Washington, 25/05/2007 – Enquanto desde os Estados Unidos e o Irã surgem sinais esperançosos rumo às conversações do próximo domingo em Bagdá, os defensores do status quo de ambos os países fazem grandes esforços para bloquear o incipiente diálogo.
A retórica hostil de Washington e Teerã continua sendo implacável, mas o simples fato de a Casa Branca ter concordado com uma reunião com representantes iranianos para discutir a situação no Iraque representa um corte nada pequeno com a política anterior dos dois países. Esta disposição à diplomacia, guiada por altos funcionários do Departamento de Estado, incluída sua titular, Condoleezza Rice, e seu segundo, Nick Burns, criou alguma esperança diante da insegurança reinante no Iraque.
Além disso, estas gestões contam com apoio dos novos chefes do Comando Central, órgão de coordenação entre as forças armadas no Oriente Médio e região. O Departamento de Estado mostrou tamanho interesse no diálogo que a própria Ric tentou falar diretamente com seu colega iraniano, Manuchhr Mottaki, na cúpula realizada no início domes no balneário egípcio de Sahrm l-Sheikh. Nessa ocasião Mottaki não correspondeu aos gestos de aproximação. De todo modo, Teerã deu outros passos que refletem a seriedade com que manejam a possibilidade de falar diretamente com Washington.
Reconhecendo a ansiedade que um potencial avanço diplomático causaria entre alguns vizinhos árabes do Irã, que poderiam tentar enfraquecer o diálogo, o regime islâmico iniciou há pouco uma campanha de aproximação com esses países. O objetivo em parte é aliviar o temor árabe de uma aproximação entre Estados Unidos e Irã. Teerã, por exemplo, enviou uma delegação liderada por Mottaki à recente sessão inaugural do Fórum Econômico Mundial realizado em Amã. Os iranianos pediram aos organizadores da conferência participação em painéis importantes.
Na ocasião, funcionários árabes defenderam as políticas de seu país com o velho truque de desviar a atenção dos árabes desde Teerã para as falidas políticas de Washington e o expansionismo de Israel. Mas, os participantes do fórum – principalmente elites empresariais de países sunitas e pró-norte-americanos – não mostraram maior receptividade a esses argumentos. Em várias instâncias, inclusive, pareceu evidente o esforço comum de vários Estados para fazer o Irã retroceder.
Muitas das ditaduras sunitas preferem manter o statu quo: nem uma guerra entre Estados Unidos e Irã nem a normalização do vínculo diplomático entre ambos. “Irã e Estados Unidos são os dois elefantes gigantes da região. Os árabes são a grama onde eles estão. Se os elefantes lutarem ou fizerem amor, a grama ficará amassada”, disse um funcionário árabe. Mas, os questionamentos mais fortes às iminentes conversações não partem dos Estados árabes, mas do Irã e dos Estados Unidos.
As recentes prisões no Irã de especialistas, ativistas e jornalistas possuidores da dupla cidadania iraniana-norte-americana pareem o produto de esforços do statu quo de Teerã para debilitar o frágil processo diplomático. Há poucas semanas, os serviços de inteligência iranianos detiveram haleh Esfandiari, uma avó de 67 anos que visitava sua mãe enferma, de 93 anos. Ao negarem seu acesso à sua advogada – a prêmio Nobel da Paz Shirin Ebadi – ou a visita de familiares, estas forças parecem calcular que o tratamento desumano a Esfandiari causará uma contra-ofensiva nos Estados Unidos contra o Irã e fará descarrilar qualquer abertura diplomática.
Como presidente do Programa sobre Oriente Médio do Centro Internacional Woodrow Wilson, em Washington, era previsível que sua prisão tivesse uma significativa atenção da imprensa. Estes elementos no Irã também prenderam o doutor Kian Tajbakhsh, consultor de programas do Instituto Sociedade Aberta no Irã. O trabalho deste conhecido cientista social e de seu instituto no Irã foi plenamente transparente e contou com aprovação das autoridades. O pretexto de sua prisão, apenas três dias após Esfandiari ser mandada para a prisão de Evin, foi que agia para incentivar uma “revolução de veludo”. Essa acusação carece de credibilidade.
As atividades de Tajbahksh se centravam em assuntos de saúde e políticas urbanas, mais recentemente na prevenção da aids e do uso de drogas. Pelo contrário, como Esfandiari, seu trabalho ajudou a abrir o Irã ao mundo exterior, o que constitui uma ameaça apenas para as forças do statu quo nacional. Em outro esforço que parece dirigido a afetar o clima político pouco antes de um histórico diálogo com os Estados Unidos, iranianos de linha dura se voltaram contra mulheres e homens que “se vestem de modo inapropriado”, em contravenção ao rígido código islâmico.
Centenas de pessoas foram presas e milhares receberam advertências. Alguns jovens apanharam nas ruas, no que foi descrito como uma volta aos primeiros dias da Revolução Islâmica de 1979, quando o zelo religioso estava em seu cerne. Além disso, terá negou, no último minuto, visto a vários norte-americanos convidados para duas conferências na capital iraniana, previstas para a próxima semana. Outros tiveram revogados os vistos que possuíam. Em Washington, sentar e esperar não foi a ação preferida pelos que se opõem às conversações entre os dois países.
Embora alguns legisladores promovam novas sanções draconianas contra o Irã – uma medida que no passado mostrou ser um obstáculo efetivo para a gestão diplomática – elementos da Casa Branca vazaram que no ano passado a Agência Central de Inteligência (CIA) recebeu a aprovação secreta para montar uma operação encoberta desestabilizadora do governo iraniano. Isto representa uma campanha coordenada de propaganda, desinformação e manipulação da moeda do Irã das transações financeiras internacionais.
Enquanto Washington Teerã se aproximam de uma possível abertura diplomática, é provável que aumentem e se intensifiquem as ações desesperadas e potencialmente violentas de forças do statu quo nos dois lados. Os acadêmicos, ativistas e jornalistas iraniano-norte-americanos, que de outro modo não teriam nenhum papel real nestes acontecimentos, provavelmente continuarão sendo os mais prejudicados por está contra-ofensiva. (IPS/Envolverde)
(*) Trita Parsi é autor de “Treacherous Triangle – The Secret Dealings of Iran, Israel and the Unitede States” (Triângulo traiçoeiro: as relaçoes secretas de Irã, Israel e Estados Unidos, Yale University Press, 2007). Também preside o Conselho Nacional Iraniano-Norte-americano.

