México, 08/06/2007 – O governo do México diz sentir-se cômodo no clube dos países que as potências identificam como “emergentes”. Mas mantém diferenças acentuadas e até conflitos com Brasil e China, dois de seus companheiros no Grupo dos Cinco. O presidente Felipe Calderón, junto com seus colegas de Brasil, China, Índia e África do Sul, foi convidado a participar da cúpula do Grupo dos Oito países mais poderosos do mundo (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia), que acontece na localidade alemã de Heiligendamm. A agenda da reunião do G-8 inclui medidas concretas para combater a pobreza na África, reduzir a contaminação ligada à mudança climática e diminuir o desequilíbrio do comércio mundial.
Calderón leva algumas propostas gerais sobre combate à pobreza e à contaminação, bem como de apoio à democracia e a favor da reativação da Rodada de Doha sobre liberalização do comércio internacional, que permanece em coma. Mas o que o mandatário mexicano mais buscará será estreitar vínculos com os países ricos para atrair investimentos e comércio e atenuar os golpes comerciais desferidos contra seu país por Brasil e China nos mercados globais, disse à IPS Diego Ventura, pesquisador de assuntos internacionais da Universidade Nacional Autônoma do México.
Entretanto, a presença do México e demais países emergentes será pouco relevante na cúpula do G-8 diante das presumíveis divergências entre Estados Unidos e Europa a respeito da mudança climática e das ameaças e de Moscou contra Washington pela instalação de escudos antimísseis na Polônia e República checa. México e Brasil já expressaram diferenças diante da proposta de George W. Bush de que seu país e outra dezena de nações adotem prazos para reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa, considerado responsáveis pela mudança climática. O ministro de Meio Ambiente do México, Rafael Elvira, saudou apoiou a iniciativa, enquanto o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou que em lugar em novas propostas Washington deveria ratificar e cumprir o Protocolo de Kyoto que estabelece reduções obrigatórias para todos os países industriais que o assinaram. Brasil e México mantêm uma longa e latente disputa pela liderança política da América Latina, que se expressa, por exemplo, no interesse de ambos em ocupar um lugar permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Essa é a opinião do pesquisador de relações internacionais Rafael Fernández de Castro, do Instituto Tecnológico Autônomo do México.
Outro assunto é a disputa de mercados. Embora o México tenha um acordo de associação com a União Européia desde 2000, o Brasil há uma década negocia sem êxito através do Mercosul um contexto semelhante, que se consolidou como um dos principais sócios comerciais dos europeus na América Latina. “O Brasil projetou para o exterior essa potência econômica e demográfica que tem, enquanto o México teve essa projeção que merece”, disse ao jornal mexicano Reforma Nicolas Pascual de la Parte, chefe de gabinete do alto representante da União Européia para a Política Externa e de Segurança, Javier Solana.
As duas nações têm interesses diversos e “cada um defende os seus”, admitiu o Presidente Lula em uma visita ao México em 2003. Um funcionário da chancelaria mexicana que não quis se identificar disse à IPS que as diferenças “normais” com os membros do G-5 não incomodam o governo de Calderón. “Nos sentimos identificados nesse grupo”, afirmou. Com relação à China, a situação é mais tensa. Em 2002, a nação asiática arrebatou do México o posto de segundo fornecedor mais importante dos Estados Unidos, que havia ocupado em parte graças ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte, em vigor desde 1994 e ao qual também pertence o Canadá.
Além disso, produtos chineses de baixo preço, tanto importados quanto contrabandeados, inundaram nos últimos anos o mercado mexicano já abastecido de bens semelhantes nacionais, o que levou à perda de milhares de postos de trabalho e aumentou a queixa constante dos empresários. Enquanto outros países latino-americanos, como Brasil, Argentina, Chile e Peru, se beneficiam das crescentes vendas de produtos básicos para a China (ávida por minerais, hidrocarbonos e alimentos), o México se lamenta. Este país exporta muito pouco para a China e compete com ela em itens semelhantes como manufaturas, têxteis e eletrodomésticos.
Na cúpula do G-8 Calderón tentará alguns passos para endereçar seus vínculos com Brasil e China, mas sua principal intenção será atrair investimentos e comércio das nações ricas, enfatizou o especialista Ventura. A economia mexicana é uma das 15 maiores do mundo pela magnitude de seu Produto Interno Bruto. Mas, como o Brasil, está muito longe de alcançar o grau de desenvolvimento dos membros do G-8, segundo estudos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. (IPS/Envolverde)

