, disse Lui Yuhui, do Instituto de Pesquisa Financeira da Academia Nacional de Ciências Sociais.

“Uma via de investimento dos fundos disponíveis para ajudar a manter o desenvolvimento do país seria comprar campos de petróleo, minas e inclusive terras aráveis”, afirmou Yuhui. Este argumento não é ouvido só no âmbito acadêmico, mas também dentro do governo. O vice-primeiro-ministro, Zeng Peiyan, anunciou em dezembro que as reservas estrangeiras seriam empregadas na compra de recursos vitais como carvão, ferro e petróleo, segundo informou na época a agência noticiosa estatal Xinhua. Outros sugeriram que esse dinheiro seja destinado a “propósitos patrióticos”, como fortalecer os interesses das empresas estatais no exterior.

A agência informativa Shangai Securitis News propôs utilizar parte dos fundos em investimentos estratégicos em companhias de energia, como a China National offshore Oil Corporation, ou na aquisição de tecnologia estrangeira para impulsionar a modernização das empresas nacionais. Porém, muitos demonstram apreensão diante dessa estratégia, pois poderia dar argumentos aos que acusam Pequim de pretender consolidar a “China Sociedade Anônima”. A falida tentativa chinesa de comprar a companhia de petróleo norte-americana Unocal provocou em 2005 uma onda protecionista em Washington. Legisladores dos Estados Unidos sugeriram que Pequim financiava essa operação com fundos atraídos ao país por meio da contenção do preço da moeda nacional, o yuan.

Só a criação de uma agência nacional especializada em investimentos pode resguardar os interesses chineses do perigo protecionista, afirma o especialista em assuntos bancários Guo Tiangyong, da Universidade Central Chinesa de Finanças e Economia. “O menor boato sobre possíveis compras da China pode elevar instantaneamente os preços”, explicou. “Sem um veículo apropriado de investimentos que opere em condições de segredo comercial estaremos em desvantagem e pagaremos altos preços”, acrescentou. Funcionários apontam como modelo a Temasek Holdings, órgão encarregado dos investimentos do governo de Cingapura, que maneja um enorme portfólio de fundos estatais. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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