Desarmamento: Escudo antimísseis dos EUA reaviva a Guerra Fria

Budapeste, 05/06/2007 – Antes de partir para a cúpula do Grupo dos Oito, o presidente russo, Vladimir Putin, declinou de qualquer responsabilidade na eventual corrida armamentista que seria desatada por uma instalação de bases norte-americanas na Polônia e na República Checa. O sistema de defesa antimísseis dos Estados Unidos, supostamente criado para proteger o Ocidente de ataques da Coréia do Norte e Irã, ficaria composto por dois elementos em 2011: um radar na República Checa e uma base antimísseis em território polonês.

Motivado pelas crescentes críticas russas, Washington anunciou, às vésperas da cúpula do G-8 que acontece esta semana na Alemanha, intensificar as consultas diplomáticas a esse respeito com Moscou e membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A Rússia agradeceu a oferta, mas explicou que se opõem ao projeto e não está convencida das razões apresentas pela Casa Branca porque Coréia do Norte e Irã não têm capacidade de produzir mísseis balísticos que possam representar uma ameaça para o Ocidente.

O governo russo também considera que as bases se integrarão no complexo nuclear estratégico de Washington e que, ao instalar-se na Europa, perturbariam o equilíbrio mundial de forças estratégicas. Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Grécia, Holanda, Luxemburgo e Noruega também expressaram suas reservas diante dos planos dos Estados Unidos, República Checa e Polônia. Vários especialistas consideram que a Europa pode encaminhar-se para uma nova divisão como a criada pela guerra do Iraque, liderada pelos Estados Unidos, quando nações antes socialistas se alinharam com Washington.

“A Europa mostra divisões internas entre os que querem desenvolver uma política externa e de segurança autônoma e os que querem maior participação norte-americana nesse campo”, disse à IPS Pedro Courela, analista do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI), com sede em Lisboa. Para ele, a reclamação de tratar a questão de forma multilateral é uma “tentativa de dar um novo sentido às relações multilaterais transatlânticas”, em lugar de fazer prevalecer os vínculos bilaterais que neste último caso lhes “significaram um golpe”.

“Os Estados Unidos não parecem dispostos a negociar decisões já tomadas e aceitas por República Checa e Polônia. Será preciso esperar e ver se as nações da Europa ocidental são capazes de apresentar o assunto no contexto da Otan”, disse Courela. Motivado pelas preocupações das nações européias, o governo checo, mas não o polonês, solicitou que os Estados Unidos integrem um futuro sistema de defesa antimísseis da Otan.

A solicitação foi incluída para contentar os aliados esquerdistas da coalizão de governo, que havia prometido à oposição propiciar uma consulta popular a respeito da base. Por outro lado, a Polônia insistiu em tratar o assunto de forma bilateral e deixou de lado a possibilidade de negociar com a Rússia. Foi precisamente o que fez Praga no dia 27 d abril quando o presidente Vaclav Klaus discutiu o sistema de defesa antimísseis com Putin em Moscou. Putin foi contundente em sua condenação à base norte-americana, pela qual, segundo argumentou, as relações com a Europa “iriam piorar” e “o risco de prejudicar ou mesmo se aniquilar mutuamente, com segurança, aumentaria várias vezes”.

Em uma entrevista coletiva, Klaus disse que “havia garantido ao presidente russo que seu país não tem intenção de que os radares representam uma ameaça para a Rússia”. Putin respondeu dizendo que “é compreensível, pois Praga não teria nenhum controle sobre a base”. Porém, a visita de Klaus não teve muito efeito na Rússia nem em seu país, onde grande parte das autoridades e da imprensa desconfia bastante dos argumentos russos e alegam que a infra-estrutura da base é muito insignificante para representar algum tipo de ameaça a Moscou.

O chefe do Estado Maior das forças armadas russas, general Yury Baluyevskiy, respondeu: “A quantidade de interceptores previstos não é significativa. O importante é a construção em si mesma e o fato de que pode ser desenvolvida”. Mas, para muita gente em Praga e Varsóvia, a base significa uma possibilidade de se converter em aliados privilegiados dos Estados Unidos e escapar do que consideram ser ambições da Rússia na região. Inclusive, às vezes é definida como o último passo para a “libertação” da Rússia. Esse processo “começou com a retirada das tropas soviéticas e a construção do radar seria sua culminação”, disse à imprensa o primeiro-ministro checo, Mirek Topolanek.

Ao prometerem que o escudo antimísseis melhorará a segurança, os defensores checos e poloneses também pedem aos Estados Unidos mais garantias a esse respeito. Também há especulações crescentes sobre como a Rússia pode responder à construção da base militar na Europa oriental. Moscou já ameaçou se retirar do Tratado para a Eliminação de Mísseis de Médio e Curto Alcance e do Tratado sobre Forças Convencionais na Europa, e não renovar seu compromisso com o Tratado de Reduções Estratégicas Ofensivas depois de 2009. A represália pode chegar pelo lado econômico, pois ambos países dependem do gás russo e Moscou pode provocar uma crise suspendendo o fornecimento. (IPS/Envolverde)

Zoltán Dujisin

Zoltán Dujisin is presently based in Prague and covers the post-communist transformation of the Czech Republic, Hungary, Slovakia, Poland and Ukraine for IPS. Zoltán introduced himself to IPS in 2004 when he was based in Kiev, Ukraine, covering the country’s “Orange Revolution”. Since then he has gradually expanded the region’s coverage, working two years in Budapest, Hungary, and travelling extensively in the region. A political science graduate from the Technical University in Lisbon, Portugal, his studies brought him to the Czech Republic, Belgium and the Ukraine. He recently concluded a master’s degree in nationalism studies at the Central European University in Budapest, Hungary.

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