Washington, 20/04/2007 – O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, se comprometeu esta semana a impor novas sanções ao Sudão “em breve” se o governo desse país não permitir o envio de 20 mil soldados da Organização das Nações Unidas e da União Africana para a região de Darfur. Bush advertiu, em discurso no Museu do Holocausto, em Washington, que as gestões do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, para persuadir o presidente sudanês, Omar Hassan al-Bashir, constituem “a última oportunidade de cumprir as justas demandas da comunidade internacional”.
“Se o presidente Bashir não cumprir suas obrigações perante os Estados Unidos da América, agiremos”, afirmou Bush, antes de enumerar uma série de passos previstos por seu governo e denominados com a fórmula genérica de “plano B”. Entre eles figura a imposição de uma zona de exclusão aérea sobre Darfur para impedir que aviões sudaneses ataquem alvos civis. O discurso teve um tom muito duro, sem antecedentes na política de Bush em relação ao Sudão. Mas ativistas pelos direitos da população de Darfur esperavam que o presidente aproveitasse a oportunidade para anunciar, mais do que novas ameaças, a aplicação efetiva de sanções.
“A Coalizão Salvar Darfur está desiludida porque o presidente Bush não anunciou a imediata imposição de duras sanções contra o regime sudanês para por fim ao genocídio”, disse o diretor-executivo desta aliança de cem organizações religiosas e humanitárias, David Rubenstein. “O presidente tampouco fixou prazos específicos para a aplicação dessas sanções para o caso de o Sudão manter suas ações genocidas”, acrescentou. O especialista em assuntos sudaneses John Prendergast, do Grupo Internacional de Crise (ICG), foi menos diplomático. “Depois do destaque que o próprio governo deu ao discurso, francamente me parece bastante chocante que tenha lançado esse aviso”, disse Prendergast à IPS. “Suas ameaças foram mais especificas” do que as feitas no passado, mas “sem ação não significam nada”, acrescentou.
O discurso de Bush aconteceu em momentos de intensa atividade diplomática em favor de Darfur. O governo do Sudão anunciou esta semana que admitiria o ingresso na região de três mil soldados de paz da ONU, apoiados por seis helicópteros, para unirem-se aos sete mil da União Africana que estão no local. Ban aplaudiu a aceitação do envio, que considerou um avanço para o cumprimento da resolução aprovada em agosto pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovando o envio de 21 mil soldados e policiais. “O mundo já ouvi as mesmas promessas do Sudão”, advertiu Bush. “O tempo das promessas acabou. O presidente Bashir deve agir”, acrescentou.
Os problemas em Darfur, reino independente do tamanho da França anexado pelo Sudão em 1917, começaram nos anos 70 como uma disputa pelas terras de pastoreio entre nômades árabes e agricultores indígenas negros. As duas comunidades compartilham a fé islâmica. Mas a tensão se transformou em uma guerra civil em fevereiro de 2003, quando guerrilheiros negros responderam com violência à hostilidade das milícias Janjaweed. Estas são acusadas de uma campanha de limpeza étnica contra três tribos negras que apóiam os dois grupos guerrilheiros. Presume-se que as milícias árabes têm apoio de Cartum, ou que o governo sudanês faz vista grossa para seus crimes.
Organizações humanitárias calculam que entre 200 mil e 450 mil pessoas morreram em conseqüência direta da violência, e que até 2,5 milhões abandonaram suas casas. Seguindo o exemplo do Congresso norte-americano, em 2004 o governo Bush acusou Cartum de “genocídio”, acusação que o mandatário repetiu em várias passagens de seu discurso de quarta-feira.
Organizações como a Anistia Internacional e Human Rights Watch não aderem ao termo “genocídio”, mas reclamaram em numerosas ocasiõs maiores ações da ONU para deter a violência, incluídas sanções duras contra o regime e as milícias janjawed. A violência atravessou no ano passado a fronteira do Sudão com o Chade, onde vivem mais de 200 mil refugiados de Darfur, e na República Centro-Africana. Na própria região sudanesa agravou-se a situação humanitária, principalmente devido à fragmentação de organizações rebeldes, uma das quais assinou com Cartum, em maio, um acordo de paz patrocinado pelos Estados Unidos e pela ONU.
Depois do acordo, o Conselho de Segurança aprovou o aumento da presença militar internacional na zona com a finalidade de proteger os civis. Mas Bashir se recusou a aceitar o envio. Segundo informe confidencial da ONU que vazou na quarta-feira para o jornal The New York Times e destacado por Bush em seu discurso, o exército do Sudão enviou armas e equipamento bélico pesado para Darfur, violando resoluções do Conselho de Segurança da ONU. (IPS/Envolverde)

