Carachi, 24/05/2007 – “Estes agentes estrangeiros estão contra o Islã. Como podemos permitir que trabalhem se os Estados Unidos estabelecem sua agenda e apóiam Israel?”, perguntou o clérigo paquistanês Maulana Fazalullah. Ele se referia Assembléia Geral da Organizações Não-Governamentais. “Todos os paquistaneses que trabalham para elas são inimigos do país”, afirmou em conversa telefônica com a IPS desde sua casa na Província da Fronteira Noroeste, limítrofe com o Afeganistão. Algumas áreas dessa província são redutos das milícias islâmicas Talibã, que governaram com mão dura o país vizinho entre 1996 e 2001.
Nos últimos meses, as ONGs e agências internacionais de ajuda sofreram crescentes dificuldades para operar nas áreas mais pobres do Paquistão, como o distrito de Swat, na Fronteira Noroeste. A voz do clérigo, de 33 anos, soava baixa e difusa pelo longa distancia, e ainda mais fraca à medida em que seu primo e porta-voz, Muslim Abdur Rashid, traduzia suas palavras em urdu. Mas, a ameaça era arrepiantemente clara.
Badar Zaman, presidente da Frente Juvenil de Swat, ONG especializada em educação não formal de meninas e com financiamento do governo, sente a hostilidade. “Só nossas companheiras mulheres podem fazer o trabalho direto. Nos tornamos estrangeiros em nossa própria terra, convertida em caldo de cultivo da militância armada islâmica. Eles nos têm reféns com sua versão do Islã”, afirmou Zaman. As 45 escolas informais criadas na comunidade e uma exclusivamente para meninas somam cerca de três mil estudantes. Todas essas instituições estão em perigo.
Nos últimos meses, Zaman recebeu uma dúzia de ameaças de morte. “As cartas dizem que se não dissolvermos nossa “agência” norte-americana, não deixarmos a barba crescer, não nos reconvertermos ao Islã e não buscarmos outro emprego sofreremos as conseqüências”, afirmou. “Essas mesmas cartas são enviadas às escolas de meninas, discotecas, e videolocadoras, cabeleireiros onde se oferece serviço e organizações não-governamentais, entre elas algumas dedicadas ao planejamento familiar”, acrescentou.
Caravan, uma ONG dedicada à educação eleitoral dos cidadãos e à defesa dos recursos naturais de Swat, também está sob ameaça, disse à IPS um de seus membros, Saeed Jafar Shah. Mas, ele, como Zaman, resiste a fechar seus escritórios, mesmo que isso signifique depender da proteção policial diante das máfias do corte ilegal de florestas, cujos líderes apelam à religião para defender suas atividades. “Já mataram um guarda comunitária em um de nossos postos de controle. Procuram nos amedrontar e usam as mesquitas para prejudicar nossa imagem. A gente do povo nos vê com desconfiança”, acrescentou.
O projeto “Alimentação para os pobres”, pelo qual Caravan ajuda 50 viúvas e 110 órfãos, perdeu impacto quando os clérigos convenceram os próprios beneficiários de que não deviam aceitar dádivas de “agentes de Israel”. Eles “lhes disseram que qualquer coisa boa que fizéssemos não só era suspeita como também inadmissível para o Islã”, diss Zaman. “Há pouco, negaram a entrada nas casas para nossas companheiras que pretendiam incentivar as mulheres a se registrarem como eleitoras.
Os idosos da comunidade disseram que elas não respeitavam o purdah e que trabalhavam com homens’, recordou Zaman. O purdah é o conjunto de normas de comportamento e vestimenta que vigora para as mulheres na versão do Islã predominante na área, as quais incluem o uso de véu e burca e de cortinas grossas nas janelas. “Nossas companheiras se sentiram muito humilhadas quando lhes disseram que as mulheres falariam com elas”, acrescentou.
No mês passado, cerca de 70 trabalhadoras da saúde contratadas pelo governo para prestar atendimento preventivo domiciliar em áreas remotas ao redor de Swat renunciaram aos seus empregos. Vários clérigos as qualificaram de “pecadoras”, em suas mesquitas. No último dia 19, oito funcionários do governo que faziam trabalho de planejamento familiar, entre eles três mulheres, foram feitos reféns por uma centena de fanáticos em Waziristão Setentrional, na Área Tribal Federal perto da Fronteira Noroeste.
A municipalidade de Bajaur, também nessa região, substituiu com homens, por razões de segurança, as vacinadoras que faziam seu trabalho de casa em casa. Em outra localidade fronteiriça, Darra Adamkel, os clérigos locais ordenaram à população que abandonasse as ONGs internacionais. Um deles, o mufti Khalid Shah, emitiu no mês passado um decreto pelo qual essas organizações são agências sionistas e que é dever de todo muçulmano destruir seus escritórios, atacar seus veículos e matar seus membros.
Há duas semanas, a Organização das Nações Unidas anunciou a suspensão de seu trabalho nos distritos da Caxemira paquistanesa afetados por um terremoto por causa de “ameaças de morte” contra seus funcionários. Tudo serviu para amedrontar os trabalhadores, desde incêndio d casas até artilharia avançada. Os telefones celulares e as 12 emissoras de FM do distrito de Bagh, transmitiam a mensagem de ódio. “Usamos esses canais para pregar os ensinamentos do Islã”, disse Rashid, o porta-voz de Maulana. “Agora, quase todos estão convertidos. Todas as mulheres, por sua própria vontade, respeitam o purdah, e acabaram as danças e a musica. “Há dois anos, por determinação de Maulana, muitos moradores destruíram seus próprios aparelhos de televisão. (IPS/Envolverde)

