Iraque: O silêncio cúmplice da ONU

Nações Unidas, 15/06/2007 – A coalizão liderada pelos Estados Unidos é a principal causa da crise no Iraque, mas conta com o silencio cúmplice da Organização das Nações Unidas, disse o independente Global Policy Forum. Desde a invasão em março de 2003, as forças de ocupação norte-americanas e britânicas “fracassaram por completo em levar a paz, a prosperidade e a democracia ao povo iraquiano, como prometeram originalmente”, afirmou este grupo, dedicado a analisar acontecimentos relacionados com a ONU, em seu informe “Guerra e ocupação no Iraque”. Para o GPF, as Nações Unidas e a comunidade internacional devem por fim à cumplicidade do silencio e encarar seriamente a crise no Iraque”.

Elaborado pelo GPF e por 29 organizações não-governamentais, o informe foi divulgado na quarta-feira coincidindo com os debates no Conselho de Segurança da ONU sobre a situação iraquiana. O trabalho, de 117 paginas, analisa as condições nesse país do Oriente Médio, em particular a responsabilidade da coalizão liderada por Washington, em violações do direito internacional, e conclui com várias recomendações, incluindo a rápida retirada das forças de ocupação. No documento são denunciados assassinatos e torturas contra civis, detenções ilegais, deslocamento de populações, destruição de patrimônio cultural, casos de corrupção e fraude e atentados contra cidades e bases militares.

“Isto está acontecendo fora de controle, e a coalizão argumenta que o faz sob mandato do Conselho de Segurança”, disse à imprensa o diretor-executivo do GPF, James Paul. “É tempo de um novo enfoque. O Conselho não faz nada neste assunto. Tem de desenterrar a cabeça”, acrescentou. O GPF compartilhou os resultados do trabalho com países-membros do Conselho. “Muitos deles se interessaram pelo informe”, disse à IPS a coordenadora de programas para o Conselho de Segurança do GPF, Celine Nahory.

Várias delegações na ONU exigem que a informação sobre o Iraque seja compilada de diferentes fontes para ter uma imagem clara da situação, e o informe responde a essas expectativas, destacou Nahory. Perguntada se o GPF recebeu alguma reação dos membros do Conselho de Segurança, a coordenadora respondeu que vários embaixadores falaram de forma privada com o grupo sobre as dificuldades de tratar do assunto dentro desse organismo. “Um embaixador disse claramente que os Estados Unidos tinham a liderança neste assunto”, ressaltou Nahory.

O presidente norte-americano, George W. Bush, assegurou em um discurso feito dia 2 de maio de 2003 que havia cumprido sua missão no Iraque. Entretanto, o conflito continuou por mais de quatro anos. Milhares de inocentes foram mortos e feridos, há milhões de refugiados, muitas cidades iraquianas viraram ruínas e grandes quantidades de dinheiro foram mal bastas, diz o informe. As crescentes divisões sectárias e o derramamento de sangue entre os próprios iraquianos são algo condenável, destaca o informe, mas, a principal responsabilidade é dos Estados Unidos e de sua coalizão, cuja ocupação permitiu o surgimento destes grupos e cujas políticas não protegeram a população civil.

Além disso, Washington e seus aliados ignoraram as advertências de organizações não-governamentais e acadêmicos sobre a necessidade de proteger o patrimônio cultural iraquiano, incluindo museus, bibliotecas e locais arqueológicos. A Biblioteca Nacional incendiou e o Museu Nacional foi saqueado, segundo o documento. Em seu capitulo sobre prisões ilegais, o GPF denunciou que há muitos cidadãos iraquianos “detidos por segurança” sem julgamento, em uma aberta violação ao direito internacional. “Mais de 40 mil iraquianos estão detidos”, ressaltou Paul.

Os presos não têm respeitados seus direitos básicos e são mantidos sob deploráveis condições de reclusão por longos períodos, segundo o informe, que inclui dados recentes das organizações Human Rights Watch e Anistia Internacional. A tortura é cada vez mais comum nas prisões iraquianas, ao que parece com o conhecimento e a cumplicidade das forças norte-americanas. “Há quatro milhões de iraquianos; 509 mil abandonam suas casas a cada mês e mais da metade da população vive com menos de US$ 1 por dia. Entretanto, o Conselho de Segurança nunca tratou da crise humanitária no Iraque”, afirmou Nahory, destacando que “os números referentes ao Iraque são o dobro dos do Sudão”.

O GPF exortou o Conselho de Segurança a assumir suas responsabilidades e examinar alternativas para o futuro. “Este organismo deve reconsiderar imediatamente seu mandato”, ressaltou Nahory. Autoridades norte-americanas e da ONU não responderam aos pedidos da IPS para que dessem sua opinião sobre o informe do GPF. (IPS/Envolverde)

Mithre J. Sandrasagra

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